sexta-feira, 6 de junho de 2014

Normandia

Foi em Deauville, na Normandia, depois de um jantar, em 2010. Falava com o "maire" da cidade, a quem havia manifestado a minha admiração pelo facto de, em muitos locais da região, ter encontrado, lado a lado, bandeiras francesas e alemãs, em cemitérios que celebravam as vítimas da guerra em que ambos os países se haviam defrontado de forma trágica, entre 1939 e 1945. 

Meses antes, durante vários dias de férias, havia percorrido toda (mas mesmo "toda") a "costa do desembarque", passando pelas célebres praias que os americanos tinham crismado com nomes bem sonantes. Visitara as casamatas alemãs, museus militares e restos das lanchas aliadas utilizadas no "dia D", 6 de junho de 1944. Desde criança que eu era um "viciado" no tema. O meu pai falava-me com entusiasmo desse dia histórico em que os aliados desembarcaram na Normandia, dando um impulso decisivo à derrocada da agressão nazi na Europa. Tornei-me desde então um leitor compulsivo de livros sobre a Segunda Guerra mundial, um assunto sempre muito presente nas conversas e nas prateleiras de livros lá de casa. Viver em França deu-me oportunidade de percorrer, de mapa na mão e de forma organizada, todos esses locais que tanto haviam mobilizado a minha imaginação.

Ao "maire" de Deauville perguntei se aos mais velhos, àqueles a quem a guerra tinha afetado diretamente as suas vidas, não chocava essa convivência com a bandeira do antigo inimigo. Explicou-me que, de facto, para algumas pessoas dessa geração que vivera a guerra "a quente", não terá sido fácil aceitar a normalidade da relação pós-conflito, com um país que lhes infligira tanto sofrimento. Mas esse era o "preço" da nova Europa, da nova amizade franco-alemã à volta da qual se construíra a paz e a unidade económica e política das Comunidades. 

O "maire" acrescentou, contudo, algo por que eu não esperava. Disse-me que muitos habitantes da Normandia, no período imediatamente após a guerra, mantinham sentimentos ambivalentes face aos ingleses e aos americanos - que eu pensava, com naturalidade, serem vistos como os libertadores que, de facto, foram. "Convém não esquecer que, para a população civil que habitava a Normandia, a força aérea inglesa e americana era vista responsável por meses de bombardeamentos de posições militares alemãs distribuídas por toda a região, cuja precisão estava muito longe de ser total, frequentemente destruindo casas de civis, provocando vítimas francesas, em muitas noites de terror". Nunca tinha pensado nisso: o "friendly fire" também mata.

Passam hoje 70 anos sobre essa data memorável. As praias da Normandia foram cenário de comemorações sobre a paz reconquistada na sequência do "dia D". Mas a guerra não desapareceu por completo da Europa, primeiro nos Balcãs, agora na Ucrânia. A paz é o bem mais inseguro da História.

6 comentários:

Anónimo disse...

Não é apenas a questão do "fogo amigo". Acaba de ser publicado um livro, de autora americana, intitulado "The Dark Side of Liberation", que, com base em documentação de arquivo, mostra, ao que parece (ainda não o li, só vi referências), que o comportamento das tropas anglo-americanas esteve longe de ser irrepreensível. A guerra é uma coisa suja, mesmo quando necessária. Valentim Alexandre

Defreitas disse...

O Senhor Embaixador imagina que eu, vivendo cá há mais de 50 anos, e motivado pelas mesmas razões, também visitei essas zonas várias vezes. Curiosamente, meu Pai, tinha eu 11 anos, seguia também passo a passo a evolução das batalhas no leste como no oeste. Aliás ontem, Hollande , mencionou e bastante bem , no seu discurso, o esforço gigantesco do povo russo, que pagou o maior tributo nessa guerra. Sem o sacrifício deles talvez "falássemos alemão" como costuma dizer-se . Hoje, os alemães, finalmente, conseguem dominar a Europa "autrement" !

O sentimento que os franceses nutrem pelos novos "amigos" , inimigos de ontem, não é sempre aquilo que se pensa. Minha esposa, expulsa com a família de Lorraine, província germanizada aquando da invasão, nunca esqueceu o estrondo das coronhas das armas dos soldados alemães, na porta de casa, lá em Nilvange, próximo de Forbach, nessa fatídica noite do 16 de Agosto de 1940 . Heraus! Heraus! Heraus! Até hoje. Metidos num comboio, todos os franceses com nomes bem franceses, foram expulsos para a zona sul. Ficaram só os nomes de consonância "germânica", que aliás, já tinham içado as bandeiras alemãs à janela. Talvez as mesmas que tinham guardado em 1918 ! Minha esposa e família nunca mais veriam a casa nem o estabelecimento que os pais tinham. Uma mala de 10 ks por pessoa e ..fora.

Mais tarde, a minha carreira profissional levou-me durante dois anos para a filial de Darmstadt, próximo de Frankfurt, como "Geschäftsführer" ( director comercial). Nunca pude convidar colaboradores alemães a minha casa para almoçar. Minha esposa não podia suportar. Mais tarde, em Grenoble, nunca pude convidar clientes alemães com a minha esposa. Esse sentimento perdura na sua geração. Perdoar? Esquecer tantos crimes?

O sentimento em relação aos anglo-americanos no sul não é como na Normandia, pelas razoes que descreve, entre as quais os abusos de GI's sobre mulheres , o que obrigou Eisenhower a fazer fuzilar alguns para o exemplo. Os grandes especialistas militares nunca conseguiram compreender porque é que Montgomery destruiu completamente Saint- Lô e Caen - 2 000 mortos civis - com bombardeamentos intensivos, como nunca se compreendeu porque é que a RAF arrasou completamente Royan, enquanto se sabia que os alemães se encontravam fora da cidade nos três casos. A estratégia do "marteau-pilon" foi frequentemente utilizada pelos anglo-americanos durante esta guerra. .. e noutras.

Resta que os jovens americanos e de outras nacionalidades merecem o nosso respeito pelo sacrifício máximo para libertar vencer o nazismo.

Anónimo disse...

Nenhuma guerra é "limpa". É apenas uma histeria colectiva..... sempre suja. É na guerra que se pode encontrar a importância da diplomacia, no começo e no fim da mesma...... mas isso é outra coisa pouco conhecida

Anónimo disse...

Eu pergunto se essa amizade com bandeiras juntas também se manifesta no país invasor ou seja neste caso na Alemanha? se lá existe cerimónias de amizade? eu não sei por isso pergunto se alguém sabe
seria de perguntar se por sua vez essa país consegue expulsar do seu interior demónios que motivaram tanto sofrimento?!
porque não basta haver "esquecimento" ou "perdão" para que tamanha tragédias não se repitam.

Anónimo disse...

"A diplomacia é a continuação da guerra por outros meios" disse voz sábia um dia.
E que meios são esses? A palavra, o confronto verbal, a discussão à volta da mesa, a troca de "ameaças" escritas, ou verbais.
Tudo isto em vez do sabre, da arma, do canhão, do morteiro, do míssil.
Esgrima, sim, mas à volta da mesa, ou ao telefone.
É isto que a UE faz há mais de 50 anos: garantir que vários países, com interesses nem sempre coincidentes e muitas vezes contraditórios, usam da arte de esgrimar argumentos, tomam posições de força pela palavra, sem nunca calçarem as botas que os levam ao campo de batalha.
Não se dá verdadeiramente valor ao que foi conseguido nos anos 50 do séc. passado por R Schumann e outros, naquilo que foi talvez um dos momentos mais visionários da História da Europa.
Tão visionário que ainda aí está.

JOÃO Santos disse...

Que pena não se ter abordado este tema, que também me é caro, quando estivemos em torno da garrafa de SAUMUR CHAMPIGNY 2003, pois também eu fui alguma vezes percorrer de mapa na mão os lugares, de Caen a Bayeux, de Arromanches a Omaha Beach, os cemitérios, os memoriais e os museus;oportunidade perdida de conversa sobre um tema que, embora trivial, nem sempre junta quem conheça e respeite os sítios, as memórias e aqueles que lá, se libertaram da lei da morte!