sexta-feira, fevereiro 07, 2020

Com que Europa?


Todos nos lembramos daquele período, após o colapso da União Soviética, durante o qual se criou, no mundo ocidental, a ilusão de que uma espécie de onda democrática se iria abater inevitavelmente sobre o planeta, num “template” de bem-estar, cooperação e respeito coletivo por uma ordem pactuada e dialogada. Era o “fim da História”, uma espécie de “amanhãs que cantam” liberais.

A ilusão foi breve, como são sempre todas as ilusões. A desaparição de alguns fatores constrangentes que a Guerra Fria tinha imposto ao mundo viria, afinal, a trazer ao de cima certas tensões abafadas, revelando feridas que não estavam fechadas, potenciando mesmo novos conflitos. Desde logo, no próprio continente europeu, como foi o caso da antiga Jugoslávia.

Por algum tempo, a Europa – ou quem falava em nome dela – achou que o seu projeto económico integrador, de inegável sucesso nos seus “trinta anos gloriosos”, estava à altura de todos esses desafios e podia finalmente transmutá-la, no novo circunstancialismo, numa potência política, não poupemos nas palavras, num grande poder mundial.

Acrescia que, do lado de lá do Atlântico estava um parceiro que, com ela, partilhava os mesmos valores civilizacionais, embora não deixasse de ser um forte concorrente económico. Mas a globalização, isto é, o capitalismo feito projeto mundial, aí estava para potenciar, quase sem limites de ambição, as vantagens da liberdade das trocas de tudo, numa fórmula em que “todos ganhavam” - desde o mundo desenvolvido àquele que procurava desenvolver-se. Além disso, surgia uma interessante janela de oportunidade estratégica: a Rússia estava em óbvia fragilidade, podendo mesmo ser objeto de alguma “cooptação” pontual e, lá longe, a China aparecia como um formidável mercado, cheio de oportunidades, com o ligeiro “senão” do seu intratável regime. Mas a Europa, e muito mais os EUA, já tinham dado amplas mostras de que, por “realpolitik”, os princípios não lhe atrapalhavam os negócios – das ditaduras petrolíferas do Golfo à África, da América Latina a alguma Ásia.

A ambição da Europa era legítima: aproveitar o declínio de Moscovo para fazer coincidir, cada vez mais, o seu projeto integrador com a sua geografia. Isso levou aos alargamentos – que se pensava irem ser uma espécie de “colonização” política do centro e leste do continente, mas que acabariam por ser, como quase todos os anteriores alargamentos tinham afinal sido, a importação de diversidades idiossincráticas que iriam influir na unidade funcional do projeto. E essa ambição fez mesmo caminhar os mais ousados para um aprofundamento com uma moeda comum no seu centro. Tocava-se assim já o “core” das soberanias e isso, para alguns, foi “a bridge too far”.

O mundo, contudo, não teve a gentileza de parar para deixar maturar o projeto europeu. Uma crise financeira mostrou as suas insuficiências estruturais, as vantagens distribuíam-se de forma não equilibrada, o gigantismo conduziu à emergência de crescentes clivagens internas. Medos vários, perceções diferentes sobre regras, vizinhanças próximas vistas de forma diversa, lutas pelo poder decisório, tudo isso abalou o projeto – o qual, repita-se, era magnífico. Enfim, nada de novo face a um passado, feito da prevalência de poderes nacionais, que alguns ingenuamente pensavam remetidos para o caixote do lixo da História, para usar a fórmula de Marx.

Com outros cenários a entrarem em convulsão, do Magreb ao Machrek, neste caso por evidente irresponsabilidade americana, com ondas terroristas, tensões migratórias, crises de refugiados e pulsões identitárias, a Europa acabou por ser fortemente sacudida. Um dia, Londres decidiu fazer o último dos “opt-outs” que sempre tinham deliciado os britânicos. Os EUA elegeram um líder que favorecia abertamente a desunião europeia, desprezava a aliança transatlântica e punha em causa o sistema multilateral. A Rússia torna-se mais agressiva e ameaça ser mais intrusiva. E, cereja no bolo da crise, as lideranças da França e Alemanha fragilizam-se. Com que Europa pode a Europa vir a contar?

quinta-feira, fevereiro 06, 2020

Copianço

O país dá-se conta de que prevalece por cá um jornalismo “encavalitado” nos seus pares, vivendo de “furos” ou títulos alheios, explorando o trabalho dos outros, num “copianço” mais do que descarado? Algumas televisões, então, passam o tempo a citar jornais e revistas. Trabalhem!

Governo

Tenho uma plena solidariedade com este governo, que apoio e ao qual desejo uma longa vida. Acho que António Costa é, a uma distância abissal, a pessoa melhor preparada para ser e continuar a ser primeiro-ministro deste país. Dito isto, que fique bem claro: não me coibirei nunca de dizer, aberta e frontalmente, o que em cada momento pense sobre os rumos da governação e a ação dos nossos governantes. Está entendido?

Caridade

No dia de hoje, vou praticar um ato de caridade: não vou falar sobre o texto da Joacine Katar Moreira àcerca do “mulherio”. Apenas notarei, como disse Miguel Lobo Antunes, que a senhora perdeu a cabeça e ainda a não encontrou

O peso das palavras

A ministra da Agricultura pode pensar, em tese, que a epidemia acabe por ter efeitos colaterais positivos na nossa economia. Mas a sensatez recomendaria que evitasse dizê-lo. É como se, perante um atentado terrorista em Espanha, alguém dissesse: “Mais turistas vêm para cá!”

O Luís e o Procópio


O Luís, o esteio do “Procópio”, fez 50 anos. Caramba, como o tempo passa! Ainda me recordo dele, recém-chegado do Értilas, há vinte e tal anos!

Como cliente já com algumas “diuturnidades”, posso testemunhar que o Luís foi das “coisas” boas que aconteceu ao meu bar de estimação. Sereno, simpático, educado, atento, impecável no serviço, tornou-se amigo de todos os que passámos pela “catedral” da “Sedonalice”. Há muitos anos que ele é uma das grandes referências daquela casa.

Um forte abraço de parabéns, Luís! Aos 50, a vida acaba de começar...

(roubo esta fotografia à Sofia, como “vingança” de me não terem chamado para a festa)

Blogue

Estou a começar a ficar preocupado: estou a ter um número crescente de visitantes diários aqui blogue. No passado, isto só me aconteceu quando a direita estava no poder...

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

OGE

A aprovação do OGE está a transformar-se num palco de negócios políticos obscenos, com toda a demagogia à solta. Rio teme dar parte de fraco, o CDS já não conta, o Bloco anda ressabiado e o PCP tinha fama de ser mais coerente. Os outros três “da vida airada” são apenas isso mesmo.

Retrump

Os democratas sabiam que a destituição de Trump era inviável, dada a relação de forças no Senado. Esperavam que o desgaste que o processo lhe iria provocar favorecesse uma candidatura forte do seu lado. Nada disso aconteceu e, agora, “o que não mata engorda”. Trump fica até 2025.

O jornalismo a que temos direito

Em alguma da nossa comunicação social, vivem-se tempos similares aos do “Diário”, o jornal do PCP: reduzida diversidade opinativa nas redações, ascensão dos “his master’s voice”. Às vezes, nem se trata de agendas políticas, mas de quem faz ganhar mais dinheiro, mesmo sem ética.

Saudades dos jornais

O tempo em que se dizia “se veio no jornal é porque é verdade” acabou. Os média já admitem que a pressão concorrencial os obriga a publicar de imediato o que recebem, nomeadamente das agências, com ou sem o cobarde “alegadamente”, sem “checkarem” a fiabilidade das notícias. Tempos tristes, estes.

O CDS e os cravos


Há uns anos, quando era embaixador em Paris, decidi comemorar o 25 de abril convidando para um almoço na embaixada os representantes dos partidos políticos portugueses em França. Ali tive pessoas do Bloco de Esquerda, do CDS, do PCP, do PS e do PSD. tudo pessoas com as quais tinha, aliás, uma excelente relação pessoal.

Os partidos políticos são a cara institucional da democracia. Não foi por acaso que a ditadura salazarista sempre diabolizou os partidos, como igualmente não é por acaso que o discurso populista que anda pelas redes sociais - quase sempre travestido de demagógica “indignação” - os tem por alvo constante. Os “bons espíritos” encontram-se sempre.

A homenagem que então quis prestar às forças partidárias representadas na Assembleia da República fazia-se na comemoração da data da liberdade.

À chegada à mesa, cada convidado tinha um cravo vermelho ao lado do seu lugar. O representante do CDS foi o único que recusou a flor. Impressionou-me o gesto de repúdio, mas aceitei-o. Embora eles não saibam, e nunca o possam entender, o 25 de abril também foi feito para aqueles que dele não gostam.

Os inglusos


Formam uma raça à parte, uma espécie de casta, embora pálida e sem turbante. Representam-se como o genérico lusitano de uma elite. Não se juntam muito entre si, porque são de tempos diferentes ou porque os feitios e os afetos os fizeram conflituar e, vá lá!, porque todos têm o individualismo como o único modo filosófico de vida que é “bem” adotar. Alguns já não vão para novos, outros assumem uma postura eterna de maduros, outros são velhos há muito, embora sem disso se terem dado conta. Todos, um dia, por qualquer razão, atravessaram a Mancha, graças aos cabedais da família ou à ajuda da Gulbenkian. Tal como Baptista Pereira chegava a nado às praias de Dover, as braçadas burocráticas deles levaram-nos até às ruas de Oxbridge. Nas bibliotecas da sabedoria, nos claustros dos “colleges” ou sob o fumo dos pubs cruzaram por ali nomes famosos. Que hoje citam, claro. Passarinharam por cursos que, por cá, nem se imaginavam, fizeram teses definitivas, que lhes adubam o currículo com que arrasam a concorrência. Começaram todos - mas todos! - na esquerda, a maioria vive hoje na esperança de que a direita os perdoe desse pecadilho pouco original, afadigando-se em contribuir para a sua instrução - com artigos, com livros ou apenas com dichotes, mais ou menos espirituosos. Ainda não se percebeu bem o que lhes irá acontecer com o Brexit. Às tantas, ficam apátridas. Nasceram em Portugal (ninguém é perfeito!), mas mantêm o coração nessa grã-ilha a que pertencem, por direito natural. Idealmente, a maternidade do St Antony's College seria o seu berço óbvio, mas têm de contentar-se com o facto de S. Sebastião da Pedreira figurar no seu Cartão de Cidadão. Alguns falam e vestem como acham que os ingleses devem falar e vestir. Quando atingidos pelos "blues" da vivência nesta "piolheira" que lhes caiu em rifa natal, à falta dos couros de Pall Mall, vão tomar chá à York House, pelas tardes pardacentas. Adoram Churchill e os Church's. Escrevem (às vezes, bem), bebem (alguns já tiveram melhores fígados) e todos resmungam (de preferência, por escrito) contra este país onde não há um "Spectator" capaz, este lugar que verdadeiramente os não merece - no que têm toda a razão: Portugal nada fez de mal ao mundo para ter de os aturar. São os inglusos. Não são nem ingleses nem lusos. São uma espécie de náufragos do autocarro, mas do tempo em que a Carris era britânica. Não passam de uns expatriados, não de cá, mas de lá. Era justo que Boris Johnson se preocupasse com eles.

terça-feira, fevereiro 04, 2020

Um CDS novo a cheirar a velho


Acaba de se demitir da direção do CDS uma figura que, além de abertos elogios a Salazar e à Pide, tinha escrito esta ”pérola” sobre o 25 de abril: “Era preciso uma Revolução? O país crescia mais de 6 pontos percentuais por ano, a guerra do Ultramar estava ganha, havia emprego e estabilidade, Portugal era reconhecido internacionalmente, tudo estava calmo!”.

A mesma criatura chamou também a Aristides Sousa Mendes “agiota de judeus”, ecoando a raiva que a ditadura tinha ao diplomata que, contrariando as ordens de Salazar, decidiu salvar a vida a milhares de refugiados que procuravam fugir da França, sob o terror alemão.

Longe de mim negar a quem quer que seja o direito a ter aquelas ideias. Foi para isso que se fez o 25 de abril... aliás, contra a vontade dessa mesma gente! Mas um partido que se afirma democrático não pode ter, na sua direção de topo, uma figura daquele jaez. Ou, se a mantém, autoqualifica-se por simbiose.

Ora o CDS, o “novo” CDS, procurou até ao fim proteger politicamente aquele seu dirigente, claramente com o “olho” no eleitorado que pensa da mesma forma que aquela figura. Fica a suspeita, bem fundamentada, de que pretende concorrer no mesmo “mercado” político do Chega.

Com este incidente, o “novo” CDS ficou muito mal na fotografia. Se, ao ser confrontada com o conjunto de afirmações do tal cavalheiro, a direção (ia a escrever “centrista”, mas tive receio de que considerassem isso um insulto!) o tivesse logo posto com dono, teria dado um sinal de aberto repúdio face àquele tipo de posições. Pelo contrário, ao ser apenas “empurrada” pelo escândalo público instalado, procurando mesmo confortar a retirada da figura, deu a ideia de que, afinal, podia viver bem com ela na direção - não fora a circunstância do assunto ter tido a amplitude que teve.

Fica assim provado que o “jeunisme”, em si mesmo, não é uma qualidade, mas apenas uma deriva de sectarismo etário. E quando a isso se soma uma visível misoginia, disfarçada de opção por uma melhor “adequação” às funções, tudo fica ainda pior.

segunda-feira, fevereiro 03, 2020

O carregador de bananas


“Só vou levar pão. Não preciso de cesto”. Comprar pão era a única tarefa da qual tinha sido encarregado por quem manda nestas coisas, lá por casa. Saco pequeno na mão, lá fui eu, corredores adiante, mas de olho guloso nas prateleiras. “Olha que belo shampoo em promoção!” Dava para segurar, mesmo sem cesto! Andei mais um pouco por ali. “E bananas? Ainda haverá, lá em casa? Pelo sim, pelo não...”. Coloquei-as junto ao peito. Estava quase a chegar à caixa, quando vi uma garrafa de “Rola” e pensei: “Este tinto vai lindamente com as alheiras do almoço!” 

E foi assim que fiquei na fila, uns minutos que pareceram imensos, atulhado de coisas que repousavam sobre mim, tudo já num equilíbrio mais do que duvidoso, com as mãos a abarrotar, sem um dedo livre para sequer poder vir a colocar a placa do “Próximo cliente”, depois da tralha da anterior cliente que, como todas as anteriores clientes, nos parece sempre levarem meia loja com elas, não se despachando como deviam.

Algumas senhoras da fila olhavam-me com uma ironia pouco discreta, num leve sorriso piedoso, a pensarem, lá para elas: “Este vem pouco ao Pingo Doce!” (Nem elas sabem da minha missa a metade!).

Foi então que aquele meu conhecido se aproximou. É um vizinho do bairro, reformado, figura que foi histórica nos meios ultra-conservadores lusitanos. Disse-me, com voz que se ouviu por ali: “Há uma teoria segundo a qual os homens são os mais renitentes a usar os cestos nos supermercados”. Ele ia de cesto, claro. Ainda pensei explicar os apelos consumistas cumulativos que me tinham conduzido àquela ridícula figura. Mas era tarde! Ali estava eu, a imagem viva a confirmar a sábia doutrina empírica!

Leões


Um verdadeiro sportinguista não leva a sério o facto de ontem ter perdido aquilo a que alguns chamam o terceiro lugar. O terceiro lugar não é coisa que nos incomode. O Sporting está bem acima disso. Os tempos não nos correm de feição? O Sporting tem todo o tempo do mundo à sua frente. Os clubes eternos são diferentes dos outros! Esses outros não percebem? Claro que não! Por isso é que essa gente não é do Sporting! E ainda bem!

domingo, fevereiro 02, 2020

Tolos

 
Estacionei o carro (Aleluia! Havia um lugar!), peguei no Ipad e no livro com fitinha elástica da Moleskine e dirigi-me ao escritório da empresa onde ia ter uma reunião. Esperavam-me, pelo menos, três horas de trabalho. Estava exatamente em cima da hora. Era raro acontecer-me ser tão pontual!

Foi a meio da tarde da passada sexta-feira. Perguntei pelo “dono” da casa. A simpática jovem da receção disse-me duas coisas, definitivas: que ele não estava e que não havia nenhuma reunião prevista.

Fui então à minha agenda eletrónica. Tinha-me distraído. De facto, a reunião era só na próxima semana. A data daquela sexta-feira tinha sido uma espécie de pré-reserva que eu tinha anotado, mas que não fora necessário utilizar e que eu me esquecera de “deletar”, como dizem os brasileiros. Erro meu! Má fortuna? Nem por isso!

Um imenso banho de felicidade caiu sobre mim. Ali estava eu, sem ter nada para fazer, com três horas livres à minha frente - rigorosamente livres! Três horas sem tarefas para cumprir eram uma vida! Feliz!

A menina que me atendia ficou estupefacta. Em lugar da minha reação ser de expectável aborrecimento, pelo trabalho que tinha tido de me deslocar até ali, de constatar que me tinha enganado e, por isso, de ter de mudar de planos, afinal, eu, pelo contrário, exibia um sorriso rasgado. Deve ter achado bem estranho!

Senti-me na obrigação de lhe dizer: “Perceba que acabo de conseguir ter três horas livres na minha vida, que as vou aproveitar para ir a lojas, comprar livros, beber um copo ou sentar-me num café a ler, sem pressas, um jornal ou uma revista“.

Ela olhava-me, um pouco incrédula perante a minha alegria, tentando interpretar se eu não estaria, afinal, a “fazer um número”. E, em desespero de convição, tentou atenuá-la: “Mas está a chover!” 

A jovem não me conhecia. Avancei então com um argumento de sabedoria, tributário da idade: “Nunca experimentou o prazer que é, com uma chuva miúda como a que por aí está, num dia como o de hoje, sem frio e sem vento, fazer um passeio sereno a pé, sem pressas, a apreciar o brilho giro que a chuva dá às ruas, ao cair da noite, juntamente com o “barulho” das luzes dos carros e das montras? Faça um dia isso e verá que não se vai arrepender!”

Olhei-a nos olhos e, mesmo assim, fiquei sem saber se ela tinha percebido. Infelizmente, acho que não. E imaginei que, dela para ela, deve ter dito: “Se calhar é por causa de tipos como este, que, pelos vistos, gostam de apanhar desta chuva, que chamam a isto “chuva de molhar tolos” “.

Blogues & ofícios correlativos


Entre nós, creio que os blogues entraram verdadeiramente “na moda” na viragem do século. Tratava-se de uma nova plataforma de escrita, que federava amigos e gente interessada no que os outros escreviam, estimulando o comentário e o debate. Tinha a vantagem de poder tornar-se graficamente atrativa, mesmo para os não iniciados nas artes informáticas.

Muita gente surgiu então pelos blogues: intelectuais, escritores, um mundo de pessoas anónimas. Nomes da imprensa apareceram a escrever em blogues, às vezes num registo de Dr. Jeckyll and Mr. Hyde. Outros, pouco conhecidos, viriam a criar aí a sua imagem, e a imprensa viria, posteriormente, a “apanhá-los”. Os blogues foram uma curiosa montra de talentos. A boa escrita de muitas pessoas só me foi acessível graças a eles.

Em Portugal, uma certa opinião de direita, mais radical e liberal, então menos opinativa na imprensa, encontrou o seu espaço no que então se convencionou chamar a “blogosfera”. Muitas figuras do neoconservadorismo partiram dos blogues. Alguns foram mesmo dos blogues para governos. Mas também a esquerda não desprezou a plataforma, longe disso. Verdade seja que os blogues e o seu estilo tiveram então muito a ver com os ciclos políticos e, em alguns casos, tornaram-se interessantes trincheiras da luta partidária: cáusticos, duros, até cruéis. Como os tempos impunham.

Chegou a haver bastantes blogues coletivos, com gente mais ou menos conhecida. Hoje restam poucos. Neles foi interessante observar os “desistentes”, muitas vezes cooptados para funções menos compatíveis com a continuidade naquele tipo de escrita. Ficaram os “resistentes”, algumas almas saudavelmente persistentes, empunhando com teimosia a bandeira.

E, claro, pulularam os blogues individuais, feitos para “solitários”, para quem não quer qualquer confusão com a escrita alheia ou se sente menos cómodo ao ver-se publicado ao lado de quem tem ideias em que se não revê. Conheço alguns! Muitos desses espaços individuais de escrita foram entretanto fenecendo: escrever para si próprio é escassamente estimulante...

Falando apenas de Portugal, acho legítimo concluir que chegou a haver por cá blogues de grande qualidade, alguns tendo dado mesmo origem a livros. E, para ser justo, ainda há por aí blogues bem interessantes, embora não muitos.

Há, porém, uma realidade, que é preciso assumir sem reticências: os blogues passaram de moda. Já ninguém fala nos blogues. E tempos houve em que os próprios jornais, recordam-se?, os citavam. Há uns anos, começava o meu dia pela consulta do que vinha publicado nos meus blogues favoritos. Hoje, passam-se dias em que não visito nenhum blogue, revendo alguns, e muito poucos, quase por atacado, aos fins de semana.

O mundo dos blogues mudou, entretanto, de natureza. Chama-se hoje blogue àquilo que mais não é do que uma montra de produtos comerciais, em lugar de ser uma montra de escrita. Se falarmos da palavra “bloguista” em certos meios, vêm logo à baila as divulgadoras de roupa ou acessórios, promovedoras de conselhos maternais, receitas culinárias e coisas assim. Mulheres, na maioria dos casos. Foi esta a evolução da blogosfera. 

Termino fazendo notar que resistem alguns blogues do passado - uns bons, outros maus, outros péssimos. A maioria dos que ficaram são apenas fonte de opinião, outros são puras tribunas de “fake news”, outros ainda são espaços de insídia e “vendetta”. Há blogues serenos, da mesma forma que há blogues excitados. Há blogues bem escritos, como há blogues escritos com os pés. Há por aqui de tudo, como na farmácia...

11 anos


Olhei há pouco para a data e era isso mesmo: 2 de fevereiro. Foi nesta data, em 2009, há precisamente 11 anos, que iniciei a escrita deste blogue. Fui agora ver as estatísticas. Mais de 4000 dias, nenhum dia sem publicar, pelo menos, um post. Foram mais de 7500 publicações, que originaram mais de 60 mil comentários, cerca de seis milhões e 500 mil visitas, oriundas de 185 países, numa média diária de leitores que hoje anda pelos 1400, dos quais 967 seguidores que recebem os posts à medida que são publicados. Até ver, vamos andando...

Arrependidos


O conceito de “arrependidos” tem várias conotações, algumas aceitáveis, outras à margem da decência. É destes últimos que quero falar.

Aqueles que, entre nós, tinham a idade de todas as aventuras ao tempo do 25 de abril frequentaram, por essa altura, algumas das “capelinhas” radicais em que, à época, a sociedade política se fraturou. A maioria era à esquerda, mas a direita teve também as suas.

O radicalismo de direita, do MDLP ao ELP, que eu desse conta, não trouxe ninguém para a esquerda. Quando muito, essas pessoas moderaram os seus “azeites” e passaram para o CDS ou para o PSD, e parece que ainda os há lá pelo Chega.

À esquerda, as coisas foram diferentes. Alguma gente que andou pelo extremismo dos tempos aúreos da Revolução distribuiu-se por diversos destinos.

Uma parte, parece que maioritária, ingressou na esquerda moderada, com o PS a ser a “casa” de acolhimento mais comum. (Sei do que falo).

Ao PCP, que nem faz parte da esquerda que aqui cuido em caricaturar, só “regressou” quem já lá estava ou, por algum tempo, se fazia de “amigo” no MDP-CDE.

Outros, menos complacentes, recusando-se a enterrar com facilidade a rebeldia que os cabelos brancos lhes aconselhava, tributários do maoísmo, do trotskismo ou saídos do PCP por via crítica, juntamente com alguns “vencidos do catolicismo”, com um certo “pintasilguismo” à mistura, acharam graça à ideia de andar pelo Bloco ou pelas suas franjas. Um amigo meu chama-lhes os “velhoquistas”.

Muita outra dessa gente dos “anos da brasa”, deixou-se de políticas e foi à sua vida, com o voto à esquerda como destino regular mais normal, embora com respeitáveis exceções.

Ah! Ninguém, de toda essa gente de quem aqui falo, tem hoje menos de 60 anos, note-se!

Houve também um número considerável de pessoas oriundas do extremismo de esquerda desses dias que decidiu seguir o caminho da direita. Quase todos, no entanto, eram militantes depois de abril, onde a luta contra o PCP lhes marcou fortemente os genes politicos. Nada a dizer dessa opção. A democracia é isso mesmo e a mudança de ideias, desde que feita por convicção e com sinceridade, é extremamente respeitável. Ver hoje pessoas saídas de grupos radicais dos tempos “de Abril” no PSD e até no CDS não me choca rigorosamente nada. Há-os bem estimáveis, tenho amigos entre eles!

Mas então, perguntará o leitor, a que propósito vem este texto e, em especial, o seu título? É que eu quero distinguir quem, com naturalidade, transitou para a direita democrática, mais ou menos conservadora ou liberal, e aquele núcleo de figuras que, não apenas fizeram essa deriva, mas que hoje se abespinham num novo e ácido radicalismo, numa fúria escrita ou vocal constante contra toda a esquerda, desde logo contra aquela onde empenhadamente começaram o seu percurso político ou a que evoluiu para registos mais moderados, nomeadamente na área socialista.

Esses são os tais “arrependidos”! Eles falam hoje da esquerda, em cujas catacumbas radicais estiveram e prosperaram nesse tempo, com uma espécie de assumido asco, com a falta de pudor com que um divorciado revela segredos de alcova de quem com ele se deitou. São cáusticos para com os antigos amigos que os não seguiram, têm o zelo feroz dos recém-convertidos, são os cristãos-novos do conservadorismo radical. Alguns tentam passar mesmo o rubicão filosófico, adotam, com fervor, os clássicos que em tempos zurziram, ficam extasiados perante os novoS “amanhãs que cantam” (agora os do liberalismo), bebem à pressa (é que eles já não vão para novos...) os teóricos que fazem as delícias de algumas “business schools” e da filosofia política que se ensina onde nós sabemos, amen!

Com o PSD caído nas mãos de Rio, com Passos Coelho em casa, com Marcelo imprestável para o seu projeto, com a “troika” que era a sua esperança posta com dono, com as agências de “rating” a parecerem ”feitas” com a Geringonça, com o diabo atrasado e Bruxelas a sorrir ao país, esses “arrependidos”, angustiados e deserdados do futuro, hoje mergulhados, de forma melancólica, em “blues” de alma que lhes atazanam o sono, estão agora a aproximar-se, ainda a medo, do que lhes chega do Chega, mas ainda não se decidiram se vale a pena ou não investir no Chicão.

Eles vão observando. Nós vamos topando-os.

Carol

Era uma senhora alta, com pouco mais de 60 anos, de uma beleza que se percebia ter sido esplendorosa e uns olhos verdes sem idade. Conheci-a...