terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Bruxelas, nós e a Grécia

Sinto por aí dois tropismos de sinal contrário que, de novo, nos tentam colar à Grécia.

Do lado de quantos são críticos da proposta orçamental do governo, tenta alarmar-se a opinião pública com a ideia de que o comportamento português, ao apresentar em Bruxelas um projeto de orçamento que não está 100% conforme com as normas europeias, iguala aquilo que Atenas fez há um ano, com os resultados trágicos que se viram.

Por parte das "viúvas" de Varoufakis, isto é, de quem há um ano achou heróica a atitude suicidária dos gregos, ao afrontar inconscientemente as regras europeias que o país havia subscrito, surge um apoio emocional a Costa & Centeno, tentando reeditar o David versus Golias que tanto "animou" a Europa.

Ambas as posições têm o efeito negativo de ajudar a colar a imagem de Portugal à da Grécia. E isso não poderia ser mais injusto. 

O que o governo de António Costa está a fazer não é nenhuma rutura com as determinantes europeias - que o PS sempre disse ir cumprir, até que fossem mudadas. O que o governo está a procurar levar a cabo, aliás como o PS sempre disse que faria, é discutir com as entidades europeias margens de flexibilidade, a exemplo do que vários outros países europeus obtiveram, argumentando na base de situações conjunturais específicas. Nem a situação grega tem parecenças com a portuguesa, nem Portugal está a "pedir a lua", como fez a Grécia.

Poderemos ter êxito ou não nessa negociação, mas, seguramente, o Terreiro do Paço não tem vocação para se tornar numa praça Syntagma.

Por muito que isso desagrade a quem olha para Bruxelas com uma visão radical, o governo não coloca em causa as "targets" macroeconómicas a que nos comprometemos, ainda que possa discordar da sua bondade e racionalidade. Se alguma coisa aprendemos com o caso grego foi o facto de que "dar o peito às balas" isoladamente é um ato de heroicidade instantânea... porque se morre a seguir. É que se há um lema que nunca convém seguir é aquele que o nosso hino nos aponta: "contra os canhões, marchar, marchar!"

Mas também ninguém espere de nós que nos mantenhamos passivos, atentos e veneradores face aos ditames da Comissão europeia, que sempre se mostra flexível e compreensiva quando poderes mais fortes têm problemas e logo engrossa a voz quando pressente alguma fragilidade e tibieza. Como vimos nos últimos quatro anos, a Europa adora o seguidismo, que é a atitude diplomática de quem não ousar negociar, transferindo para o sofrimento do dia-a-dia dos povos o preço dessa inércia algo cobarde.

4 comentários:

jj.amarante disse...

Ando um bocado desanimado com a falta de nível da discussão política aqui do jardim. Por um lado a direita faz um barulho imenso sobre uma carta da CE em que esta solicita ao governo de Portugal que lhe expliquem as razões porque o défice estrutural do esboço orçamental é diferente do que se tinha falado em Jul/2015. Por outro a esquerda avança com o argumento que o Passos Coelho diz uma coisa em Bruxelas e outra em Lisboa. Como se nestes tempos de comunicação global isso fizesse algum sentido e seja verosímil que os técnicos de Bruxelas não se apercebessem dos discursos de Passos Coelho em Lisboa! Será que a discussão política tem que ser assim? Pelo menos, por enquanto, não temos o Donald Trump...

Joaquim de Freitas disse...

"Europa adora o seguidismo, que é a atitude diplomática de não ousar negociar, transferindo para o sofrimento do dia-a-dia dos povos o preço dessa inércia algo cobarde."

Senhor Embaixador : quando se escreve assim, não há necessidade de acrescentar mais nada! Bem haja pela frontalidade das suas opiniões.

Anónimo disse...

Ó Senhor Embaixador, mas não se está mesmo a ver que quem quer colar Portugal à imagem da Grécia é o PPE e a sua (dele, propriedade do PPE) Comissão Europeia? Para assustar a Espanha e pôr na ordem a Itália. E para acabar de vez com socialistas (passam os do Macron e os do Assis) ...

a) Feliciano da Mata, o vidente do Golungo

Septuagenário disse...

A marca Grécia vende melhor que a marca Portugal.

A Grécia tem mais problemas fronteiriços e regionais que nós, mas também tem muitos mais trunfos para pôr em cima da mesa.

Nós temos mais duques do que ases.

Não podemos entrar na lerpa como aqueles doidos zorbas.

Vejam de vez em quando o Zorba do Antony Quin.