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quarta-feira, junho 11, 2014

João Pequito

Foi o meu primeiro diretor-geral. Chamava-se João Pequito. Dirigia os "Negócios económicos" do MNE, setor que tratava da diplomacia económica (o que prova que, afinal, isso existiu sempre nas Necessidades...). Era um figura imponente, de voz forte, que atroava os corredores, às vezes com sonoras gargalhadas. Não era um homem consensual. Tinha presidido à "comissão de saneamento" do MNE e, embora não sendo acusado de "barbaridades", pagava algum preço de imagem por ter aceite tal função. Sabia-se que era uma pessoa bastante rica, que "não precisava" da carreira. Isso ou o seu pendor democrático - a doutrina predominante nos claustros nunca foi unânime na matéria - tinha-o levado a pedir uma licença por meia dúzia de anos, só regressando após o 25 de abril. Tinha fama de conquistador, bom garfo e amante dos prazeres da vida, de carros desportivos, antiguidades e viagens exóticas. Era inteligente, culto e informado, quiçá um tanto diletante e tudo isso somado irritava muita gente na "casa".

Quando passei a trabalhar sob as suas ordens, em 1976, eu era um jovem "adido de embaixada", recém-ingressado na carreira. Pequito atribuiu-me, desde muito cedo, algumas responsabilidades e eu terei correspondido. Pessoalmente nunca me deu grande confiança, mas senti sempre que confiava em mim. Até na gastronomia: um dia, à hora de almoço, o telefone tocou na minha secretária e, do lado de lá, ouvi-o perguntar: "Dizem-me que você conhece muitos restaurantes. Onde é que se come bem para os lados de Campolide?". Fui entretanto colocado na Noruega. Pequito foi para a Bélgica, como embaixador, e daí para o México. Em Oslo, em inícios de 1982, recebi uma sua carta, muito simpática, a convidar-me a ser seu "número dois" na Cidade do México. Acabei por ir para Luanda. Só voltámos a falar muito mais tarde, em 2000, e apenas pelo telefone. Morreu três anos depois. Tinha-se afastado da carreira, desde 1984, por vontade própria.

Ontem, na Feira do livro, entrei por curiosidade no pavilhão da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Deparei com uma biografia de João Pequito, editada pela Misericórdia. Porquê? Porque, na hora da morte, deixou em herança à instituição uma muito considerável fortuna, sendo até agora o seu maior benemérito, no século XXI. O livro, assinado por Ana Gomes (não, não é a mesma em quem estão a pensar!), ajudou-me a lembrar, ainda com maior simpatia, aquele que foi o meu primeiro diretor-geral.

Entrevista ao "Público"

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