quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Fronteiras


Foi um excelente e esclarecedor debate, com interventores de muita qualidade, aquele que hoje, ao final da tarde, teve lugar, moderado por António José Teixeira, na Sociedade de Geografia. 

A questão das Fronteiras, tema do n° 6 da revista "XXI - Ter opinião", encontrou naquele belíssimo espaço (desconhecido de muitos portugueses) o seu lugar ideal de tratamento. Como foi lembrado, naquela como em outras "sociedades de Geografia" dos países europeus com colónias, desenharam-se e redesenharam-se, às vezes a régua e esquadro, muitas fronteiras africanas, que ainda hoje partem ao meio etnias e causam tensões sem fim. Por um momento, senti por ali perpassar o espírito, nem sempre benfazejo, do "mapa cor-de-rosa" e das imposições da "pérfida Albion", que levou o empolgado letrista de "A Portuguesa" a escrever o épico "contra os bretões, marchar! marchar!", que o politicamente correto de um país às ordens de Londres acabou por transformar no masoquista "contra os canhões, marchar! marchar!".

Durante o debate, houve um desvio natural para a questão dos refugiados, causa maior que trouxe as fronteiras à ribalta na Europa. Neste tópico, muito se ficou a saber sobre o modo excecional como Portugal se disponibilizou para acolher refugiados chegados à Europa. Foram também dadas informações de grande interesse sobre o "estado da arte", no tocante a essa questão, em todo o espaço da União. Um dos oradores fez muito bem em lembrar que, em matéria de conflitos, quando se fala, por exemplo, na barbárie de uma guerra como a da Síria, onde morreram 500 mil pessoas, à Europa conviria adotar alguma modéstia. Só no século XX, nas suas duas Guerras, morreram cerca de 100 milhões de pessoas e a atual onda de refugiados é "peanuts", comparada com as vagas que assolaram o continente europeu, em condições bem mais trágicas. Lembrar isto não atenua minimamente a tragédia dos que hoje sofrem, mas deveria ajudar os europeus a não mostrarem soberba e indiferença em face dos problemas dos outros, como se isso nunca os tivesse atingido no passado e, quem sabe, pode vir a afetá-los no futuro.

Quem estiver interessado pode aqui consultar o texto com que contribuí para este número da "XXI - Ter Opinião", intitulado "Schengen e as ilusões europeias".

2 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Não sei como a Europa vai poder fechar as suas fronteiras exteriores à miséria do mundo. Mas o que sei é que as fronteiras interiores me parecem, agora, impossíveis de restabelecer. Assim, Shengen não pode desaparecer. Vou pegar num só exemplo:

Vivo em Grenoble e vou frequentemente à Suíça passear. Genebra fica a uma hora e meia de minha casa.
Com as centenas de milhares de trabalhadores que doravante entram cada manha e saiem cada fim do dia da Suíça, se fosse necessário voltar a controlar tudo isso, é missão impossível;

E se quisessem só controlar os "suspeitos" que a cor da pele tornaria ilegais, só para fazer meia volta provocaria engarrafamentos de milhares de automóveis.

Na fronteira de Kehl, em Estrasburgo seria a mesma coisa.

Creio que neste aspecto a Europa não pode voltar atrás. Mas tem de melhorar todo o resto, isso sim.

E na realidade, na minha opinião, os problemas mais importantes encontram-se não na livre circulação das pessoas e das mercadorias, mas antes na livre circulação dos capitais, e na ausência duma política estrangeira europeia . E no cogumelo venenoso do RU!

Luís Lavoura disse...

desenharam-se e redesenharam-se muitas fronteiras africanas, que ainda hoje partem ao meio etnias e causam tensões sem fim

Também as fronteiras europeias foram desenhadas e redesenhadas e continuam a partir ao meio etnias. Isso acontece em múltiplos sítios: no País Vasco, na Alsácia, na Voivodina, nos Cárpatos, no linha Oder-Neisse, etc etc etc. As etnias africanas apenas foram vítimas do mesmo tratamento que as etnias europeias.