terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A "Seara" e o padre*

O grupo "Seara Nova" foi, sem dúvida, a mais fecunda escola de pensamento crítico nascida durante a primeira República portuguesa. Dentre os seus objetivos figuravam o aprofundamento de temáticas culturais, cívicas, pedagógicas e económicas, para o que congregou figuras de relevo da intelectualidade portuguesa de então. Criado em 1921, dando origem a uma revista com esse nome, o grupo "seareiro" representou, a partir de 1926 e durante toda a ditadura, um polo alternativo em matéria de reflexão em torno das ideias e da sociedade, com regular acolhimento de textos de muitas personalidades desafetas ao regime, o que lhe valeu ser alvo cíclico da repressão, com uma constante perseguição por parte da censura.

Muitos recordarão a imagem histórica do grupo "Seara Nova", que adiante se reproduz:
Os seus integrantes são nomes sonantes do grupo. Sentados, da esquerda para a direira. estão Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e Raul Brandão. De pé, pela mesma ordem, veem-se Teixeira de Vasconcelos, Raul Proença e Câmara Reis. Dos fundadores da "Seara", faltarão, na foto, António Sérgio e Augusto Casimiro, se não estou em erro.

Para quem, como eu, tem a coleção da "Seara Nova" desde os anos 50 (adquirir as décadas anteriores é difícil, embora não impossível, mas não tenho espaço para tal), esta fotografia faz parte da minha memória eterna dos "seareiros".

Um dia, porém, nos anos 70, ao analisar um número comemorativo dos 50 anos da "Seara", atentei melhor na fotografia do grupo que essa publicação apresentava. Por uma razão que na altura não identifiquei, achei nela algo de estranho. Fui então à procura de outras imagens do famoso grupo de 1921 e - supresa das surpresas! - verifiquei que as fotos não coincidiam. 

Querem saber porquê? Vejam:
Como se diz nos passatempos: observe as diferenças!

E a principal dentre elas é a existência de um padre no canto superior esquerdo desta segunda foto - esta que é, de facto, a foto original.

Ao que reza a pequena história, "não daria jeito" ter o padre na fotografia. E quem era ele? Trata-se do anónimo pároco de Coimbrão, localidade perto de Leiria onde, em casa de José Leal, teve lugar a reunião fundadora da "Seara" e onde foi tirada a foto. Porque  ninguém terá querido afastar o padre da ocasião, foi decidido apagá-lo mais tarde, historicamente, da fotografia do grupo. 

Como se vê, nem só Estaline tirava Trotsky das fotografias. Mais ou menos pela mesma época, aliás...

* Uma amiga que, neste Natal, esteve na casa onde a foto foi tirada, esclareceu que o "apagado" pároco se chamava Horácio Biu. Finalmente, o homem recuperou o nome...

12 comentários:

Anónimo disse...

Acho que não foi por isso...
Concordemos que o Sr. padre era o mais bem afeiçoadinho, e naquele tempo se calhar ...

Não sei, mas que pode ser uma hipótese...
Isabel Seixas

Sexagenário disse...

A primeira informação que consta dos meus processos na PIDE é a de que era assinante da Seara Nova.
Tinha 17 anos.
Está lá também correspondência que dirigi à revista. Nunca chegou ao destino.

Anónimo disse...

Adorei a conclusão!

Isabel BP

Carlos II disse...

Pois...todos ou quase todos da foto maçons e não dava muito jeito ter ali o padre.

Um abraço.

Anónimo disse...

meu deus, nosso senhor jesus cristo nos acuda. por que será que há em cada um de nós um salazarista disfarçado de stalinista? enfim: democratas, all of us.....
(país de sacanas, não é jorge de sena?)
jcm

patricio branco disse...

Curioso trabalho de investigação. Ao apagar o padre, apagou-se tambem parte do cenário ou fundo da fotografaia, especialmente no lugar onde ele estava, tornando-a um pouco mais pobre.
Mas deveria aprofundar mais a ocorrencia: qual o papel do padre na criação do grupo? apenas circunstancial? teria autorizado borrar a sua imagem (para não ter conflitos com o bispo)? Destoava do grupo? Especulo!
efectivamente, o trucar fotografiias lembra sempre as praticas da URSS, chinha, cuba e coreia do norte.
No caso presente, deve ter sido algo mais inocente, cheira-me.
Que sorte e sentido arquivista e coleccionador FSC conservar a colecção da SN. Eu assinei-a durante alguns anos mas já nada tenho. Igual para a vertice, a broteria (onde escreviam manuel antunes sj, arq. ribeiro teles,etc). Nem sei se alguma das 3ainda existe.
Curiosa entrada do blogue, repito.

José Barros disse...

Censura nunca mais porque a Historia é teimosa...

Gil disse...

Há quem apague nas fotografias, quem o faça na História e, até, quem o oblitere nas autobiografias.
Nunca foi monopólio dos comunistas: na antiquidade, apagavam-se, nos monumentos e nos escritos, as homenagens aos governantes e heróis caídos em desgraça; na Idade Média, até se "apagavam" os herejes, de preferência depois de os acender; a prática continuou até agora e, muitas vezes, ancorada em "boas razões".
É uma tentação a que é muito difícil resistir e que acometeu (e acomete) muito boa gente.

Helena Sacadura Cabral disse...

Ainda há bem pouco tempo Saramago apagou Isabel da Nobrega dos seus livros... Mas na URSS, na China, na Coreia era - é? - assim.
Devo muito aos seareiros e à SN, que me ensinaram várias coisas. Não me surpreende muito que um padre estivesse na foto. Porque não? O bispo do Porto não teve medo. Outros padres como Felicidade Alves, Abel Varzim e Manuel Antunes também não.
Quando vejo a esquerda de Pina Moura... aí, sim, fico baralhada. E só cito este. Teria cá uma listinha...
:)))

Anónimo disse...

Provocação pura : também apagaram o Salazar da Ponte sobre o Tejo!

a) Pequeno Lusito

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa,

Com efeito, esta fotografia mora no nosso imaginário do grupo dos Seareiros. Há também um desenho desta mesma fotografia onde aparece a porta mais aburguesada ( diria quase Arte Nova ) que se vê na foto com o pároco.

Quem descobriu esta preocupação com o Marketing por parte do Seareiros ? Até agora nunca tinha lido nada sobre este pequeno episódio, mas parece-me um dado muito interessante. Sendo verdade, significa que, mesmo, a elite intelectual tinha preocupações com a imagem do "politicamente correcto", o que nos dá uma dimensão triste da natureza humana.

Na realidade, a inclinação da cabeça de Jaime Cortesão tem razão de ser com o pároco atrás de si, caso contrário estaria a sofrer com algum torcicolo...

Certamente o seareiro mais tardio, Agostinho da Silva, de seu nome se tivesse pertencido ao núcleo fundador não subscreveria uma tal manobra de marketing, porque isso não me parece que se quadrasse com o seu espírito mais independente!

Faço votos de um Feliz Natal para o FSC e todos os leitores deste rico espaço da blogosfera!

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

Julia Macias-Valet disse...

"Abençoado" Photoshop ! : ))