terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O Rossio, a Betesga, Guterres e Barroso

O exercício televisivo ontem conduzido por Paulo Dentinho e António José Teixeira, com a mútua entrevista a Durão Barroso e António Guterres, ficou aquem daquilo que poderia ter sido. "Meter o Rossio na Betesga" é um exercício difícil e a ambição foi excessiva. 

Desde logo, como aproveitamento para lançamento da revista XXI, a iniciativa falhou. Salvo uma breve menção no início do programa, a publicação "desapareceu" muito cedo como pretexto para a conversa. E é pena. Havia boas questões que alguns dos textos da publicação poderiam ter suscitado (e claro que não falo do meu, cujo tema - Schengen - não era de todo relevante para o debate). Assim, a meu ver, a conversa com as duas personalidades portuguesas com maior visibilidade internacional em tempos recentes acabou por não ser algo muito estimulante. 

O antigo presidente da Comissão Europeia assumiu uma postura que poderíamos chamar de "euroentusiasmo" correto, isto é, optou por sublinhar os inegáveis feitos da integração, pretendendo esconder que, não obstante estes, a Europa está num estado caótico, com divisões internas muito fortes e sem um sentido de direção. Remeter toda a responsabilidade para os Estados membros foi também uma forma de iludir as responsabilidades de quem teve nela funções executivas relevantes, as quais, se diferentemente exercidas, talvez tivessem podido atenuar alguns dos problemas atuais.

António Guterres tinha um problema nesta conversa. É óbvio que tem uma leitura muito crítica da situação internacional e da partilha de responsabilidades que incumbe aos vários atores políticos pelo estado de coisas em que vivemos. A sua experiência no terreno, ainda mais recente do que a de Barroso, deu-lhe elementos muito concretos para, se quisesse, "chamar os bois pelos nomes". Mas não pode fazê-lo, num tempo em que é obrigado a fazer a quadratura do círculo, com vista a conseguir apoios à sua pretensão à ONU, procurando harmonizar à sua volta apoios contraditórios.

Barroso defendeu o seu passado, Guterres o seu futuro. Valeu a pena ouvir? Confesso que me soube a muito pouco. Sabendo-se à partida que o contraste de visões seria mínimo, como se verificou, talvez duas mesas redondas separadas em duas ocasiões diferentes, com vários interlocutores a colocarem uma bateria de questões a cada uma das personalidades tivesse tornado esta iniciativa mais viva.

Uma última nota. Na assistência, estava Jaime Gama. Embora sabendo-se ser isso impossível, teria a maior das graças, podem crer!, ter ouvido a sua opinião sobre o espetáculo a que assistiu.

2 comentários:

josé ricardo disse...

Olhe, caro embaixador, eu não vi e não gostei.
De facto, juntar estas "altas" individualidades e o pomposo título "Que mundo é este?", devidamente regado com a habitual letra publicitária da parvónia lisboeta ("os mais poderosos portugueses" e outras tonterias afins...) a discutir o nosso mundo, quando um dos interlocutores é, verdadeiramente, um dos principais e altos (agora sem aspas) responsáveis pelo tempo belicista dos nossos dias, não lembraria ao diabo.
Bastou-me ouvir hoje na televisão uma pergunta dirigida ao extraordinário Barroso para não me ter arrependido de não ter visto. Cito-a sem aspas: E o sr., não pensou em candidatar-se a secretário geral das Nações Unidas? A resposta do sr.dr. Barroso não ficou nada atrás: "Não, com franqueza, não...".
Bonito!

Cumprimentos,
José Ricardo

Joaquim de Freitas disse...

Li as entrevistas. Ninguém deve ter dúvidas que estes homens políticos agem como certos dirigentes no privado: nunca perder de vista o ponto de queda desejável. Talvez mais uns que outros, mas quase todos pensam na evolução da carreira, quando a abraçam.
Da mesma maneira que um futuro embaixador tem de certeza certos postos que prefere a outros, um homem político age sempre em função dos seus interesses pessoais e , mesmo se protesta da sua dedicação à causa do partido e da Nação, avalia em permanência onde gostaria de "cair"!

E um pára-quedista como Durão Barroso, que mais é,capaz de se confundir com a cor do tapete onde põe os pés, foi muito fácil de se adaptar rapidamente .

Aquele que foi um mestre na arte do camaleão, passando dum partido revolucionário inspirado por Mao, ao partido socialista que tinha o vento na popa, e depois ao social democrata que se inseria melhor ainda na linha política profunda que sempre o animou. Foi um jogo de criança, depois de passar por Washington de esperar pelo momento oportuno para se lançar no espaço ao largo dos Açores.

E que ninguém me venha dizer que o posto ilustre que era já o seu - Primeiro Ministro de Portugal - o embaraçou um só instante para o abandonar. O alto interesse da Nação, passou para trás. O Povo Português não contava nada no seu plano de voo!

Só foi pena para a nossa imagem nacional, que esse pára-quedista se tivesse ligado a uma empresa criminosa que tem no seu activo algumas centenas de milhares de mortos.

E tudo isso para agradar aos poderosos do momento que , de procura de AMD's inexistentes para um, necessários para justificar o crime horrível do Iraque, e o pânico dos mísseis de Saddam que iriam cair em Londres dentro de 30 minutos, para outro, mais um D.Quixote qualquer , que viu nos moinhos de vento do País Vasco os terroristas de Atocha, e que restará como nódoa indelével no seu CV.

Depois da aterragem em Bruxelas, foi o que se viu. O defensor acérrimo da mundialização "à outrance", do ultra liberalismo económico mortal que desfaz os povos, incluindo o seu, esquecendo onde nasceu, e fazendo-se o campeão dos interesses dos EUA na Europa, que o futuro Tratado com os EUA confirmará e que defendeu unhas e dentes.

Mas está já nos "starting blocks" por Bildeberg, a suprema recompensa dos seus amigos que sempre defendeu.

Guterres, se lá for será por sua culpa! Sabe bem que na ONU são os EUA que mandam! Será preciso curvar a espinha! E confundir-se com a cor do tapete nas margens do Hudson! Será este realmente o lugar dum Socialista? A não ser que o Socialismo de Guterres seja como as rosas de Esfahan !