domingo, 26 de dezembro de 2010

Lula e o futebol

Eu tinha chegado ao Brasil há poucos dias. A apresentação das minhas cartas credenciais ao presidente Lula estava muito atrasada, devendo aguardar ainda meses.

Um dia, para minha surpresa, o "Cerimonial" (o nome brasileiro para Protocolo) convidou-me a estar presente no almoço oficial que o presidente Lula oferecia ao presidente do governo espanhol, José Luiz Zapatero. Era um gesto de inusitada simpatia para com o representante diplomático português, porque um embaixador não "existe" oficialmente, perante um chefe de Estado, antes de apresentar as credenciais. Mas as relações luso-brasileiras têm destas simpáticas sublitezas.

No final do almoço, o chefe do Cerimonial, Ruy Casaes, quis ter a acrescida amabilidade de me apresentar ao presidente e ao seu convidado. Lula da Silva deu-me as boas-vindas, de forma bastante calorosa e logo inquiriu:

- Embaixador, qual é seu "time", em Portugal?

- Sou de um clube essencialmente católico, presidente. 

Deixei passar uns segundos e, perante a perplexidade dos presentes, expliquei que era do Sporting, "um clube que só ganha quando Deus quiser".

Lula deu uma gargalhada e disse que conhecia melhor o Benfica e o Porto.

Nesse ponto da conversa, Zapatero - que não me pareceu muito conhecedor de futebol - puxou o assunto para Pélé, afirmando a grande admiração que tinha pelo jogador, que tinha visto jogar em seleções brasileiras.

Lula comentou então:

- O presidente Zapatero sabe que Pélé não fazia parte daquele que é, ainda hoje, considerado como o melhor "time" que o Brasil alguma vez teve?

Aí, eu intervim:

- Está a referir-se ao "time" do Chile, em 1962, presidente?

Lula fez uma cara de quem estranhava bastante que eu soubesse esse preciosismo e retorquiu:

- O embaixador lembra-se do "time" do Chile?

- Muito bem, presidente. E, por acaso, o presidente recorda-se dos jogadores que compunham esse "time"'?

Lula deve ter achado algo impertinente a minha observação, mas lá adiantou:

-  Tinha o Zózimo, o Amarildo, o Garrinha...

Agarrei a oportunidade e "arrasei":

- Presidente, talvez valha a pena começar pelo princípio: Gilmar; Djalma Santos, Mauro e Nilton Santos; Zito e Zózimo; Garrincha, Didi, Vává, Amarildo e Zagalo.

Zapatero estava sem perceber nada. Lula exibia um sorriso espantado e, por um instante, deve ter pensado que Portugal teria decidido mandar para o Brasil um técnico de futebol, em lugar de um embaixador.

- Mas como sabe isso, embaixador? Por que conhece todo esse "time" brasileiro?

Expliquei então ao presidente Lula uma coisa que ele provavelmente desconhecia, mas que, estou seguro, não esqueceu mais:

- Sabe, presidente, a minha geração, em Portugal, quando a nossa seleção nacional não estava numa "copa" do Mundo, tinha o Brasil como a "sua" seleção. E, por isso, eu conhecia muito bem todo o vosso "time", porque o "time" do Brasil era o meu "time".

(Não disse ao presidente Lula que esse "time" do Chile era, por mero acaso, o único que eu sabia totalmente de cor...).

A partir daí, e nos quatro anos seguintes, várias vezes conversei com o presidente Lula sobre futebol, a maioria delas sobre a errática sorte do seu Corinthians. E, infelizmente, nunca encontrei uma boa razão para lhe voltar a falar no meu Sporting...

13 comentários:

Anónimo disse...

Encontrei uma boa razão para lhe voltar a falar no meu Sporting...

O meu pai era do Sporting...
E o Sporting é...

Aliás essa versão de cariz religioso para o qualificar é bem interessante.

Os quereres de Deus

Isabel Seixas

ZéBonéOaparvalhado disse...

Senhor Embaixador.

Qualquer representante do País, neste caso, Embaixador ou Embaxatriz, deve versar qualquer tema ou, até, criar "good Will, para os negócios que as empresas Portuguesas podem vir fazer, no seu raio de acção.

O Senhor Embaixador, - parece-me a ser um excelente ponta de lança - ainda faz muita ao seu Sporting

Helena Sacadura Cabral disse...

Eu desconfiava. Mas não sabia ao certo. Agora sei porque gosto tanto do Sporting e ele tanto me faz sofrer. É que, de facto, só ganha quando Deus quer e Este tem andado ocupado com outros clubes...

Julia Macias-Valet disse...

Hoje ouvi Gonçalo Tavares falar na televisao. Dizia o escritor que na adolescência teve duas paixoes : o futebol (jogou no Beira-Mar) e as matematicas puras. Mas foi a escrita que o "apanhou".
Quanto ao nosso escriba depois de uma "passagem" pelas matematicas na juventude, nao nos pode esconder que tem uma grande paixao pela escrita e pelo futebol ; )
Os ingredientes sao os mesmos...

cunha ribeiro disse...

Isto de memorizar para sempre os nomes de uma equipa completa - estrangeira!- é só para alguns...:

Ajax da década de 70 ( A melhor equipa da Holanda- e talvez da Europa - de sempre):

Shtoy,
shurbier, hulchof, Blankemburg, e Krol;
Neeskens, Van Hanagen, e Han; Cruifjt, Keiser, e Rep.
Se há algum nome mal escrito, concederão que não é fácil escrever correctamente todos estes nomes difíceis...

Anónimo disse...

O Pelé jogou no Mundial do Chile, mas lesionou-se ao primeiro jogo. Quem brilhou foi Garrincha, que pôde participar no jogo da final porque o absolveram da penalização por uma expulsão. Foi ainda em plena guerra fria e o adversário era um país que já não existe, a Checoslováquia.
Abraço do Zé Barreto

Francisco Seixas da Costa disse...

E foi preciso vir "a jogo" o meu velho amigo Zé Barreto para eu (e o presidente Lula) sermos esclarecidos de que o Pelé ainda fez uma "perninha" no Chile. Não há como os historiadores para fazer a boa história... Um abração, Zé Barreto!

José Martins disse...

Senhor Embaixador,
Mas longe, estaria de saber o Presidente Lula da Silva que tinha tido, o embaixador Geraldo Muzzi, estrela de futebol... Se tivesse conhecimento, certamente, lhe falaria nele.
http://aquitailandia.blogspot.com/2010/12/memorias-geraldo-muzzi-um-senhor.html
Saudações de Banguecoque
José Martins

Anónimo disse...

Sempre achei o Presidente Lula um homem deveras..."Interessante", apesar da exposição a fatores de risco inerentes, a meu ver, conseguiu sair no fim com a dimensão "pessoal"
e "Pessoa" integra ...

Sem o charme do meu 2º politico preferido "Felipe González" consigo continuar a Nutrir por ele empatia.

Agora, não conhecer o Sporting!!!!!
Sinceramente...
Apetece-me ser do bota fogo...

Ou então ver se me ensina o fora de jogo de uma vez por todas, (embora já vou ter imenso tempo, para aprender, quando for viver para o cemitério), desculpe Sr. Embaixador mas foi muito benevolente na sua análise...

Pela Honra do Sporting.

Enviemos uma caderneta de cromos de todos os tempos do Sporting ao cidadão brasileiro Lula Da Silva, que em boa verdade sr. Embaixador era o que o Senhor devia ter feito, já que o então Sr. Presidente não quis fazer retribuindo os seus saberes nesse contexto,e redimindo-se da Sua ignorância.
Isabel Seixas

Anónimo disse...

O meu pai era um fervoroso adepto do Sporting e dizia à minha mãe para não se esquecer de incluir "de vez em quando" o clube nas orações.

Isabel BP

Alexandre Ayres disse...

Aqui há de se reticar: Pelé, nesta Copa, lesionou-se na 2ª partida da primeira fase, contra a Tchecoslováquia (0x0) e não na 1ª partida contra o México (2x0). Na época não havia substiutição e o Brasil jogou até o final da partida com 10 homens. Amarildo o substituiria no 3º jogo contra a Espanha (2x1).

Anónimo disse...

Nem presidente, nem embaixador
em terras vimarenses sou Guimarães
e terras piratiningas sou pelo vicentino Santos.

Mário Machado disse...

Eu tenho um enorme carinho pelos homens de 50 sua dolorida derrota (dói até em mim que nasci 30 anos depois) sedimentou o caminho não só do uso da "amarelinha" como foi o marco que se podia ser brasileiro e ser campeão do mundo, como visto em 58.

O Corinthians (que nos nas humildade dos torcedors - adeptos - chamamos de todo poderoso timão) a única coisa que em eu não me oponho a Lula.

Abs,