Como o tempo passa: são já quatro horas da tarde de sábado (e logo à noite vamos “ganhar” uma hora, não se esqueçam!). Vai-se a ver, daqui a umas semanitas, estamos a ver se os cremes para a praia estão dentro da validade. Não desanimem!
sábado, março 28, 2020
O barman holandês
É bom termos a sorte de nos lembrarem cenas em que participámos, mas que já havíamos esquecido! Há tempos, um estimado colega (cujo nome não refiro, porque não cuidei em lhe perguntar se o podia fazer) recordou-me uma história passada numa reunião da Conferência Intergovernamental para a negociação daquilo que viria a ser o Tratado de Nice, ao tempo em que eu era o representante do governo português nessa tarefa.
A presidência rotativa semestral da União Europeia pertencia então à Holanda - ou, fazendo-lhe a vontade na semântica - aos Países Baixos. Discutia-se a eventual alteração do modelo de voto nas decisões comunitárias, que teria de passar por uma "reponderação" da força relativa de cada Estado no processo decisório. O tema era muito polémico. Mudar a relação de forças entre os países foi sempre uma questão delicada e divisiva no seio da União Europeia.
Um dia, a presidência holandesa decidiu, sob a sua responsabilidade, colocar sobre a mesa uma proposta algo radical que, em especial, alterava a relação interna de poder entre os três países do Benelux (Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo), que tinha sido mantida intocada desde a criação das Comunidades Europeias. Para os negociadores holandeses, chefiados pelo embaixador Ben Bot, que anos depois haveria de ser chefe da diplomacia do seu país, haveria que retificar essa relação, por forma a dar uma maior consideração ao fator demográfico. Nessa perspetiva, os Países Baixos eram beneficiados, porque tinham uma população substancialmente maior que a dos seus dois outros parceiros do Benelux. Exclusivamente nessa lógica, as coisas tinham uma certa racionalidade, só que a lógica em que as coisas se apoiavam estava muito longe de ser única e, muito menos, de ser consensual.
Assumir uma presidência na União Europeia implica respeitar uma certa neutralidade naquilo que se propõe. Não se espera que o país que a detem apresente, de uma forma ostensiva e despudorada, ideias que diretamente a possam beneficiar. Foi isso, contudo, que, nesse dia, os holandeses fizeram.
Acabada a intervenção de Ben Bot, o delegado belga, uma grande e experiente figura da diplomacia europeia, o embaixador Philippe de Schoutheete, um amigo que já desapareceu em 2016, pediu a palavra e, com a inteligência, franqueza e humor que todos lhe conhecíamos, disse, muito simplesmente: "Senhor presidente. Tomámos boa nota da proposta que acaba de nos apresentar em nome dos Países Baixos. O único comentário da Bélgica ao que acaba de dizer é o seguinte: o senhor portou-se como uma barman que se serviu a si próprio antes de servir os clientes".
E a proposta holandesa morreu aí. Lembrei-me disto agora, sei lá bem porquê!
O contexto
“Está descansada! Um destes dias, quando tiver tempo, eu arrumo isso!”. Não gosto que citem velhas frases minhas, fora do contexto.
sexta-feira, março 27, 2020
Países Baixos
Um dia, em Salvador da Bahia, no Brasil, à saída do Hotel Convento do Carmo, uma unidade das Pousadas de Portugal, dirigida pelo grupo Pestana, dei com esta bela placa. Nela se comemora a derrota dos holandeses, no termo da sua frustrada tentativa de dominar o Brasil. Verdade seja que o Portugal desse tempo vivia o “tempo dos Filipes”...
A maior ironia é que, em frente ao edifício onde está afixada esta placa, estava (está?) instalado o Consulado da Holanda - ou dos Países Baixos, como agora querem ser chamados, porque acham que o primeiro nome tem má fama.
Coitado do Cônsul! Numa cidade tão grande, logo haviam de pôr o seu escritório junto a um local onde se consagra a humilhação do seu país.
Por que diabo me terei lembrado disto hoje?
Humor sportinguista
Será proibido, à luz das leis de exceção, cantar o nosso hino. “Só eu sei por que não fico em casa”?
Será?
Dei comigo a pensar que isto deve ser a coisa mais parecida com estar em casa com pulseira eletrónica.
Ora bem!
A FPF decidiu não atribuir o título este ano. Como sportinguista, não posso deixar de constatar que este foi um ano em que ninguém conseguiu fazer melhor do que nós. Essa é que é essa!
Diplomacia e frontalidade
Alguns espíritos sensíveis escandalizaram-se com o facto de António Costa ter considerado “repugnante” o comentário do ministro das Finanças holandês sobre a dívida espanhola. E alguns, por cá, apenas porque não gostam do primeiro-ministro que temos, logo avançaram que Costa teria sido “pouco diplomático” e que isso, a prazo, poderia vir ter consequências negativas para os interesses do país.
As relações entre os Estados obedecem a um conjunto não escrito de regras que se destinam a preservar um terreno último de entendimento, por forma a manter abertos canais de contacto, muito importantes em tempos de divergência e até de conflitualidade aberta. Os diplomatas são aliás treinados para servirem como última linha de defesa desse diálogo. Os políticos, sendo os primeiros a dever estar atentos aos interesses dos países que lhe cabe representar, devem ser particularmente atentos à preservação desses canais. Pelo que, nas intervenções que fazem, devem ter sempre o sentido da medida.
Há uns tempos, como alguns recordarão, um ministro holandês das Finanças, de nome impronunciável, fez no Parlamento Europeu algumas considerações preconceituosas sobre os países do sul da Europa. Agora, um seu sucessor, foi no mesmo sentido, desta vez cumulando, ao preconceito, uma imensa falta de sensibilidade, perante a situação trágica que a Espanha atravessa.
Como nota pessoal, não é nada que me espante, vindo de alguma gente da Holanda, que agora quer ser chamada apenas “Países Baixos” - e, às vezes, como o foi neste caso, até merece ser qualificada assim, embora não sei se a tradução em holandês do que isto por cá pode significar será entendida na Haia.
António Costa é um político com grande traquejo, nomeadamente internacional. Ao dizer o que disse, sei que mediu bem as palavras. Mais do que isso: sabia que estava a traduzir a forma de sentir, não apenas de muitos dos seus compatriotas, mas igualmente de muitos outros europeus, que não estão dispostos a conviver com a impunidade de um discurso marcado pela frieza cruel de um calvinismo cínico. Quem não se sente, não é filho de boa gente e, nós, portugueses, somos. A frontalidade é também uma das armas da diplomacia.
Fez assim muito bem António Costa ao considerar “repugnantes” as declarações do ministro holandês. Porque o foram. E espero que o embaixador dos Países Baixos em Lisboa, meu vizinho de bairro, diga à sua capital que o país que tão generosamente o acolhe no seu seio partilhou visivelmente a indignação do seu primeiro-ministro.
Nos últimos anos, aprendi muito mais sobre a Holanda do que aquilo que já sabia do contacto profissional com muitos diplomatas holandeses, com que a vida me fez cruzar. Um excelente escritor transmontano com muitos anos daquele país, Rentes de Carvalho, explicou-o bem em alguns dos seus livros. Por tudo o que sei, e sei alguma coisa, a Holanda merece melhor do que esse senhor que transitoriamente lhe trata das contas. E merece que lhe respondam à letra, como António Costa fez.
A besta
- Por que é que usas sempre apenas a palavra vírus para referires o cronavírus?
- Ora essa! É para não dar confiança a essa besta! Era só o que faltava, estar a chamá-lo pelo nome próprio!
- Ora essa! É para não dar confiança a essa besta! Era só o que faltava, estar a chamá-lo pelo nome próprio!
A nova América
Sempre houve quem alimentasse teorias conspirativas sobre o caráter “predatório“ da ação dos EUA pelo mundo. A gestão Donald Trump “desmascarou” isso: é isso mesmo, é “America first” por todo o lado e em tudo. Esse é o corpo de “princípios” que hoje por lá vigora. Claro como água.
quinta-feira, março 26, 2020
EUA - China, os efeitos da crise
Leonídio Paulo Ferreira, jornalista do “Diário de Notícias” especializado em temas internacionais, ouviu diversas pessoas, numa reflexão prospetiva sobre os efeitos geopolíticos desta crise no equilíbrio entre os EUA e a China. Tive o gosto de ser uma delas, no capítulo “É a economia que, no final de contas, vai contar”. Pode ler aqui.
À espera da Itália
Nesta crise, há algo que tenho por claro: a Itália é a nossa grande defesa. Se o seu peso económico no contexto europeu não conseguir funcionar como argumento “ad terrorem” para forçar uma solução criativa, não será o nosso caso, nem sequer o espanhol, que “comoverá” ninguém.
Ramos-Horta
Bela e nobre atitude de José Ramos-Horta, a condenar a hostilização de que estão a ser vitimas os cidadãos portugueses que estão a trabalhar em Timor, acusados injustamente pela “vox populi” de serem os propagadores do vírus.
Um abraço amigo de agradecimento, José Ramos-Horta.
Perguntadores
Eu sei que muitos não vão gostar, mas aí vai: quem interroga os especialistas nas conferências de imprensa não deveriam ser jornalistas com um mínimo de formação em questões de saúde?
Dá ideia, algumas vezes, que tanto podiam fazer isso como entrevistar um cantor pimba...
Quando se trata de entrevistar alguém sobre assuntos europeus ou temas culturais, os jornalistas são, em geral, gente que domina razoavelmente a matéria.
Se o assunto é saúde, não devia ser da mesma forma?
Dá ideia, algumas vezes, que tanto podiam fazer isso como entrevistar um cantor pimba...
Quando se trata de entrevistar alguém sobre assuntos europeus ou temas culturais, os jornalistas são, em geral, gente que domina razoavelmente a matéria.
Se o assunto é saúde, não devia ser da mesma forma?
Os poetas contra o vírus (2)
O AMOR NA BICHA DO SUPERMERCADO EM TEMPOS DE QUARENTENA
Não me aproximei de ti,
guardei devida distância,
mas na hora que te vi
nasceu em mim esta ânsia.
O teu corpinho de licra
vestido e teu olhar manso
é imagem que em mim fica
e me deixa sem descanso.
vestido e teu olhar manso
é imagem que em mim fica
e me deixa sem descanso.
Amanhã irei de novo
ao mesmo supermercado,
guardando no meio do povo
o recato aconselhado.
ao mesmo supermercado,
guardando no meio do povo
o recato aconselhado.
Esperarei que tu venhas,
por isso fico na caixa
atrapalhando nas vendas;
olho pela esquerda baixa
por isso fico na caixa
atrapalhando nas vendas;
olho pela esquerda baixa
e não vejo teu sorriso
nem teu corpo iluminado.
Resmungam todos comigo,
que atrapalho ali parado.
nem teu corpo iluminado.
Resmungam todos comigo,
que atrapalho ali parado.
Mas eu espero que venhas
com teu corpinho na licra
e em arco-íris acendas
o fogo na minha vida.
com teu corpinho na licra
e em arco-íris acendas
o fogo na minha vida.
Assim volto cada dia
a este supermercado
à espera que sorrias
um dia a este meu fado.
Luís Filipe Castro Mendes
a este supermercado
à espera que sorrias
um dia a este meu fado.
Luís Filipe Castro Mendes
Os poetas contra o vírus
O meu amigo Manuel Alberto Valente publicou no Facebook, numa “desgarrada” de poetas que por aí anda (que pena tenho que o António Russo Dias não ande a versejar os nossos dias), esta letra magnífica de fado. Não resisti a reproduzi-la, como farei a outras a que ache graça, para benefício dos utentes deste blogue que, nos últimos dias (alguma vantagem colateral terá o vírus!) ronda os 2000 leitores diários:
SEMPRE FADO
Já houve um fado operário,
anarquista, lutador,
que tinha como ideário
fustigar o opressor.
Já houve um fado calado
pela mordaça e pelo medo,
um fado no chão deitado,
de lamechice e putedo.
Com Marceneiro gritou,
com Maurício foi genica,
e até a Bica inventou
o tal Miúdo da Bica.
Mas veio Amália e depois
o fado foi outro fado,
passou a valer por dois,
já estava livre e curado.
Por isso já pôde rir
esse Homem na Cidade
que nunca deixou cair
a palavra liberdade.
E o fado do Camané,
da Aldina, de tantos, tantos?
O fado fica de pé
por mais que chorem os santos.
E mesmo nos tempos duros,
com quarentena e temor,
o fado ultrapassa muros
e ajuda a vencer a dor.
Por isso, gente, de pé!
Cantem alto, corações!
O Chico do Cachené
e a Rosinha dos Limões.
Manuel Alberto Valente
O Carlos Eurico e a pesca
Carlos Eurico da Costa, sucessiva ou simultaneamente, jornalista, poeta surrealista, publicitário
e gestor empresarial, morreu em 1998. Já por aqui falei dele, no passado.
O Carlos, que tinha a “qualidade” de ser meu primo direito, que acumulava com o privilégio que eu tinha de ser um seu grande amigo, era um caçador e um pescador de eleição.
À primeira das práticas, nunca teve coragem de sugerir que aderisse. No tocante à segunda, recordo uma jornada à beira-Tejo, algures a montante do Barreiro, nos anos 70, cujo insucesso, no que pessoalmente me toca, me permitiu ter um alibi para escapar a um vício que não tinha, assim podendo usufruir de uma imensidão de manhãs domingueiras na cama, nos anos desde então.
Sobre a primeira dessas artes, Carlos Eurico da Costa escreveu “A Caça em Portugal”, que quem disso sabe diz ser uma obra de referência. Sobre a pesca, não lhe conhecia nada escrito.
Até ontem, quando o seu filho Paulo me revelou um curto manuscrito em que o pai lhe dava dicas para pescar. É do tempo em que o Carlos tinha uma casa de fim de semana na Herdade do Pinheiro, a sul de Setúbal, por onde apareciam José Saramago, Cardoso Pires e “tutti quanti” de um mundo literário lisboeta onde se moveu desde sempre. É um texto quase poético, como o leitor avaliará:
“Paulo
É aquela ágil e também mental forma de pressentir onde está o peixe: o vento, a cor da água, o seu revoltear, a sensibilidade para pressentir onde está a presa. “Cheira-se” o vento, regarda-se a espuma das águas nas rochas, a sua transparência. E depois - é pelo instinto. Olhar sempre as núvens e nunca estar de costas para o mar, para a onda.
Agosto 89”
quarta-feira, março 25, 2020
Helpline
No início de abril, por várias razões, muitas famílias podem ver-se desmunidas de recursos para o básico do seu dia-a-dia, para alimentação e outras despesas básicas.
Não seria de criar uma “helpline” que permitisse às autoridades e às IPSS darem ajuda pontual de emergência?
Não seria de criar uma “helpline” que permitisse às autoridades e às IPSS darem ajuda pontual de emergência?
A certificação dessa necessidade poderia, com alguma facilidade, ser feita pelas Juntas de Freguesia. Uma ajuda em “cash” ou em espécie poderia ser dada a essas pessoas.
O excedente de ontem
É de saudar o excedente orçamental de 2019. Foi produto de um trabalho magnífico, de uma sábia gestão política e todos nos devemos congratular com o conseguido.
Mas permitam-me que, nestes dias que correm, me não apeteça comemorar muito. É que o que aí vem...
Dias difíceis
Penso no que deve ser a dificuldade da vida de pessoas que vivem em casas minúsculas, com a agitação dos filhos a perturbar o teletrabalho de alguns, o inevitável stress familiar provocado pelo confinamento e, muitas vezes, a angústia do seu futuro económico.
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