sexta-feira, setembro 20, 2013

Arquiteturas

Abri ontem o "Le Monde" e dei de caras com um título: "Lisboa, sim! Mas não para a Trienal de Arquitetura". O jornal francês lançava um forte ataque ao evento em curso na capital portuguesa, cujos organizadores são acusados de "preguiça maximalista e lúdica", da qual terá resultado uma mostra "pretensiosa e naïf". Tomei nota, mas não tenho a menor opinião sobre se o "Le Monde" tem ou não razão.

O artigo não deixa de notar que Portugal continua a ser um dos raros países do mundo que tem dois arquitetos a quem foi atribuído o equivalente ao prémio Nobel da Arquitetura, o prémio Pritzker: Siza Vieira e Souto Moura. (Por curiosa coincidência, vou participar hoje num almoço de trabalho destinado a lançar uma iniciativa que tem como objetivo reforçar o reconhecimento internacional da nossa arquitetura).

Voltando ao texto do "Le Monde", registe-se o retrato cruel, mas infelizmente verdadeiro, que o jornalista produz sobre a Lisboa de hoje: "uma multidão de sem-abrigo, uma miríade de estabelecimentos comerciais fechados, obras suspensas ou quase um pouco por todo o lado e uma impressionante série de imóveis com janelas fechados ou quebradas, deixadas ao abandono, arruinadas". Não obstante, o jornalista estimula a que se visite Lisboa, dando sinais de clara solidariedade com um país em crise. Só faltou falar deste sol magnífico, que nem a crise nos tira!

quinta-feira, setembro 19, 2013

Políticos e diplomatas (2)

O X Curso de Verão do IPRI, que ontem se concluiu em Óbidos, coincidiu com um interessante levantamento sobre a carreira diplomática portuguesa, bem como sobre as figuras políticas que, ao longo dos tempos, titularam lugares governativos no MNE.

Na intervenção que fiz, e que encerrou os trabalhos do curso, dei conta da minha perspetiva sobre as mudanças que o 25 de abril trouxe à nossa carreira diplomática, quer em termos de recursos humanos e da extensão da rede diplomática, quer quanto aos novos desafios suscitados pelo processo de democratização e por uma decorrente maior aceitação política internacional do país. Dei também destaque às mutações induzidas pela integração europeia e à nova cultura de trabalho multilateral. Mas, muito em especial, notei as virtualidades da expressiva continuidade das grandes linhas da política externa portuguesa e da importância de um país como Portugal dever projetar uma imagem "previsível" perante os seus interlocutores internacionais. E falei, com algum detalhe, da relação entre os políticos e diplomatas.

Crónica do défice

Por uns dias, volta a descer à cidade o circo da "troika". Tudo começa com as entradas e saídas apressadas dos automóveis, com os estagiários de imprensa, de "corneto" em punho, a gaguejarem umas perguntas em inglês a uns cavalheiros graves (já era tempo de escolherem uma senhora!) que eles estão desertos de saber que lhes não lhes dirão um simples "bom dia". Depois, segue-se aquele patético "perp walk" pelos corredores de S. Bento, até chegarem à cena com a presidente do parlamento (cá por coisas, adorava ser mosca nesta cena) e, minutos mais tarde, a reunião com a "balcanizada" comissão parlamentar de acompanhamento, de onde presumo que os homens devam sair mais confusos do que entraram. Há também a clássica ida ao Rato, onde o PS, seguramente, lhes repetirá aquilo que o seu secretário-geral já disse publicamente. Fecha esta primeira parte o encontro com a "concertação social", num ritual à volta de uma imensa mesa, que tudo indica ser um mero pretexto para uns minutos de antena de patrões e sindicatos à saída. 
 
Como toda a gente sabe, nas reuniões que acima referi não se passa realmente nada de importante, tanto mais que as posições de todas essas partes são já sobejamente conhecidas. Por isso, obviamente que o que interessa à "troika" são os encontros técnicos no ministério das Finanças (ou agora serão nas Laranjeiras?), onde o governo lhes dirá o que pôde ou não implementar, daquilo a que se comprometeu, desde a última avaliação.
 
Só que, desta vez, há, de facto, alguma coisa de verdadeiramente novo. O vice-primeiro ministro, que tem oficialmente a seu cargo o controlo político das negociações, deixou claro no parlamento, em coerência com o que sempre disse, que pretende explorar a possibilidade de vir a ser aceite um défice de 4,5% do PIB, provavelmente com vista a poder aligeirar o peso de algumas medidas de austeridade que se avizinham. Nessa posição de flexibilização, viria a ser acompanhado por um novo e importante ministro do seu partido. Logo de seguida, porém, a ministra das Finanças, num comentário em cenário báltico, não se desviando um milímetro das (antigas) orientações do seu antecessor e numa irrecusável coerência com o que ela própria sempre afirmou, veio dizer, de imediato respaldada pelo chefe do governo, que não passa de "ruído" a ideia de flexibilizar a meta de 4%, que está acordada para este ano, esclarecendo, mais tarde, que, se isso viesse a acontecer, apenas conduziria o país a ter mais défice para pagar. Porém, logo de seguida, o principal responsável, fora do governo, do partido que dirige o executivo, surgiu a acusar o FMI de "hipocrisia institucional", ao não aceitar alterar as metas do défice, embora reconheça em estudos a ineficácia do modelo de ajustamento. Mas, afinal, em que ficamos? Qual é a posição oficial portuguesa? Queremos ou não uma meta para o défice menos constrangente do que a que está prevista?  
 
Se há uma coisa consensual na vida diplomática, por um mero raciocínio de bom senso, é o facto da imagem de um país se fragilizar, de imediato, quando, perante um qualquer interesse nacional a defender na ordem externa, se deteta uma não coincidência entre as posições oficiais que surgem publicamente expressas. Neste caso, os mercados, nos juros e na atitude de uma agência de "rating", já deram sinais de lerem esta cacofonia como produto da reemergência de divisões internas no seio da maioria. Será mesmo assim? Estaremos a caminho de um "remake"? 

quarta-feira, setembro 18, 2013

Políticos e diplomatas

Hoje à tarde, em Óbidos, falarei sobre a minha experiência como diplomata que, por mais de cinco anos, desempenhou funções políticas. O Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), pela mão do seu diretor, professor Nuno Severiano Teixeira, realiza ali o seu curso de verão, desta vez intitulado "Políticos e diplomatas: quem são as elites portuguesas que fazem a Política externa".

Tenho imensa pena de não ter podido aceitar o convite para estar presente nos três dias deste interessante curso. Porém, esta é uma semana bastante complicada, em termos de agenda.

Na segunda-feira, num contexto empresarial, fui falar sobre os grandes desafios geopolíticos da atualidade. Na terça feira, estive presente numa mesa redonda, no domínio da Segurança e Defesa, sobre gestão de crises e missões da União europeia. Nesta quarta-feira, estarei em Óbidos, no já referido curso de verão do IPRI. Na quinta-feira, num enquadramento bem diferente, intervirei sobre a crise do euro e as perspetivas da economia europeia. Na sexta-feira, na Culturgest, discutirei, com o deputado europeu Rui Tavares, as perspetivas da União Política na Europa. E, no fim de semana, rumarei a Málaga, para abordar questões de cidadania europeia, a convite de uma iniciativa universitária internacional.

Quem corre por gosto não deve cansar-se. Como diria um velho amigo vilarealense: digo eu, não sei!

terça-feira, setembro 17, 2013

Nunca!

A resposta daquele contínuo, frente ao responso que o acusava de ter sido ele o responsável por uma qualquer ação menos adequada, ficou histórica:

- Ó senhor embaixador, não é verdade! Nunca fiz isso, nem volto a fazer...

Diligência útil


Foi no final dos anos 70 do século passado. Portugal não tinha uma embaixada naquele país. Aquele ministro português, de uma área técnica, quis ter um encontro com o seu homólogo local, de cujo departamento dependia um importante contrato de uma empresa nacional do seu setor. O encontro foi marcado, à margem do nosso Ministério dos Negócios estrangeiros, através de uma representação diplomática desse país num terceiro Estado, numa espécie de "diplomacia paralela", estimulada pela empresa e decidida pelo estilo "operacional" do governante.

Um forte contencioso tinha-se instalado entre a empresa e aquele Estado, por virtude de um atraso de pagamentos. O país era distante, a viagem fora longa, mas a importância do assunto justificava, no entender do ministro, o esforço e a diligência política. Porém, porque não havia a menor garantia de sucesso, optou-se por não noticiar a deslocação. O ministro chegara nessa madrugada e partiria ao final do dia.

O nosso governante tinha a "lição" bem estudada. Preparara a sua argumentação com cuidado. Na conversa com o seu colega, fez uma longa explicitação das nossas razões e, para atenuar o peso das reivindicações feitas, deixou algumas pistas, articuladas com a empresa, no sentido de promover um faseamento dos valores atrasados.

O ministro estrangeiro ouviu-o, em silêncio. No fim, comentou:

- Agradeço muito a sua visita. Este é, de facto, um assunto complexo, um de entre muitos que, não obstante os esforços que fiz, não consegui resolver. Tenho pena de não ter podido ir mais longe. Mas não posso fazer mais nada. Aliás, seria incorreto da minha parte ter agora qualquer intervenção na matéria, como compreenderá.

O nosso ministro, algo estupefacto, disse que não, que não compreendia. Por que diabo não podia ele intervir?

- Como é do conhecimento público e veio inclusivamente publicado na imprensa, pedi a demissão do cargo há cerca de 15 dias. Estou à espera,  todo o momento, de ser substituído. Espero que possa passar por cá num outro dia e falar com a pessoa que me vier a suceder no cargo.

Às vezes, vale a pena ter embaixadas pelo mundo. Evitam coisas destas.

segunda-feira, setembro 16, 2013

Bombeiros

Portugal vive, por estes dias, um tempo de rara solidariedade com os seus bombeiros. A chocante morte de muitos bombeiros, ocorrida neste verão, trouxe à ribalta conjuntural uma atividade que damos sempre por adquirida, em caso de necessidade, mas que, quase sempre, não valorizamos suficientemente.

Sendo uma atividade muito antiga, vale a pena lembrar que, a partir do século XIX, a participação nas corporações de bombeiros voluntários correspondia a uma espécie de prestação de contribuição à sociedade, assumida por filhos da pequena burguesia urbana, em especial por comerciantes e empregados de escritório. Ser bombeiro voluntário era algo que se afirmava com orgulho e que até qualificava socialmente as famílias. Recordo-me bem de ver, em muitas lojas, em vilas e cidades do norte do país, pendurados nas paredes, capacetes de bombeiros, testemunhando a qualidade de membro de uma corporação do proprietário da casa. Com os anos e a necessidade de mais quadros, bem como de uma crescente especialização, a atividade tornou-se mais popular, profissionalizou-se em parte e passou até a abranger outras funções, para além do tradicional combate a fogos. Mas, em muitas localidades, ser bombeiro continua a ser uma tarefa rodeada de uma aura de dignidade funcional.

Ontem, ao observar na televisão a campanha de recolha de fundos para os bombeiros portugueses, não pude deixar de recordar a ligação emocional que a cidade de Nova Iorque criou com os seus bombeiros, na sequência da tragédia em 11 de setembro de 2001. Muitos bombeiros morreram então nas "twin towers" quando, com uma imensa coragem, subiram pelas torres, para tentar travar o fogo, antes de serem apanhados pelo colapso dos edifícios. Nos tempos seguintes, os bombeiros novaiorquinos viriam a ser admirados como nunca, sendo frequente ver, pelas ruas, os cidadãos baterem palmas à sua passagem. Ainda hoje, eles continuam a ser "heróis" na memória da cidade.

A maior homenagem que os portugueses poderiam fazer aos seus bombeiros seria não se lembrarem deles apenas no verão. Seria levarem a cabo, no primeiro semestre de cada ano, as necessárias ações de prevenção nas zonas de maior risco, evitando que, alguns meses mais tarde, novas vítimas venham a lamentar-se. Mas, como sempre aconteceu, assim que chegadas as primeiras chuvas, esta memória emocionada vai, de imediato, esvair-se. E, tal como nos anos anteriores, e sob a complacência culposa dos municípios, que deveriam forçar à responsabilização dos proprietários das habitações e terrenos, tudo acabará por voltar ao mesmo. Enfim, é apenas o nosso fado.

domingo, setembro 15, 2013

Ainda a Europa

A reflexão que a fundação Francisco Manuel dos Santos promoveu, durante dois dias, sobre o papel de Portugal na Europa, ouvindo algumas vozes estrangeiras autorizadas e auscultando o parecer de personalidades portuguesas ligadas ao tema, constituiu um exercício muito interessante e, acima de tudo, extremamente construtivo. Salvo casos desgarrados, os intervenientes dentre os cerca de 1300 participantes colocaram questões muito pertinentes e deram voz concreta a muitas das preocupações que, sobre o projeto europeu, hoje atravessam a sociedade portuguesa.

A questão do euro - dos seus efeitos, do seu futuro e do papel de Portugal no seu seio - esteve sempre presente, de uma forma muitas vezes angustiada, ao longo do debate. Como o estiveram as indecisões em torno da situação europeia, as dúvidas sobre a "vontade" alemã para lhes fazer face e, em todo esse contexto, a atitude que Portugal pode ou deve assumir no plano externo.

Gostei, francamente, de me sentir algo "isolado" na conferência. Descontando alguns nomes mais conhecidos, notou-se que o debate europeu em Portugal mudou já de mãos, para uma nova geração, sem tabus, disposta a confontar ideias feitas, talvez já menos idealista mas bastante mais pragmática e objetiva nas suas escolhas e opções de futuro. Foram poucas as pessoas conhecidas que cruzei no auditório, o que é uma realidade magnífica, porque dá conta de que um outro país começa a apropriar-se desta discussão ou a interessar-se por ela. E foi muito bom testemunhar a qualidade por detrás de muitos comentários e questões colocadas, por vezes num excelente inglês, com observações francas e uma fundamentação sólida.

Não posso deixar de registar, por fim, uma nota de admiração e apreço ao trabalho excelente de Marina Costa Lobo, que orientou o "desenho" de todo o exercício, bem como à equipa logística que fez o "milagre" de conseguir respeitar a pontualidade e a observância estrita da agenda. Também por aqui se prova a "integração" europeia de Portugal.

Em tempo: logo que possível, farei por aqui um link para o teor da minha (pelos vistos, tida como polémica) intervenção neste debate.

sábado, setembro 14, 2013

Wolfgang Münchau

O influente colunista do "Financial Times", Wolfgang Münchau, foi uma das personalidades estrangeiras que, nestes dois dias, interveio no congresso "Presente no Futuro". Sendo alemão, um analista perspicaz e havendo a convicção de que "bebe do fino", sobre ele recaíram várias perguntas sobre o que  pode acontecer às orientações da política económico-financeira europeia em função dos resultados das próximas eleições legislativas alemãs.

Münchau foi muito prudente, defendendo basicamente a ideia de que, qualquer que seja o resultado desse sufrágio, um futuro governo alemão dificilmente se afastará de uma opinião pública nacional, aliás partilhada pela de outros "like-minded countries", que se mostra muito relutante em flexibilizar a sua visão de que não pode vir a pagar os erros dos outros, por muito simplista e caricatural que esta perspetiva possa ser.

A uma pergunta que lhe coloquei, sobre se, pelo menos, a realização das eleições alemãs não poria fim a este "atentismo" em que temos vivido, dando-nos uma maior previsibilidade para os tempos futuros imediatos, Münchau comentou que esse sentimento de "dependência" face à decisão alemã era de tal ordem que tinha surgido na net a anedota de um miúdo alemão que, ai dizer ao pai que ia à casa de banho, teve a seguinte reação do progenitor: "só depois das eleições alemãs!"

Discutir a Europa


Hoje, segundo dia do Congresso "Presente no futuro", continuamos a discutir a Europa, no liceu Pedro Nunes, numa organização da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Entro em campo, daqui a horas, numa mesa redonda moderada pelo diretor da SIC-Notícias, António José Teixeira, com a professora Catherine Moury e o meu colega e diretor-geral dos Assuntos europeus, Francisco Duarte Lopes.

Cabe-nos debater o modo como somos representados na União Europeia, o que implica falar do poder que hoje temos (ou não) e daquilo que o pode determinar ou condicionar.

Uma advertência: as entradas para o Congresso estão esgotadas.

Em tempo: e por lá, entre outras coisas, disse isto.

sexta-feira, setembro 13, 2013

Regresso aos mercados

Não se esqueçam! Este é o mês do regresso aos mercados!

Natália Correia

Artur Bual
Hoje, se fosse viva, Natália Correia faria 90 anos. Às vezes, ouço dizer de alguém que é uma pessoa "intensa". Não conheci muito bem Natália Correia (sobre quem ontem vi que foi publicado um livro de Fernando Dacosta), mas, pelo que acompanhei da sua vida e perfil humano, acho que o epíteto se lhe aplica muito bem.

Conheci-a pessoalmente, uma noite, no final dos anos sessenta, num bar, situado numa cave, perto do mercado de Campo de Ourique, julgo que frente à igreja, um local que nunca mais consegui localizar. Nele tocava então Denis Cintra, filho de Lindley Cintra, no tempo em que as baladas "de protesto" estavam na moda. Natália entrou, com Ary dos Santos e um pequeno séquito, juntando-se à nossa mesa, onde havia amigos comuns, por pouco mais de uma hora, partindo depois para outras noites.

Anos mais tarde, já pós-abril, voltei a falar com ela algumas (muito poucas) vezes no Botequim, o bar na Graça de que era proprietária e que se tornou num dos locais icónicos para a classe política da época. Basta dizer que foi Natália Correia quem apresentou Snu Abecasis a Sá Carneiro, de quem se tornaria feroz apaniguada, o que a levou a uma passagem pelo parlamento, que abalou com a sua verbe e a sua graça.

Não sou um fã da sua escrita, como o não fui das suas opções políticas, mas reconheço-lhe uma "intensidade" única e uma presença ímpar na sociedade portuguesa, onde sempre dizia em voz bem alta o que pensava. É um lugar comum, mas apetece-me dizer que fazem-nos hoje falta figuras como Natália Correia. Quase que imagino o que ela por aí hoje diria...

quinta-feira, setembro 12, 2013

Nós e a França

Ontem à noite, na embaixada de França em Lisboa, na despedida do embaixador Pascal Teixeira da Silva e da sua mulher, no termo de três anos da sua bem sucedida missão em Portugal, lembrei-me, de súbito, do meu pai.
 
O embaixador Teixeira da Silva, na sua orgulhosa ascendência portuguesa, representa bem o êxito da integração da diáspora nacional em França. Tal como o meu amigo Ruben Alves, que também encontrei por lá e a quem ficamos a dever esse magnífico filme testemunho que dá pelo nome de "Gaiola Dourada". Ambos, e muitos e muitos mais, contribuem hoje para o laço que eternamente nos une à França.
 
Por que razão me lembrei do meu pai, para além das óbvias razões pessoais que me levam a nunca o esquecer? Não que ele alguma vez tenha entrado no belo palácio de Santos, mas porque, à sua modesta medida, fez o que pôde para promover entre nós a língua francesa. Durante mais de vinte anos, a filhos de familiares e amigos, sem nunca cobrar um cêntimo, o meu pai deu aulas de francês, apenas e só porque era um devoto da língua de Voltaire e entendia, tal como eu acho e Thomas Jefferson disse um dia: "Tout homme a deux patries: la sienne et la France".

quarta-feira, setembro 11, 2013

Santiago

 
Foi há 40 anos. Dia por dia. Ao final da tarde de 11 de setembro de 1973, um pequeno grupo de soldados-cadete, de "Ação Psicológica" e "Licenciados em Direito", da Escola Prática de Administração Militar, ao Lumiar, fazia formatura para sair da unidade.
 
Um dos cadetes, hoje figura pública, disse: "Já sabem as novidades do Chile? O Allende está prestes a ser derrubado por um golpe de estado militar. Convido todos a virem beber uma taça de champanhe a minha casa. Temos de comemorar!"
 
A maioria do grupo era extremamente conservadora e, se bem me lembro, exultou com a notícia. O António Franco, o Miguel Lobo Antunes e eu (e creio que mais ninguém) rugimos algumas imprecações, reagindo para provocar os colegas "fachos".
 
Até que o António se saiu com esta: "Vocês estão é com sorte. Já entreguei no armeiro a minha G3..."

Eleições na Noruega

Há dois dias, a direita regressou ao poder na Noruega. Neste caso, o qualificativo "direita", não sofre contestação: o partido que indicará o novo chefe do governo chama-se "Høyre", o que, em norueguês, significa... "direita". Nos últimos 77 anos, só em 16 deles o Partido Trabalhista esteve afastado do governo.

Em setembro de 1981, quando eu vivia em Oslo, a direita também chegou ao governo, depois de dezenas de anos de domínio trabalhista. Um semanário português, "O Jornal", havia enviado à Noruega o jornalista Fernando Dacosta, para cobrir o acontecimento. Embora, de acordo com todas as sondagens, a mudança fosse já previsível, ela não deixava de ser, aos olhos internacionais, uma alteração com uma dimensão algo histórica. Para Portugal, colocava-se a questão da sustentabilidade das ajudas que os governos socialistas noruegueses nos vinham a dar, desde o 25 de abril, tema que preocupava a embaixada.

Dei todo o apoio que pude a Fernando Dacosta. Apresentei-lhe jornalistas e outras personalidades locais e obtive-lhe uma entrevista com o futuro primeiro-ministro, Kåre Willoch. Passámos a noite eleitoral nas instalações da NRK, a televisão local, até ao apuramento dos resultados definitivos.

No final do escrutínio, Fernando Dacosta pediu-me se eu podia levá-lo até ao centro da cidade, junto da sede do partido vencedor. Fiz-lhe a vontade, sorrindo para mim mesmo. Lá chegados, não se via vivalma. Não havia a menor manifestação, nem uma bandeira era agitada, nenhum automóvel buzinava. A derrocada de um governo no poder, desde há décadas, não era objeto da menor comemoração pública. À meia-noite, a sede do vitorioso "Høyre" já estava mesmo fechada. No dia seguinte, bem cedo, a Noruega regressaria ao trabalho.

Júlio Dantas, na "Ceia dos Cardeais", escrevia: "como é diferente o amor em Portugal". A política também.

terça-feira, setembro 10, 2013

Discutir

Aqui há uns anos, num almoço em casa de um colega, a conversa, com outro convidado, resvalou para o terreno político. Eu tinha responsabilidades de governo por esses tempos e senti-me provocado com algo que ele disse - e não faço já a mais leve ideia do que foi. Irritei-me e julgo que fui longe demais, não apenas na argumentação utilizada, mas, especialmente, no tom que assumi. No dia seguinte, telefonei ao dono da casa a desculpar-me, tendo este, com simpática benevolência, desvalorizado o assunto.

Ontem, li num jornal que o meu interlocutor dessa conversa polémica morreu. Ele não estava totalmente inocente no tocante ao rumo que a nossa discussão teve. Mas, ao ler a notícia da sua morte, senti pena por nunca lhe ter dado uma palavra sobre o assunto.

segunda-feira, setembro 09, 2013

Amistoso


Faltava menos de um mês para eu encerrar a minha missão no Brasil. A seleção portuguesa de futebol fora convidada para a inauguração do "Bezerrão", um novo estádio de futebol construído no Gama, nos arredores de Brasília. Ia cheia de vedetas, o que, por antecipação, fazia vibrar de entusiasmo a comunidade portuguesa local. Alguns diziam-me: "que sorte, embaixador, poder ter por aqui a nossa seleção, logo no fecho da sua estada no Brasil!". Eu, sempre nada fã das soluções de Carlos Queirós, tinha um mau pressentimento. Mas, pronto!, lá fui para o estádio, cachecol ao pescoço, com a embaixada em peso de verde-e-vermelho e as bancadas cheias de compatriotas ansiosos de bandeira em punho.

Os alunos de uma escola primária, para crianças desfavorecidas, que a embaixada apoiava, entraram em campo pela mão dos nossos jogadores, radiantes! Depois, foi o que se viu. Uma equipa displicente e mal dirigida, que parecia estar a fazer um frete, que não corria, que não se empenhava e, muito em especial, que não percebia que um jogo "amigável" (ou "amistoso", como se diz no Brasil) tem uma importância muito grande para a comunidade portuguesa expatriada ou descendente. Para os jogadores aquilo era um jogo-treino, para os portugueses era o orgulho nacional que estava também em jogo. Para o senhor Queirós, que se entretinha em substituições para "fazer" internacionais, aquilo era, aparentemente, pouco mais que um jogo-entre-solteiros-e-casados.

Perdemos por uns imensos 6-2. Uns dias depois, em Nova Iorque, o colega que me ia substituir em Brasília, o embaixador João Salgueiro, deu de caras com Pelé, num restaurante. E apresentou-se, como futuro representante diplomático português no Brasil. Pelé retorquiu: "vai substituir aquele embaixador de cabelos brancos, que eu conheci, muito triste!, em Brasília, na noite em que Portugal perdeu por 6-2 conosco?". O meu colega confirmou. Eu estava, de facto, bastante triste e isso não deve ter escapado a Pelé. O que ele não sabia é que tê-lo conhecido terá sido a minha única alegria daquela noite.

Boa sorte para esta madrugada!

Em tempo: afinal, foi o que se viu. Com toda a tranquilidade...

Síria

Governar é escolher, dizia Mendès-France. A escolha, no caso sírio, é de uma extrema complexidade. Deixar impunemente Bashir Al-Assad continuar a repressão de parte do seu povo parece obsceno, agora que as acusações de uso de armas químicas fizeram a guerra civil mudar de patamar. Mas decapitar o poder em Damasco, provocando uma espécie de "balcanização" armada, com a entrega do poder a grupos islamistas radicais, muito fragmentados entre si, sem a menor garantia da criação de um processo democrático alternativo, é também um risco estratégico fortíssimo.
 
Que fazer? A escolha dos EUA e alguns aliados, mas ainda não plenamente assumida e fragilizada na reunião do G20, seria no sentido de provocar um forte abalo do regime sírio, por ataques cirúrgicos a estruturas e entidades que suportam o essencial da sua ação militar, com vista a provocar o seu enfraquecimento e a forçá-lo à negociação de um qualquer compromisso. Curiosamente, no discurso ocidental, poucos falam na substituição de Assad e mesmo no seu possível julgamento pelo TPI (Tribunal Penal Internacional), talvez porque alguns considerem que um cenário "menos mau" ainda pode ter de vir a passar por ele. Longe vão os tempos do "regime change" que era voz corrente no caso do Iraque.
 
Em todo este contexto, valerá a pena não perder de vista algumas coisas:
 
  • que o regime de Assad, não obstante a violência dos seus métodos (aliás, na velha tradição bárbara do pai do ditador), tem um considerável apoio popular no país, por razões de equilíbrios étnicos que têm muito a ver com a própria existência do país. O sunitas moderados, bem como as minorias cristãs, druzas, chiitas e curdas parece continuarem a preferir Assad à instauração de um modelo islâmico radical.
  • que a oposição está extremamente fragmentada entre grupos no exterior, sem grande influência interna e apenas relevantes nos refugiados e na diáspora, e os grupos internos que conduzem as operações militares, fortemente extremistas, que fazem parte de uma espécie de "brigadas internacionais" salafistas, que o ocidente se resignou a apoiar, sob pressão dos seus aliados sunitas (Turquia, Arábia Saudita e Qatar).
  • que a agenda anti-Assad, na realidade, tem como importante objetivo tentar enfraquecer a aliança entre a Síria e o Irão - porque a questão iraniana permanece como o elemento vital de toda esta questão. Por forma a evitar que o Irão se assuma potência central da região, em especial se vier a obter poder nuclear, o ocidente decidiu tomar partido pelas forças sunitas, na tentativa de quebrar a ligação entre as forças chiitas que ligam Síria, Irão e Iraque, bem como o Hezbollah libanês.
 
No caso sírio, como às vezes acontece, parte do mundo encontra-se perante a "alternativa do diabo": qualquer escolha será má, restando saber qual será a pior.
 
ps - porque é bem ilustrativa do que a Europa política é, note-se o esforço declaratório da União Europeia sobre este assunto, recheado de ambiguidades para poder acomodar o mar de divergências no seu seio.

O cano

"Estes tipos estão muito atrasados. Parece impossível! Não sabem colocar canalizações!"

Estávamos na Líbia, em 1976, numa artéria de Tripoli. Com o condutor local, viajávamos três portugueses, membros de uma missão técnica exploratória das possibilidades de negócio em matéria de construção civil e obras públicas.

(Para a história, diga-se que essa missão, decidida pelo então ministro nos Negócios estrangeiros, Medeiros Ferreira, iria abrir caminho a uma imensidão de rentáveis contratos nesse setor, para empresas portuguesas, nas décadas seguintes).

O autor da frase, um engenheiro civil português, que seguia ao lado do motorista, queixava-se de uma elevação, que atravessava toda a faixa viária, obrigando a viatura em que seguíamos a "subir" essa protuberância rodoviária, com algum incómodo para os passageiros e, naturalmente, obrigando a uma sensível redução da velocidade. Ele achava que era um cano...

Ao meu lado, no banco de trás, um homem da banca portuguesa, Mascarenhas de Almeida, deu-me uma cotovelada cúmplice e ambos contivemos, a custo, o riso. Mas nada dissémos.

Por essa altura, por esse mundo fora, apenas num número escasso de países fora já introduzido o método de colocar, nas ruas e estradas, em locais mais sensíveis, amortecedores de velocidade. A Líbia era um deles, mas o nosso engenheiro, embora "civil", aparentemente não conhecia ainda a novidade.

Passaram-se alguns minutos. O engenheiro deve entretanto ter constatado que mais "canalizações" iam aparecendo, ao longo dessas avenidas. E a certa altura, saiu-se com esta:

"Pensando bem, esta ideia de usar tubagens para reduzir a velocidade dos automóveis não é má de todo! Às tantas, era capaz de ser útil fazer isto em Portugal..."

Terá sido ele?

domingo, setembro 08, 2013

Vale tudo?

Um político português abriu, em Portugal, uma conta num banco e nele fez um depósito. O banco era uma sucursal de uma intituição alemã: como o Santander é espanhol, o Barclays é britânico ou o BNP-Paribas é francês. O banco oferecia, a quem quer que fosse ao seu balcão, boas condições e, com toda a naturalidade, o político escolheu-o. Que sentido teria optar por um banco que lhe desse piores condições?

Foi ilegal a abertura da conta? Não. Houve alguma ilegalidade ou ilegitimidade na operação? Nenhuma.

Um jornal, porém, coloca em título que o político "põe poupanças em banco alemão". "Banco alemão"? Ó diabo! O leitor incauto logo conclui, pela fórmula habilidosa utilizada, que, com um malote atulhado de euros, o político, quem sabe se numa "aberta" de uma deslocação oficial à Alemanha, terá colocado o dinheiro, à sucapa, na segurança das terras da senhora Merkel.

Vale tudo? Não vale. Mas quem é que abriu a caixa de Pandora?

Os da plaquinha na mão

Fica a sensação de que, nos dias de hoje, muitas pessoas já nem olham os espetáculos, parecendo que lhes dá maior prazer fotografá-los ou fi...