sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Hora da diplomacia?

A tensão entre a Rússia e o ocidente, tendo a Ucrânia no centro do problema, não dá mostras de atenuar-se. O impacto cumulado das sanções e da queda do preço do petróleo começa a atingir fortemente a economia russa, como o revelam todos os sinais que chegam de Moscovo.

Para os adeptos de uma nova Guerra Fria, isto só podem ser boas notícias. Ver a Rússia em dificuldades é um cenário que agrada a quase todos os americanos e a muitos europeus, desejosos de prolongar a humilhação criada pela implosão da União Soviética e, mais recentemente, de punir a intrusão russa nas questões internas ucranianas.

A realidade das coisas, porém, não é tão simples assim. O isolamento internacional de Putin converteu-o, "em casa", numa espécie de herói. A sua margem de manobra interna, em termos do processo decisório, se já era imensa, agora dá-lhe mãos livres para a defesa dos interesses de um país que se sente cada vez mais acossado - o que, aliás, é um "remake" recorrente. 

Ora a Rússia pode hoje ter grandes fragilidades mas, tem de admitir-se, reserva ainda um significativo poder - e não vai esquecer tão cedo a arrogante qualificação de "poder regional" que lhe foi dada por Obama. Moscovo tem um considerável potencial nuclear e, podendo estar limitado no leque das suas alternativas políticas à escala global, mantém uma não despicienda capacidade de "perturbação". O que se passou, há anos, na Geórgia e se processa ainda na Ucrânia é algo a ter em conta. E talvez nos prepare ainda algumas surpresas nos Balcãs, esperando ainda que o ocidente esteja sereno quanto à Ásia Central.

Por essa razão, a grande preocupação que devemos, ter no tocante à Rússia, diz respeito ao impacto político-militar dos seus problemas económicos, isto é, ao modo como poderá atuar nessas áreas se acaso a pressão económica se tornar difícil de suportar. 

Todos estamos convencidos que a Rússia tem por adquirido que há uma "red line" que não pode ultrapassar: a fronteira NATO. Todos os sinais foram passados pelo ocidente a Moscovo nesse sentido. Mas as coisas da vida internacional não são necessariamente "a preto e branco". 

Nada exclui que possamos um dia vir a confrontar-nos, por exemplo, com um incidente (espontâneo ou provocado) em que a Rússia possa mesmo "ter razão", no seu relacionamento com um parceiro NATO, nosso aliado e seu vizinho. É que a Rússia não tem o monopólio da asneira. Num caso desses, em que o incidente pudesse legitimamente ser imputado a esse nosso parceiro, o automatismo de uma resposta ocidental perante uma reação russa, pela invocação do artigo 5º (solidariedade na defesa) do tratado da organização, não estaria necessariamente adquirido. Isso criaria a possibilidade de nos podermos ver confrontados com uma séria crise no seio da Aliança - e isso remete-nos de novo para a capacidade de "perturbação" que a Rússia detem. Um problema desse género baralharia, pelo nosso lado, alguns equilíbrios que vamos tendo por certos.

Chamo a atenção para o facto de que há uma assimetria política que devemos ter sempre presente na relação entre o mundo ocidental e a Rússia - e que às vezes temos tendência a esquecer. 

Do nosso lado, uma atitude ou uma reação militar é um processo que passa por um processo de escrutínio e decisão muito transparente, submetido aos "checks and balances" da separação de poderes, com uma opinião pública muito atenta, servida por uma comunicação social marcada pela diversidade. 

Nada disso existe do outro lado. Os "media" não têm essa liberdade, a voz popular está condicionada e marcada por um patriotismo algo acéfalo e Vladimir Putin está praticamente "à solta" no processo decisório. 

Não quero parecer sombrio, mas estas assimetrias foram, no passado, as condições que originaram alguns conflitos, que sempre começam de forma limiitada, como nos devemos lembrar.

Isso conduz a que tenhamos que identificar bem, e rapidamente, qual é o bloco de interesses comuns que, simultaneamente para ambos os lados, possa prevalecer e mostrar-se vantajosos sobre a hipótese de vir a encetar-se um qualquer conflito. Sem prescindir dos nossos princípios, temos de estar preparados para alguns compromissos e saber passar à Rússia as mensagens certas, para ela poder avaliar também o que a racionalidade a deve levar a fazer. A diplomacia serve para isso.

Lembrei-me disto agora, numa viagem aérea entre a Polónia e a Alemanha, dois países a quem a falta de uma atempada profilaxia diplomática "estragou" o século XX.

4 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

A queda do comunismo transformou-se na queda da Rússia. A Rússia e o comunismo tinham-se transformado numa única e mesma coisa. Este conjunto foi, desde 1917, o grande papão que amedrontava o Ocidente.

A luta do Ocidente contra a Rússia visava, desde o fim da segunda guerra mundial, a eliminação da Rússia. Como já em 1917 a eliminação dos Sovietes ou dos bolchevistas.

O que significa que o Ocidente teve sempre programado , sob pretexto de luta ideológica, a morte da Rússia.

Durante a guerra fria, a democracia era uma arma dirigida contra o totalitarismo comunista. A época da guerra fria foi o ponto culminante da história do Ocidente. A queda do comunismo soviético foi a maior vitória do Ocidente. Vitória colossal que permitiu a instauração dum novo poder planetário. Sem a queda do comunismo soviético, o Ocidente não teria podido lançar-se na mundialização.

Mas o fim do comunismo marcou também o fim da democracia no Ocidente. O que vemos hoje por todo o Ocidente é a instauração dum poder supranacional, dum totalitarismo democrático ou antes duma democracia totalitária.

O Politburo de Bruxelas incarna esse poder totalitário. Porque a democracia subentende o pluralismo. E o pluralismo supõe a oposição de pelo menos duas forças mais ou menos iguais. Forças que se combatem e se influenciam ao mesmo tempo.

Havia na época da guerra fria, uma democracia mundial, um pluralismo global no seio do qual coexistiam o sistema capitalista, o sistema comunista e mesmo uma estrutura intermediária dos não alinhados. estes últimos com um certo poder,capazes de influenciar, como em Bandoeng, a descolonização. Portugal recebeu esta influência.

O totalitarismo soviético era sensível às criticas vindas do Ocidente, que por sua vez recebia também a influência da URSS, por intermédio dos seus próprios partidos comunistas.
Hoje vivemos num mundo dominado por uma força única, por uma ideologia única, por um partido único mundialista. O totalitarismo democrático e a ditadura financeira excluem a revolução social.
Os países ocidentais são portanto dominadores, mas também dominados, pois que perderam progressivamente a sua soberania em beneficio do que se chama a "suprasociedade", esses a quem eu chamo frequentemente neste blogue : as oligarquias mortais", porque demasiado poderosas, cujo poder ultrapassa os Estados. Os países ocidentais são assim submetidos, como os outros, ao controlo destas estruturas supranacionais.

Ora , a soberania das nações era, ela também, uma parte constitutiva do pluralismo e portanto da democracia, à escala do planeta. O poder dominante esmaga os Estados soberanos.

O Senhor Embaixador fez uma analise perfeita do risco no futuro. E eu penso que é destas estruturas supranacionais, oligarquias ou supra sociedade que pode vir o tal erro de apreciação, que pode conduzir à catástrofe.

Uma coisa é certa : estes poderes obscuros não querem duma Europa do Atlântico ao Oural, ideia cara a De Gaulle e a ...Putine. A UE pode um dia voltar a ser o campo de batalha entre uma Rússia que não abandonará o ranking que lhe pertence, e o Ocidente que fará tudo para a fazer recuar ao nível de potência regional. A luta será cataclísmica.

Anónimo disse...

Se a Rússia quiser acabar com a OTAN em três tempos basta-lhes ocupar, ou invadir, um dos países bálticos.

Ninguém se atreverá a atacar a Rússia. é um facto, o red line apenas um mito!

Será o princípio do fim da OTAN.

Abraham Chévre au Lait disse...

A humilhação do fim da União Soviética,se existiu,nasceu na cabeça dos russos,tal não lhes foi imposta.Eles decidiram acabar com ela,URSS,não tiveram de sair pelo telhado,de helicóptero,de lado nenhum,corridos de onde estavam. E deixem a Rússia:já era grande e imensa muito antes de grandes países serem descobertos.Algum elegância deve existir com os vencedores de Napoleão e Hitler.

Anónimo disse...

Concordo com o annónimo das 13.12. Quem está disposto a dar o coiro por um qualquer Baltico (sem história e mesmo sem língua própria, ou dialeto, no sec. XIX)?
A Nato é um entretenimento de alguns tolos e uma forma espúria dos EUA controlarem os europeus. Ninguém estaria com disposição de entrar numa guerra coma os Russos por caisa de um Baltico.