quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Boutros-Ghali e a ONU

Boutros Boutros-Ghali, um antigo secretário-geral das Nações Unidas, morreu agora no Cairo, aos 94 anos. Este católico copta egípcio, colaborador próximo de Anwar el-Sadat, de quem foi ministro, fazia parte de uma geração de francófonos que teve expressão diferenciada em vários países árabes, uma tradição hoje praticamente desaparecida, com a eventual exceção de alguns sectores monoritários no Líbano.

Conheci-o uma noite em Paris, num jantar na embaixada egípcia, aí por 2011. Recordo um homem sereno, já bastante marcado pela idade, com um sorriso agradável e opiniões "mainstream" sobre a vida internacional, muito típicas da cultura retórica das Nações Unidas. E, contudo, haviam sido precisamente as Nações Unidas a deixar uma marca traumática na sua carreira, como ficou patente num livro de memórias que escreveu e que, embora longe de ser brilhante, me ajudou a perceber um pouco mais sobre a organização.

Boutros-Ghali foi o único secretário-geral na história da ONU que não foi reconduzido no cargo. E isso não aconteceu por acaso. A administração Clinton não lhe perdoou a sua rejeição à "American-led" intervenção da NATO na Sérvia, aquando do conflito no Kosovo, sem mandato multilateral legitimador. Hoje já se conhecem melhor os sórdidos bastidores da manobra de Washington para colocar Kofi Annan no seu lugar e que também passou por oportunos "leaks" sobre atuações mais polémicas de Boutros-Ghali na região dos Grandes Lagos e na Somália.

Nestes tempos em que a diplomacia portuguesa desenvolve os seus melhores esforços para bem posicionar António Guterres na corrida à Secretaria-geral da ONU, é importante que saibamos retirar as devidas lições de casos como o de Boutros-Ghali.

O equilíbrio que permite a um secretário-geral sobreviver no cargo passa por um jogo de compromissos que será suicida esquecer. Quem pense que um candidato ao lugar pode, com frontalidade, apresentar um programa de trabalho que reduza, ainda que minimamente, as margens de manobra dos "powers that be" dentro da organização engana-se redondamente. As Nações Unidas são uma organização muito complexa, não imune a regras de cinismo e de "faz-de-conta". Um SG não pode, por exemplo, e em absoluto, tomar decisões que possam ser vistas como desequilibrando o papel da Assembleia Geral, do ECOSOC e do Conselho de Segurança e, no seio deste, afetar ou iludir a preeminência dos P5 (cinco membros permanentes).

Para ser eleito secretário-geral, um candidato precisa de ter uma noção muito clara dos compromissos que terá de vir fazer, da mediocridade de certos setores dentro da máquina que não deve tentar pôr em causa, dos egos e idiossincrasias com que terá forçosamente de se acomodar e, acima de tudo, da necessidade de ser habilmente modesto quanto à agenda que quiser apresentar.

Conseguirá permanecer sem sobressaltps como SG uma figura que não se atreva a contestar os poderes fáticos dentro da organização, procurando ganhar o espaço nas eventuais contradições que esses poderes tiverem entre si, mas tendo permanentemente em atenção que isso o não deve levar a tentar "crescer" no lugar através de um jogo de alianças que possa desafiar, ou ser "desleal", aos equilíbrios que permitiram a sua eleição.

António Guterres sabe tudo isto muito bem.

5 comentários:

Anónimo disse...

Eu também o conheci num jantar na Embaixada do Egipto em Paris mas muitos anos antes. Era SG da ONU e os outros principais convivas tinham por nome Hosni Mubarak, François Mitterrand e Mário Soares, todos Chefes dos respectivos Estados. Outros tempos.

JPGarcia

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador

Estaline via na ONU um ninho de dinheiro do imperialismo, De Gaulle falava de um "machin", e Reagan, de casa dos mortos vivos.

Para mim, cidadão lambda, direi que o sonho de São Francisco morreu há muito. A instituição que devia preservar as relações pacificas entre as nações sobre a base do direito dos povos a dispor deles mesmos, segundo a frase consagrada, e resolver os problemas internacionais de ordem económica, social , intelectual ou humanitária, falhou em toda a linha. Passo frequentemente nos meus passeios nas margens do Leman, em Genebra ,em frente da precedente, e tenho a impressão que o destino é o mesmo.

O Senhor sabe melhor que eu, que o direito de veto do qual dispõem as 5 P, como escreveu, constitui o elemento essencial das decisões políticas inequitativas que ai se tomam.

Instrumentalizada por alguns membros, por um sobretudo, hegemónico, arrogante e imperial.
Poderá evoluir? Não creio, porque as 5P no fundo estão satisfeitas. Os Americanos ai fazem a lei, e os Europeus só se preocupam da Europa. As decisões são boas quando satisfazem os Americanos e para o resto ignoradas quando não são desprezadas.

A ONU como gendarme em Chipre e no Sinai , em 1956 creio que fez um bom trabalho. Em Ouagadougou, há algumas semanas, nem por isso!

Quando 80% dos cidadãos do mundo declaram que Israel é a principal fonte de conflitos, e que a ONU a condena, o veto sistemático dos EUA e daquela ilha do Pacifico, para que serve?

Quando o processo de paz repousa sobre, pelo menos, duas resoluções do Conselho de Segurança, a 242 e a 338, conhecidas do mundo inteiro, que põem em evidência a ilegalidade da aquisição (?) de territórios pela força, que faz Israel?

Quando a Knesset autorizou os colonos de Netzarim a disparar à queima roupa sobre os Palestinianos, que fez a ONU? O nosso silêncio é cúmplice, porque sabemos que a quota parte dos USA , mesmo se não a pagam sempre, faz depender o seu funcionamento do humor americano.

Boutros Boutros Ghali e Kofi Annan depois, interessaram-se pela reforma administrativa, mas era de uma reforma política que a ONU tinha necessidade. Mas como muito bem escreveu, Senhor Embaixador, se o SG tem ideias que desagradam ao Império, não vão mais longe que simples ideias.

Espero que Guterres, por quem tenho uma certa admiração, não vai cair na esparrela de ocupar o lugar.

Já que, como Português, fiquei envergonhado do papel de Durão Barroso, como barman ao serviço do trio infernal das Lages, que deu o resultado que vemos hoje, tanto no Iraque que na Comissão Europeia, pelo menos que Guterres não venha juntar o seu nome a uma empresa de demolição da paz no mundo. O que se prepara na fronteira da Turquia e da Síria, não o deixaria dormir um minuto se cedesse à tentação.

Rui Oliveira disse...

Uma pequena correcção. Boutros Ghali nasceu em 1922 done ter falecido com 94 anos e não 84.
Cumprimentos
Rui Oliveira

Anónimo disse...

A questão é saber se um SG está lá para ele sobreviver ou para fazer qualquer coisa de útil. No caso de Timor, pelo menos, Kofi Annan tomou iniciativas que os P5' em particular os P 3 ocidentais, preferiam ele não tivesse tomado.E claro que esteve sempre sempre condicionado pelo equilíbrio de poderes que citas que soube gerir, às vezes no fio da navalha . Foi reconduzido.
Fernando Neves

Anónimo disse...

O que o embaixador Fernando Neves diz é a essência do serviço público. Estar lá para "fazer qualquer coisa de útil" tendo consciência das enormes dificuldades e, sobretudo, que uma grande parte acha legítimo que se esteja lá "para sobreviver" (como parece que o dono do blog pensa) é o único motivo que poderá motivar alguém decente para um lugar.
João Vieira