domingo, 11 de novembro de 2012

Nós e a senhora Merkel

A curta visita que a chanceler alemã, Angela Merkel, hoje fará a Portugal desencadeou um conjunto de reações, a maioria das quais corporizam na chefe do governo de Berlim os malefícios da cura de austeridade que Portugal está a atravessar. Pode entender-se a genuinidade da atitude de quantos são levados a interpretar as dificuldades da sua vida atual como o resultado direto das políticas seguidas pela Alemanha no plano europeu, pelo que até se compreende que, por exemplo, haja quem considere menos adequado o "timing" desta visita. Mas acho que convém haver alguma serenidade no juízo português sobre a dirigente alemã que hoje passa por Lisboa. 

A senhora Angela Merkel é lider político de um grande país democrático, responsabilizada nessas funções por um eleitorado que hoje alimenta um maioritário sentimento de desconfiança sobre o comportamento de certos países do Sul da Europa, onde se inclui Portugal, que considera que seguiram políticas laxistas que tiveram como resultado a situação que hoje atravessam. No entendimento de que os processos de rápido ajustamento macroeconómico são a solução certa para superar o atual estado de coisas, a liderança alemã limita-se a reproduzir o sentido da vontade desse seu eleitorado, o qual talvez não tenha sido motivado para valorizar, na devida dimensão, os esforços que o nosso país tem feito, mostrando-se adversa à adoção de outras políticas que eventualmente poderiam tornar o processo português menos gravoso. Com toda a certeza, falta quem explique melhor aos alemães que o seu país é o principal beneficiário do mercado interno europeu e que, num passado não muito longínquo, toda a Europa comunitária foi solidária, e pagou por isso, com a concretização do seu projeto de reunificação.

É perfeitamente legítimo que, tal como acontece noutros países, exista em Portugal, por parte dos muitos perdedores dos dias que passam, um sentimento de revolta contra as políticas de austeridade que são obrigados a sofrer. Muitos entendem, muito simplesmente, que elas decorrem de orientações que a Alemanha impõe à Europa do euro. Mas talvez devamos parar para pensar um pouco sobre qual o verdadeiro papel da Alemanha em tudo isto.

O pacote de austeridade que hoje é aplicado a Portugal é produto de uma receita económico-financeira, que comporta algumas dolorosas reformas do Estado, que foi desenhada por três instituições internacionais - uma das quais, aliás, é presidida por um português (Comissão Europeia), outra tem outro português como vice-presidente (BCE) e a terceira tinha um académico lusitano como seu diretor para a Europa (FMI). Foram essas instituições quem negociou, com um governo português já então fragilizado pela perda de confiança política interna que o tinha afastado do poder, um programa de "assistência" que, à época, acabou por ser politicamente ratificado por outras forças partidárias portuguesas. O voto maioritário de muitos de quantos hoje entre nós protestam veio, aliás, a atribuir a essas outras forças políticas, que haviam sido determinantes no afastamento do anterior executivo, o encargo de passar a governar o país, nele incluída a responsabilidade de aplicar o programa acordado e, nessa tarefa, de decidir as escolhas específicas a fazer, dentre as medidas concretas que apontem no sentido das metas genéricas da condicionalidade que são determinadas pelo contrato subscrito. 

Repito: pode acusar-se a Alemanha, cujo peso se sabe ser determinante no processo decisório europeu, de não ser sensível à necessidade de se associar a algumas medidas tendentes a aligeirar os efeitos desta cura financeira, quer em Portugal quer em outros Estados que atravessam circunstâncias similares. Mas faz parte do dever de pedagogia, em especial de quem tem obrigação de olhar para além da "espuma dos dias", explicar e fazer entender aos portugueses que a senhora Angela Merkel apenas exprime e objetiva, na sua prática política, aquilo que entende serem os interesses que a Alemanha, certa ou errada, entende dever defender. É que convém não esquecer que os governos dos países, de todos os países, são eleitos para promoverem os seus interesses, não os dos outros. E também lembrar que é para isso que, para além da Alemanha, também foram eleitos governos nos outros países. 

30 comentários:

São disse...

Concordo com a sua análise.

Mas penso que a Alemanha deveria reflectir um pouco melhor e entender que a crise passa pela Europa toda em si e não só pelos países do Sul. Aliás, se o caso da Grécia tivesse
sido resolvido solidariamente e a tempo as coisas não estariam como tragicamente estão.

Lamentavelmente, o actual Governo segue , por a partilhar, a rigidez de Merkel.EStamos , aliás, economicamente falando, com um Governo de extrema-direita.

E fico muito aborrecida (para utlizar um termo não muito forte) quando me lembro que um dos argumentos utilizados por Durão para abandonar a meio o cargo de Primeiro_Ministro foi o de que seria muito bom para Portugal a Comissão Europeia ser presidida por um português!

Infelizmente, essa foi mais uma das inúmeras mentiras de que o "melhor povo do mundo" tem sido vítima.

Quanto a Constâncio, após o desempenho como responsável do Banco de Portugal e as situações inauditas do BPN e não só, e da maneira displicente como ainda hoje encara tudo quanto aconteceu e nós estamos a pagar, não entendo como foi escolhido para o cargo que actualmente ocupa e como ousa opinar sobre Portugal.

Os meus cumprimentos.

Alcipe disse...

Muito bem. Não podia estar mais de acordo.

a) Alcipe

Anónimo disse...

A Senhora Engenheira é que nos vai salvar, não essa Senhora Merkel, que é luterana e acredita no ordo-liberalismo...

a) Feliciano da Mata, Faculdade de Economia do Golungo Alto

Anónimo disse...

Nós os portugueses, por vezes, preferimos culpar a chuva ao invés de nos responsabilizarmos pelos dias em que procrastinamos o arranjo do telhado ...

E esta terá de ser a hora de, em uníssono, fazermos um "mea culpa" para podermos juntos e "Ulpianamente" trabalhar em prol da sua reparação.

Seria bom contarmos com dois factores: um belo dia de sol e que a senhora alemã parasse de atirar baldes de água cá para o burgo.

Nuno 371111

Anónimo disse...

Ao reler o meu comentário lembrei-me dos amanhãs que brilham, que estão, contudo, a anos-luz do que queria dizer ... é o que dá não ser directo...

Nuno 361111

Isabel Seixas disse...

Pois , de qualquer forma a Sra também tem um bom perfil... Para bode expiatório, claro...

Um Jeito Manso disse...

Ora bem, nem mais, embaixador.

Sem a sua diplomacia, acabo de dizer mais ou menos a mesma coisa lá no meu canto.

Tivesse Portugal um governo apostado em defender os seus interesses como a Frau Angela Dorothea defende os do seu país e outro galo cantaria.

Uma boa semana para si, Embaixador.

Catinga disse...

E, para completar o ramalhete, o António Borges não estava à frente do Departamento Europeu do FMI?

Bernardo Ivo Cruz disse...

Caro amigo,

Desta longa crise sem fim à vista o que mais me preocupa é a submissão do método comunitário ao modelo intergovernamental. Sem o método comunitário, a Europa volta à institucionalização dos egotismos nacionais, com os tristes resultados que conhecemos. Neste dia seguinte à 11ª hora do 11º dia do 11º mês, seria bom sermos tão ousados como aqueles que nos precederam.

Um abraço,

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Gostei do seu texto Senhor Embaixador.

"Como é óbvio a insustentável situação financeira a que chegámos não é culpa de Angela Merkel. E apesar dos Socialistas serem muito sensíveis ao tema da “culpa” - do ponto de vista psicológico e não da ética, como é bom de ver – é lamentável a despudorada atitude persecutória e xenófoba que não se eximem de exibir quanto aos alemães. Não vale tudo para cavalgar o natural descontentamento popular nestes inevitaveis tempos de penúria, e é verdadeiramente deplorável o jogo perigoso que alguns socialistas insistem praticar: não tenho dúvidas que de hoje para amanhã, mais cedo do que julgam, ver-se-ão eles na contingência de desarmar a bomba relógio que agora se entretêm a armadilhar. Não vale tudo, "terra queimada", não."

http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/5145968.html

Anónimo disse...

Pois é.... Não sei.
Será que não nos metemos nesta trapalhada toda de livre vontade como o filho mimado de um pai rico, o qual pagava sempre as nossas dívidas e agora cansado deixou de as pagar e exige que comecemos a viver ganhando a vida com o que produzimos? Não sendo eu politizado não sou capaz de pensar em casos destes de uma forma subjectiva, mas... eu não sei

Anónimo disse...

Que seja bem vinda a Chanceller Merkel, mas, já agora, que leve o Cavaco, Passos, Portas e Compª, que não fazem cá falta!

Comentário pouco diplomomático, bem sei, mas é o que sinto.

Cpts. J.

Anónimo disse...

No penúltimo parágrafo se reconhece a experiência e a memória do Senhor Embaixador, que por "feitio" e profissão é um "teimoso" na exacta e séria abordagem dos assuntos que aflora. A isto se chama honestidade intelectual. Talvez seja por isto que o texto do Ascenso Simões me conforta... Vou relembrá-lo se um dia vier a atalho de foice!

Alain Demoustier disse...

as coisas são como se vê.
se a São tivesse lido e assimilado o extraordinario modo de emprego da politica Yes Minister e Yes Prime Minister acharia claras as nomeações do Barroso e Constancio: kicked upstairs !

Não e dificil compreender the reason why !!!!!.
Alain+++

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
O seu post é modelar e exprime a visão de quem sabe do que fala.
Espero que os socialistas tomem, quanto antes, conta do governo. E como eventualmente não terão maioria absoluta, espero que possam fazer um governo de esquerda com o PC e o BE.
Nessa altura mandaremos a Troika embora e poderemos gerir-nos a nós próprios. Gostava de estar viva para ver a exequibilidade das medidas que preconizam.
As quais certamente nos devolverão a nossa soberania, isso não duvido...
Não concordo com o actual programa de governo. Nada.
Mas gostaria muito de ver, branco no preto, as medidas alternativas que esse governo de esquerda unida imporá para salvar o país. E estou a falar a sério, como calcula, porque a minha felicidade familiar seria, então, total.

Helena Sacadura Cabral disse...

Ó meu caro Alcipe fale-nos lá um pouco dessa Senhora Engenheira. Onde é que ela tirou o curso? Independente? Autónoma?
Técnico? Conte-nos porque me parece ser mulher muito poderosa.

Helena Sacadura Cabral disse...

Cara São
Constâncio foi premiado com a vice presidência, para falar sobre Portugal, que conhece bem. Ninguém melhor do que ele para com a sua experiência, dirigir a supervisão bancária europeia...

Anónimo disse...

Afinal o filme que Marcelo Rebelo de Sousa queria mostrar aos alemães, e que parece ter sido sensurado (?) não sei o que tem de revolucionário! 
Mostra como a economia alemã tem conseguido tirar proveito com o mercado português, muito mais do que Portugal "aproveita" do mercado alemão; mostra a diferença de tratamento remuneratório entre o trabalhador alemão e o trabalhador português; o tempo de trabalho anual de uns e outros e mais uma série de maus tratos que vão além do limite do suportável a que as politicas da Sra Merkel estão a submeter os trabalhadores portugueses... 
Mas agir como se Rebelo de Sousa fosse um qualquer esquerdalho... Vai o comprimento de um comboio!
José Barros 

Anónimo disse...

Boa piada Helena,
a do Don Costâncio.
Há muito que me interrogo, se no combate à corrupção lusitana,
um qq governo não deveria chamar alguns especialistas.
Entre eles, o 'major'.
Vale?
Coronel Z

Anónimo disse...

Eu acho que ninguém leu bem a última frase do texto...

Anónimo disse...

Ó Senhora Dona Helena, o Feliciano da Mata tem o seu orgulho! Se não me distingue do seu amigo Senhor Alcipe, esse poeta desconhecido e menor, e se não reconhece o meu valor como empreendedor exemplar e lusófono de gema, terei que (com muita pena minha, porque a admiro) zangar-me consigo. A Senhora Engenheira é que me compreende! Dê lá os meus cumprimentos ao senhor Alcipe, que é um zero para os negócios, ao contrário cá do Feliciano.

a) Feliciano da Mata, orgulhoso empresário lusófono

Anónimo disse...

da que pensar ser mais facil se fazer uma manifestacao contra uma chanceler alema que contra um qualquer politico corrupto portugues ou um presidentes de empresas publicas que seja declarada incompetente...

nao como pensar nos ovos da vizinha para se deixar o nosso galinheiro na mesma

ou la o que é...


Anónimo disse...

Perante o texto do Sr. Embaixador, muito objetivo e obviamente apaziguador, atitude com a qual concordo muito, apetece no entanto afirmar, que o título está incompleto:
Quanto a mim devia ser: Nós, a Senhora Merkel e os nossos políticos!
É que, grande parte de nós, começa a ficar farta de os ouvir dizer que o forrobodó foi causa coletiva (admitindo mesmo que todos demos um passinho de dança no forró).

EGR disse...

Senhor Embaixador: não tem sido meu habito quando me decido a tentar deixar,neste espaço, os meus comentarios-certamente modestos quando confrontados com demais- fazer apreciações sobre o que outros aqui escreveram.
Mas, hoje não resisto a faze-lo não
sem antes declarar que estou de acordo com a analise que V. Exa faz
E isto posto formulo a minha perplexidade acerca dos escritos da Dra. Helena Sacadura Cabral e de
José Tomas de Mello Breyner; quanto a primeira gostaria de saber onde radica a sua esperança de que os socialistas,caso regressem ao poder,farão um governo com o BE e com PCP.
Não sei, em termos factuais, onde
radica essa esperança,e mesmo que estejamos ante um toque de ironia,a frase tem,por certo, algum significado.
E já agora a Dra Helena Sacadura Cabral poderia fazer o favor de nos apontar o caminho,e quais os protagonistas, que nos devolverão a nossa soberania.
E sobre a supervisão bancaria, sem querer esquecer possiveis responsabilidades do Dr. Vitor Constancio, tambem gostava de saber se ele presidiu a outros bancos centrais por essa Europa fora onde a supervisão falhou.
Mas,Senhor Embaixador, onde,passe a expressão, a coisa é mais séria é com o comentário de João Tomas de Mello Breyner,para quem, bem sei, o 25 de Abril foi uma tragédia.
Francamente afirmar que os socialistas tem uma atitude de"despudorada e persecutória atitude xenófoba" relativamente aos alemães" parece-me relevar do de um sectarismo que se situa no limite do ofensivo.
De facto, não vale tudo quando nos pronunciamos sobre aqueles de quem discordamos, isso sim xenofobia,no sentido de incapacidade para respeitar o outro.
Espero, Senhor Embaixador, ter conseguido não incorrer,ao longo deste texto,nesse tipo de apreciações.

Anónimo disse...

Agora anda por aí uma mania (mais uma) de escrever "Don" (à espanhola), em vez de "Dom" ou mesmo "D."

Irra!

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Anónimo das 00:42
Claro que a minha esperança era irónica. Mas se ouviu os discursos do PC e do BE decerto percebe que é de recuperar a nossa soberania que eles falam. E estão no seu pleno direito.
O que eu gostava, como digo no comentário anterior, era perceber como viveríamos sem o dinheiro que vem de fora. Porque, no dia em que não pagarmos o que devemos, a torneira seca.
Quanto a Vítor Constâncio o que eu digo é que o seu actual lugar foi um prémio. Penso isso. Discorda?
E também digo que ele é a pessoa mais indicada, pelos conhecimentos que tem, para dirigir a supervisão bancária europeia. É mentira? Julgo que não. Aqui o humor não é meu. Será todo seu.
E, pelo que a mim respeita, considero que o caro comentador não incorreu em qualquer tipo de apreciação menos correcta. Fez duas perguntas e eu respondi.

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai Feliciano da Mata, me perdõe.
Razão têm os que dizem que o meu pior defeito é fugir-me sempre a boca para a verdade.
Prometo-lhe ser mais cautelosa no futuro. Mas sabe, a idade tem destas coisas e a minha cabeça, sob o efeito do Dr Gaspar já não é o que era, Minguou. Creia que se a CGTP me permitir - decerto que estará na cerimónia do prémio concedido ao seu antigo patrão -, pedir-lhe-ei pessoalmente perdão.
Até ando preocupada com estes meus actos falhados.
Mas caro Feliciano, o Senhor D. Alcipe não é um poeta menor. Isso não. Não despreze nunca uma vocação poética que desconhece!

Anónimo disse...

…E, aos costumes, a velha senhora disse nada:

concordo co'a ideia
do alcipe - não do mata
a merkel é é feia
que se farta

não gosto muito dela
o passos a aproveita
pra nos pôr de gamela
e é mal feita

Isabel Seixas disse...

Ó cara velha amiga isso não é bonito nem se faz, então a minha amiga vai-se ao fenótipo da Sra para ser mordaz...

jj.amarante disse...

A propósito desta visita gostaria de fazer uma pergunta cândida, dada a minha ignorância sobre a utilização habitual do Forte de S.Julião da Barra. A realização do almoço com a Chanceler Merkel nesse local fortificado não tem significado, tem algum significado mas nada de especial ou pode-se considerar como sinal significativo de algum receio pela segurança desta visitante?