quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O chato

- Ó diabo! Vem ali o Castanheira!

O comentário feito pelo chefe de repartição, dirigido ao diretor-geral, quando ambos saíam para o almoço, alertava para um perfil rotundo, algo bamboleante, que, ao fundo, se aprestava para circundar o jardim central do pátio das Necessidades.

O Castanheira era um daqueles funcionários, entre o caricato e o patético, que o ministério, para não ter de enfrentar a sua óbvia inadequação para ocupar lugares de responsabilidade na sede, optava por expatriar em serviço, esquecendo-o em consulados longínquos, na ilusão de que isso os tornaria inóquos para a imagem de uma carreira que, por incompetência e irresponsabilidade, os havia deixado entrar no quadro e, por cobardia e descuidada gestão de recursos humanos, não era capaz de isolar numa prateleira interna, para evitar piores males.

Os "Castanheiras" existem em todos os tempos do MNE, ganham lugares no quadro externo num qualquer "movimento diplomático" que deles acaba por ter piedade ("coitado! Tem tantos filhos..." ou "o homem já anda por aí há tanto tempo...") e, não raramente, fazem passar às comunidades portuguesas no exterior algumas vergonhas, além de transmitirem uma medíocre imagem do país que lhes caberia saber representar. Não são muitos, felizmente, mas, por muitos poucos se sejam, são em número demasiado para quem, como é o meu caso, nunca teve a menor complacência para contemporizar com tais situações. Quem conhece bem a carreira sabe do que e de quem estou a falar.

Vindo de férias a Lisboa, do lugar distante para onde o "conselho" o tinha mandado já há anos, o Castanheira avançava então, nesse dia de verão do final dos anos 70, com um fato claro de mau corte, que denunciava os tristes trópicos por onde agora pairava, em direção às duas figuras da hierarquia que saíam do palácio. Era um homem conhecido pelo verbo balofo, pelo caráter prolixo dos seus comentários, enfim, para sintetizar, por ser um inenarrável chato, uma lapa oral, daqueles que nos agarram a manga do casaco e colocam a mão sapuda no ombro, que aproximam a cara para reforçar a cumplicidade, fazendo-nos partilhar a riqueza odorífera do seu bafo.

Ora o diretor-geral, um embaixador da velha escola, era um exemplo conhecido de quantos, na sua consabida snobeira e pesporrência, não tinham a menor paciência para conviver com esse estilo de figuras, algo untuosas e fátuas. Tinha apenas uma vaguíssima ideia do tal Castanheira, fruto de anedotas que dele ouvira, na tradição oral de escárnio em que o MNE é useiro, vezeiro e cruel. Nunca tinha falado com ele e, francamente, não era agora que isso iria acontecer, como desde logo avisou o amigo com quem ia almoçar. Ora este, por infeliz coincidência, tinha entrado para a carreira no concurso do Castanheira, o que o não dispensava de uma saudação mínima ao colega expatriado e que há muito não via.

- É pá! Vê lá se nos libertas logo do homem! Dizem-me que é um cretino de altíssimo coturno... - sussurrou o embaixador, com o Castanheira já quase à distância de um cumprimento.

O encontro deu-se à saída do pórtico de acesso ao palácio, sob o olhar atento, venerador e obrigado do Matos, o digno porteiro que, à época, por aí oficiava, no lugar onde, nos dias de hoje, pairam umas fardas anónimas da Securitas, essa espécie de genérico funcional, em tempos de seca orçamental.

Ao abraço entre o Castanheira e o chefe de repartição, seguiu-se o inevitável:

- ... não sei se se conhecem: o Castanheira, que anda agora pela América Latina, e o senhor embaixador...

O Castanheira nem deixou o amigo terminar a frase:

- O senhor embaixador?! Essa agora! Quem o não conhece?! Tenho imenso prazer em encontrar vossa excelência. O senhor embaixador é uma figura referencial da carreira, é - permita-me que lho diga!- uma das personalidades que mais honra a nossa diplomacia. Tenho por vossa excelência uma incontida admiração e andava, há anos, por ter o ensejo de lho expressar em pessoa. É para mim um imenso privilégio poder conhecê-lo e cumprimentá-lo. E diria mesmo, agradecer-lhe o que tem feito por nós, pela nossa carreira, pelo prestígio da nossa profissão. Vossa excelência é um exemplo que todos procuramos seguir.

E o Castanheira, sempre ditirâmbico, continuou numa elegia gongórica sobre a figura do diretor-geral, lembrando os seus postos anteriores e os alegados feitos profissionais relevantes que bem ilustravam esse percurso. O amigo chefe de repartição só a custo conseguiu pôr cobro, ao final de uns minutos, a essa inesgotável verborreia.

Finalmente, lá se descolaram do Castanheira, que anunciou que ia ver umas "senhoras" ao "quarto andar", para tratar do telhado do consulado. "O senhor embaixador sabe, melhor do que ninguém, o que são essas coisas", deixou no ar, profissionalmente cúmplice, afastando-se, não sem uma respeitosa vénia ao superior hierárquico.

O chefe de repartição, aliviado, olhou para o diretor-geral e comentou: 

- Ó pá! Desculpa lá teres tido que aturar este tipo. É um chato, nunca mais nos desamparava a loja...

- Essa agora! Até te digo mais: fiquei bem impressionado com o rapaz! Este Castanheira pareceu-me simpático e articulado. Mudei a ideia que me tinham criado dele. Como é que ele está na lista de antiguidade? Não lhe podemos dar uma mão, na reunião do "conselho" para as promoções, para a semana?

(esta historieta foi-me contada há muitos anos, de boa fonte. Será que hoje as coisas seriam muito diferentes?)

19 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai Senhor Embaixador que me deu uma enorme dor de cabeça com o seu parágrafo final...
É que já me estava a rir ao ler o seu texto, quando o final me surgiu, impiedoso, e me estancou de imediato a gargalhada.
Será que as coisas continuam na mesma, com muitos Castanheiras na panóplia?
Ó Deus me valha...

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Dra. Helena Sacadura Cabral: com toda a franqueza, não lhe sei responder! Mas pode haver quem saiba. Enquanto andei pelo MNE, procurei combater, não os próprios "Castanheiras", que são quem tem menos "culpa" em tudo isto, mas sim o ambiente de permissividade e compadrio que lhes facilitou o acesso à carreira, que depois os protegeu (porque eram "amigos" ou "amigos dos amigos" ou de quem não convinha aborrecer ou a quem era preciso agradar),que frequentemente lhes perdoou conhecidos pecadilhos de natureza material, e que acabou mesmo por os promover e os "canalizar" para alguns postos. Mas, quem sabe, pode ser que tudo isso já tenha mudado, por um qualquer golpe de mágica...

Isabel Seixas disse...

"Tratar do telhado do consulado"
In FSC

É revelador de visão do espaço aéreo, além de excelente indicador do saber e do saber estabelecer prioridades...

Realmente impressiona...

Anónimo disse...

Caro Senhor Embaixador Seixas da Costa,

O senhor embaixador é uma figura referencial da carreira, é - permita-me que lho diga!- uma das personalidades que mais honra a nossa diplomacia. É para mim um imenso privilégio poder lê-lo e aprender consigo. E diria mesmo, agradecer-lhe o que tem feito por nós, pelo nosso Portugal, pelo prestígio da nossa Nação. Vossa excelência é um exemplo que todos devemos seguir.

Nuno "Castanheira" 371111

patricio branco disse...

afinal quem estragou tudo foi o director-geral da velha escola. até ao encontro relatado, o castanheira ocupava lugarzinhos de 3a ordem, longinquos, era mantido afastado de lugares de responsabilidade e evidencia!
o director-geral, depois do conhecer, não desgostou do homem, simpatizou mesmo, e pensou logo nas possibilidades de o ascender.
é evidente que o embaixador foi permeavel às palavras elogiosas do castanheira que, pelos vistos, esperteza deste tipo tinha e as aplicou no acto, dirigindo-se à vaidadezinha do embaixador que disso gostou.
talvez quem saia menos bem desta historieta seja o embaixador snob, sensivel à lisonja, a partir daí responsavel pela subida do castanheira que estava muito bem no pequeno exilio em que o mantinham escondido.
ora esta lisonja continua a funcionar, responsaveis com poder que se rodeiam de uma cortezinha de castanheiras que lhe dizem aquelas coisas e até farão muito pior.
a fabula do corvo e da raposa continua em vigor...que vous êtes beau, monsieur le corbeau...vous êtes le phénix des hôtes de ces bois, etc"

ps. uma manhã de neblina e alguns carros modelo anos 70, interessante e melancolica fotografia dum patio quase sem movimento a essa hora.

Anónimo disse...

No MNE não sei, mas na administração pública (e não só) que conheço, se fossem “castanheiros”, o País aparentaria um frondoso souto… (aliás, em semelhança com o texto, lindíssimos nesta época…)

Anónimo disse...

Apreciei o texto, sorri com a escolha dos termos e, de um modo geral, gostei do estilo.

Pode continuar.

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Fiquei a pensar no seu post e lembrei-me dos Oliveiras do BdP.
Sabe? Mágicos é o que, afinal, o país tem mais. A profissão tem, aliás, futuro entre nós.
Decerto que Castanheiras/Oliveiras unidos jamais serão vencidos. É o mundo...

Ó caro Nuno 371111
Por favor, Castanheira é que não...

Anónimo disse...

Pois não pode ser... a miséria intelectual não pode ser atávica em Portugal, mas...com estes exemplos que se podem repetir de uma forma transversal de há uns séculos a esta parte na história desta população... não sei não

Anónimo disse...

Cara Dr.ª HSC

Sempre que profissionalmente "morri" fi-lo com estrondo e de pé, não por ser árvore (castanheira/oliveira, etc.) mas, neste contexto, por o não ser...

E aqui que ninguém nos "ouve" - nem aquele que terá que aprovar a mensagem -, não poderia contudo deixar passar a oportunidade de dizer tudo o que penso sobre o Embaixador FSC, a coberto de uma total anonimidade que possibilita o louvor que o normal decoro impediria.

Nuno "Anónimo" 371111

Carlos Fonseca disse...

Sr. Embaixador,

"Castanheiras" é o que não falta na caixa de comentários do seu blogue.

Anónimo disse...

A velha senhora gostou tanto do comentário do caro Carlos Fonseca que o rimalhou assim (as vírgulas são da minha responsabilidade):

carlos fonseca já disse,
a parodiar la palisse,
disse o que é tão, tão, real
que isto era 'castanheiral'
se tal palavra existisse

há sempre alguém que diz não?
cá estou eu, sou exceção;
se armo em castanheira, às vezes,
é que 'armo' e 'amor' são siameses
e armar amor dá-me um jeitão:

…embaixador, minha paixão!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Nuno "Castanheira" 3711: Magnífico!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro anónimo das 13.38: fico aliviado com a sua autorização. Já tardava.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 19.30: mas este espaço sempre esteve aberto a outras árvores com frutos mais azedos, como, se acaso não tiver andado distraído, já poderá ter-se dado conta. Quanto aos elogios, que hei-de fazer? Censuro-os? Ou deixo passar os daqueles que, como o Eça dizia, "fazem o favor de me estimar"?

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 14.40: Não será tempo da família da "velha senhora" a dar por interdita? Eu, por vezes, já tenho feito isso por aqui, quando ela se "passa" um pouco mais. Diga-se que, com tais lições, acabou por moderar a linguagem...

Anónimo disse...

A velha senhora não se cala, não sabe é se passa:

'interdita', meu amor?
'lições', jov'embaixador?
se me passo não me passa?
o poder é uma desgraça!

a isto estou reduzida
já no fim da minha vida:
moderar a 'perda' e o 'alho',
não rimar 'herda' e 'bugalho'?

mas que trabalho da porra
e não há quem me socorra!
(a 'porra' passa no crivo
tem poder adquisitivo)*


*
direito adquirido é que tem
mas não rimava tão bem...

Anónimo disse...

Caríssimo FSC
A ser publicada, preferíamos, a senhora e eu, esta versão, com duas emendas: aquisitivo sem 'd' e rimalhava com 'va'.
Muito obrigada, mtòbrigado - e bom fim de semana!

A velha senhora não se cala, não sabe é se passa:

'interdita', meu amor?
'lições', jov'embaixador?
se me passo não me passa?
o poder é uma desgraça!

a isto estou reduzida
já no fim da minha vida:
moderar a 'perda' e o 'alho',
não rimar 'herda' e 'bugalho'?

mas que trabalho da porra
e não há quem me socorra!
(a 'porra' passa no crivo
tem poder aquisitivo)*


*
direito adquirido é que tem
mas não rimalhava bem…

Isabel Seixas disse...

Não convém é
interditar pessoas
com lucidez demonstrada
melhor de facto socializá-las
sugerindo-lhes a linguagem autorizada(...)

Da meta comunicação
vai-se para além da palavra
ouve-se mais a implicita emoção
sem a jardinagem que a torna escrava

Além de que castanheira
no contexto
denuncia a lisonja prosmeira
usada como pretexto...

Cara velha amiga, de modo algum se sinta só, nesta assembleia acho-a uma mulher sem papas na língua, uma rainha plebeia que não se deixa fenecer à mingua, agora, na expressão do seu amor é tão castanheira como qualquer outro ao senhor embaixador...