domingo, 21 de fevereiro de 2016

Ainda a esquerda e a direita

Ontem, um certo opinador cujo nome não importa para o que aqui me traz, referia na sua coluna que, para uma geração que hoje tem menos de 50 anos, é praticamente irrelevante a memória da ditadura portuguesa, período em não fez a sua vida, pelo que não identifica minimamente com a luta pela liberdade quantos, revindicando-se das diversas formas de socialismo, durante esse período combateram o Estado Novo. O dito escriba, talvez porque sabia isso chocante para parte significativa da memória coletiva, não foi ao ponto de desprezar expressamente o 25 de abril, mas andou lá por perto.

No texto, o autor justifica ser de direita (diz também ser liberal, mas isso é irrelevante para o que importa) pelo facto da imagem que criou da luta pela liberdade estar precisamente associada ao combate contra a esquerda, contra o socialismo e contra o comunismo, seja no plano internacional, seja no quadro interno, nomeadamente naquilo em que este teria procurado contribuir para a passagem da "África portuguesa" (sic) para esse campo.

Quem é de esquerda tenderá a olhar com alguma sobranceria para esta análise. Mas julgo que faz mal, porque, no seu simplismo maniqueu, ela ajuda a explicar grande parte da atitude de uma certa geração que por aí anda e que, sendo embora fortemente minoritária, tem vindo a ganhar espaço nos media, inicialmente impulsionada pelas redes sociais, e é hoje muito adubada pela doutrina das escolas económicas do "pensamento único" de algumas universidades de sucesso.

Da mesma forma que, numa sociedade como a francesa, já não passa pela cabeça de alguém de esquerda utilizar o fantasma do colaboracionismo ou de Vichy para contestar as ideias da direita democrática, a geração que "fez" o 25 de abril e que se revê em alguns dos valores da esquerda tem rapidamente que saber descobrir um novo discurso para fazer frente à direita. Apodá-la de "fascista", como às vezes por aí se ouve, é de um simplismo ineficaz e redutor. O Estado Novo já lá vai e é pateta pensar que alguém que tem vinte e tal anos ainda se vai emocionar com o Tarrafal ou a "estátua", entre dois "shots" nos bares de Santos ou da Galeria de Paris.

O combate contra a direita pode e deve fazer-se no terreno das ideias, centrado nas políticas de hoje, mas, essencialmente, só pode ter sucesso se tiver eficácia concreta na vida das pessoas. A esquerda, para conservar o poder e justificar democraticamente a razão por que pode exercê-lo, deve conseguir compatibilizar uma forma de vida que seja confortável para largas faixas da população, que se sentem à vontade e gostam de usufruir do modelo da sociedade de mercado que é hoje o "template" comum da Europa, e que marca inexoravelmente o seu quotidiano e os seus legítimos hábitos de consumo e lazer, com uma gestão eficaz da economia, da qual seja possível extrair recursos fiscais que permitam suportar políticas públicas que reforcem a "safety net" social e promovam oportunidades para todos. 

A esquerda só será vitoriosa se conseguir tornar as pessoas felizes, o que passa por conseguir mostrar que as suas políticas são as mais capazes de democratizar o bem-estar, para recriar um ambiente de solidariedade intergeracional assumido como valor ético, para tornar a luta contra a desigualdades um imperativo da consciência coletiva, para gerar uma sociedade onde o quadro social de nascença não seja uma determinante imutável para o resto da vida. A esquerda, se quer derrotar a direita, no campo democrático que é o deste país e da Europa em que estamos, deve conseguir afirmara-se, simultaneamente, como a mais eficaz promotora e criadora de riqueza coletiva e como a força paladina da igualdade de oportunidades, o que tem como contraponto saber conviver com o mérito e o sucesso individual, sem alimentar um discurso de inveja e tensão interclassista. Se o não conseguir fazer, a direita regressará rapidamente ao poder.

12 comentários:

Anónimo disse...

Embaixador, estou efetivamente abaixo dessa tal faixa de 50 anos, tenho 47. Sou efetivamente de esquerda, toda a vida fui, diria que soud e uma esquerda Socialista democrática ou também conhecida como social democracia de tipo europeu. Mas o problema é o seguinte, até meio da década de oitenta eu via isso no PS, mas atualmente olho para os vários partidos e para mim já ninguém representa isso.

APS disse...

Tirando alguns, muito poucos, pensadores de direita, com substância, cultura, memória histórica e inteligência de reflexão (destacaria, por exemplo, pela consistência J. Nogueira Pinto), uma grande parte do comentariado de direita restante é minorca, e mero "lumpen". Até pela forma desleixada como escrevem ou falam, num tom emotivo primário e cavernícola, muito mal ataviado.
Não valerá a pena, por isso, perder tempo com eles, caro Embaixador. Porque é dar-lhes uma publicidade e uma importância que, em definitivo, não merecem...

Reaça disse...

Ninguem quer aprofundar o que foi o Estado Novo, o antes, o durante e o depois.

Porque nada devia ser escamoteado aos mais jovens.

Todos deviam poder contabilizar "quantas se perderam e caíram no chão".

Porque andou por aí muito menino que se diz de esquerda, com "currículo" anti-salazarista a gabar-se que ele sim levou mais tareia do que o outro, e foi ele que esteve mais vezes preso do que o outro, mas é preciso que se esclareça se levaram poucas ou se foi o suficiente.

E também se deve esclarecer se é à procura de benesses que se gabam do feito.

opjj disse...

Esta contenda de Esquerda e Direita não resolve nenhum dos problemas que se aproximam e só servem para arranjar lugares no banquete do orçamento. Ontem entrei numa Capela de um Hospital, contei,estavam 33 pessoas e reparei que apenas uma era jovem. Interroguei-me, quantas pessoas terão que descontar para capacitar estas pensões. Se pensarmos que o rácio salários/pensões andará 2 para 1 ? Quem resolve esta equação, será a Esquerda ou a Direita?
Cumps

Anónimo disse...

Este opjj, tem muita graça. Foi logo buscar o exemplo de uma capela, para dizer que há muitos pensionistas e poucos jovens. Olhe OPJJ, para a próxima aconselho vivamente ir tipo um sábado á noite á 24 de Julho e logo ai irá ficar satisfeito, poucos pensionistas velhotes e muitos jovens. Só que á procura de emprego, logo também não descontam. Tenho dito.

Fernando Correia de Oliveira disse...

O seu post poderia ser a base de um novo programa do PS, caro Embaixador. Que eu subscreveria. Acrescentando-lhe apenas a dimensão ética - só uma esquerda limpa, combatendo a corrupção e varrendo do seu seio os corruptos me convenceria, com o programa que propõe, a voltar a votar nela. Até lá, nas legislativas, vou-me mantendo entre o nulo e o branco...

Francisco Seixas da Costa disse...

Por aqui, quem põe os nomes aos bois sou eu. Quando quero, João Vieira

Anónimo disse...

Tenho uma dúvida: Esses partidários do PSD (e se calhar já há também no CDS e, no PS não?) que defendem o aborto, a eutanásia, a adoção e casamento homossexual e, simultaneamente, entendem que o melhor para a economia (para as pessoas?) é o anarco-capitalismo sem Estado, são de esquerda ou de direita?

Anónimo disse...

Se António Costa conseguir acabar o mandato do Governo que chefia, e em que se preconiza a devolução de salários aos FP, a reposição de feriados, o aumento do consumo privado,a redução do défice, não há nada que a direita possa fazer frente. E se não aumentar impostos no seu todo, então aí.....

Francisco Guerra Tavares disse...

Concordo em geral com o que diz o Embaixador, em particular "a geração que "fez" o 25 de abril e que se revê em alguns dos valores da esquerda tem rapidamente que saber descobrir um novo discurso para fazer frente à direita" e também "A esquerda só será vitoriosa se conseguir tornar as pessoas felizes....". mas duas observações se impõem, do meu ponto de vista:
- A esquerda para conseguir tornar as pessoas felizes terá de esgrimir contra forças poderosas que mantêm as pessoas anestesiadas e...infelizes. Desde logo tem de pôr em causa o modelo de uma sociedade que mantém uma quantidade interminável de pessoas (e desde logo, os jovens) sem trabalho, ou a viver à míngua (dos pais, do Estado, das ONGs, etc.), sociedade que endeusa a posse de objectos.
- Infelizmente, parece que no nosso país se liga pouco ao passado. Sem ele não há presente, nem futuro. E há que aprender com o passado. E nunca esquecê-lo. Recordo sempre com admiração uma visita que fiz (nos idos de 1974) ao campo de concentração em Dachau (perto de Munique). Entre outros visitantes, ia uma turma de jovens (teriam entre 16 e 17 anos) com o professor. E creio que esta prática ainda se mantém. Apesar das diferenças com o que se passou em Portugal, quem se diz de esquerda (mas não só) deverá lembrar sempre aos que tiveram a felicidade de não passar por essa experiência, o que era o Portugal antes do 25 de Abril de 1974, um país que era o reflexo de um regime fascista.

Joaquim de Freitas disse...

O problema é que existe um fosso enorme, entre o que as ideologias e os partidos , eventualmente , querem para os povos, e o que o sistema económico vigente entende ser a sua missão.

O capitalismo considera não ser da sua competência de criar a felicidade dos homens. Por isso não considera que a sua missão é de criar empregos.

Entretanto, a maioria dos homens estariam já felizes se pudessem vender o seu produto : a força do seu trabalho.

O capitalismo considera que a sua única missão é de acumular benefícios para os accionistas , cada vez mais e mais depressa.

Este é o drama da nossa sociedade.

Francisco Guerra Tavares disse...

Gostava de acrescentar algo à segunda observação do meu comentário: em Cabo Verde não esquecem a importância do passado na construção do futuro:
"O Governo de Cabo Verde quer elevar o Campo de Concentração do Tarrafal a Património da Humanidade para preservar a memória de todos os que lutaram pela liberdade em Portugal e na África lusófona.....................José Maria Neves, primeiro-ministro de Cabo Verde, quer dialogar e trabalhar com Portugal e todos os outros países de língua portuguesa para chegar a um objectivo conjunto:
- “transformar este património não só em património do mundo lusófono, mas em património de toda a humanidade"
- "preservar a memória de todas e de todos os que lutaram pela liberdade"
- "para provar ao mundo que jamais haverá outros campos de concentração como este"."(in blog A Viagem dos Argonautas)