Ontem à tarde. Estava sentado a uma pequena mesa, recuado, entre duas barracas, na feira do livro. À frente tinha um pequeno banco. Desocupado. Sobre a mesa havia três livros e uma esferográfica. Era o autor. Estava distante da zona comum onde os seus pares, entre amigos e editores, vão disfarçando, às vezes por horas, a escassez de admiradores. Ele não, estava completamente sozinho. Discretamente, procurei ler o nome e o título do livro. Não me diziam rigorosamente nada. O livro era vendido na barraca em frente, de uma editora menos conhecida. O sucesso de vendas não era coisa evidente. Andei por ali uns minutos, por curiosidade. Ninguém se aproximou da mesa. Subi e desci a feira. Quando por lá voltei a passar, tudo estava igual. O autor, estóico, continuava sentado, com os mesmos três exemplares e a caneta sem préstimo, com um esgar de resignação. Confesso que cheguei a ter a tentação de comprar um livro, mesmo que o tema me não interessasse. Mas não. O homem não precisava de compaixão, precisava de leitores. E eu nunca seria um deles.
