Ouvir Angela Merkel afirmar, sob o Arc du Triomphe, junto ao monumento ao soldado desconhecido francês, que " nunca esqueceremos o que os franceses tiveram de sofrer por causa dos alemães durante a primeira metade do século XX" foi um momento de grande simbolismo, a que tive o privilégio de assistir esta manhã. E igualmente importante foi ouvir o presidente Nicolas Sarkozy dizer que, "neste 11 de Novembro, não comemoramos a vitória de um povo sobre o outro, mas uma provação que foi tão terrível para um como para o outro".
A França e Alemanha, ao longo do passado recente, titulados por líderes diferentes, entenderam bem o carácter fundamental da sua reconciliação. Em cada um desses momentos, foi a coragem dos respectivos dirigentes que ficou à prova, porque eles sabiam que, atrás de si, estavam e estão povos eternamente marcados por fortes traumatismos, aos quais era importante apontar o novo rumo a seguir.
Essa coragem foi hoje, em Paris, assumida por Angela Merkel e por Nicolas Sarkozy, como corajoso havia já sido o primeiro entendimento entre De Gaulle e Adenauer, bem como, mais tarde, a imagem das mãos dadas entre Helmut Kohl e François Mitterrand. Sob o mesmo Arc du Triomphe, junto ao qual Adolf Hitler fez passar as suas tropas e fez a arrogante visita a Paris, a chanceler alemã mostrou que a qualidade dos políticos também se afirma na forma como conseguem, com grande dignidade, enterrar a História no passado a que ele pertence. E o gesto do presidente francês, ao convidá-la a partilhar o dia em que, até agora, a França comemorava a derrota alemã, esteve bem à altura dessa atitude.
Tenho a sensação que nós, portugueses, não obstante termos as nossas vítimas no termo do primeiro grande conflito mundial, nunca entendemos bem o sentimento profundo do que foi a imensa tragédia vivida nesta parte da Europa, durante todo o século passado. O peso da ditadura e a nossa concentração no patético estertor da aventura imperial, colocaram Portugal num mundo à margem dessa penosa realidade, a que foi possível escaparmos. Com efeito, não vivemos directamente uma tragédia que explica muito do que viria a passar-se mais tarde e que dá maior valor a este tipo de exorcismos, feito em torno de comemorações onde se sublinha, quase obsessivamente, a ideia da paz. Talvez ainda por essa mesma razão, em Portugal, não se olha para a Europa e para o seu projecto de unidade política da mesma maneira que outros o fazem e não valorizamos devidamente o fantástico empreendimento que a construção europeia representa e em que agora temos o ensejo de participar em pleno.
Há dias, um leitor lembrou-nos a relação com a França da conhecida expressão portuguesa "ir para o maneta" - com o sinónimo de destruir ou de dar cabo de alguma coisa. Tem também como significado vulgar escangalhar-se, estragar-se, avariar e morrer.
Fui ver a essa magnífica ferramenta informática que é o Ciberdúvidas e confirmei que, na origem da expressão, está a figura do General francês Loison, companheiro de Junot, durante a primeira invasão francesa. Loison, segundo revela Orlando Neves, no seu "Dicionário de Expressões Correntes", havia perdido um braço numa batalha e, em Portugal, "revelou-se um homem de extrema ferocidade e malvadez, que exercia torturas violentas nos presos e foi responsável por várias mortes".
Na memória popular ficou o verso:
"O Jinot (sic) mai-lo Maneta julgam Portugal já seu: É do demo que os carregue e também a quem lho deu."
Outros tempos, em que imagem da França, apesar de dividir sectores da opinião portuguesa, não era a que é hoje. Felizmente.
Há dias, baseado numa informação que circulou sem contestação aparente em sites noticiosos de referência, referi aqui que o Grupo Pestana ia encerrar a Pousada Barão de Forrester, em Alijó.
Acabo de receber um amável esclarecimento do presidente das Pousadas de Portugal que me dá conta da falta de fundamentação de tal notícia, na base da qual elaborei o meu anterior post. Segundo tal esclarecimento, a Pousada de Alijó terá um encerramento apenas temporário, para a execução de obras determinadas por lei, não estando em causa a continuidade desta unidade hoteleira.
A empresa considera que houve uma deliberada deturpação das suas intenções e que foi lançada uma inverdade que afecta a sua boa imagem. Só posso lamentar ter aqui feito um involuntário eco de uma falsidade que, como referi, apareceu a público com foros de verdade.
As Pousadas de Portugal são uma referência identitária do nosso país e foi a preocupação causada pelo anterior encerramento e a alienação de outras unidades, que analisei no post em referência, que terá contribuído para dar credibilidade a este boato. Pelo menos, foi isso que ocorreu no meu caso.
Só me resta reiterar as minhas desculpas às Pousadas de Portugal pela imprecisão da referência factual que fiz. Bem gostaria de ver a sua rede preservada na sua integridade e, se economicamente possível, mesmo aumentada - como aconteceu com a criação de uma nova unidade em Viseu, em que, com gosto, me alojei em Julho passado.
Morreu ontem um português de bem, que levou para a vida política uma rectidão e uma convicção que o conduziram a algumas rupturas pessoais complexas e a tomar opções difíceis.
Jorge Sá Borges, nome que nos dias de hoje já não é muito conhecido dos portugueses, foi um militante católico que se destacou na crise académica de 1962. Advogado de profissão, fundou o PPD, de que viria a afastar-se. Foi ministro e secretário de Estado nos tempos dos Governos provisórios.
Pessoalmente, conheci-o mal, apenas como amigo de amigos comuns, e, nesse contexto, tive ocasião de conversar com ele algumas vezes, em especial em noites do Procópio, por onde, em tempos, passeou a sua elegância e um humor muito fino.
Ter responsabilidades centrais na organização de uma visita de um chefe de Estado ou de governo português a um país estrangeiro é sempre uma imensa "dor-de-cabeça". Nada pode falhar, todos os pormenores têm de ser afinados, é importante ter "planos B" para as contingências, há questões de substância e de natureza protocolar a assegurar em detalhe, mil sensibilidades a gerir, maus feitios (vindos de Lisboa, principalmente) a aturar. É essencial uma excelente articulação com as autoridades locais, porque está nas mãos delas infernalizar-nos ou facilitar a nossa vida. Uma coisa é certa: se alguma coisa correr mal, a culpa é sempre das Embaixadas. Já preparei muitas visitas, sei bem do que falo.
Isto vem a propósito de uma história passada em Londres. Um dos pontos mais curiosos da visita oficial do presidente Mário Soares ao Reino Unido, em 1993, foi a organização do jantar de gala na nossa Embaixada, em Belgrave Square. Num programa de visita em que a responsabilidade maior estava do lado britânico, esse era o principal ponto da agenda a nosso cargo. A rainha de Inglaterra raramente se desloca a uma residência - mas a residência portuguesa não é, em Londres, uma residência qualquer, é a Embaixada do parceiro da "oldest alliance". E porque é uma excepção, foi aí que Mário Soares ofereceu o jantar com que retribuiu o que a rainha lhe dera em Buckingham.
A rainha e o marido não iram sós a esse jantar. Com eles e com um grupo muito importante de ministros britânicos iam o príncipe Carlos e a princesa Diana, os príncipes Andrew e Edward, a princesa Margarida e várias outras importantes figuras da corte britânica. Porque tal me competia, como "nº 2" da casa, passei horas a rever pormenores, a ensaiar com o nosso Protocolo a coreografia da entrada, desde a posição dos fotógrafos e jornalistas até aos lugares dos garbosos GNR's, vindos expressamente de Portugal para marcar a solenidade da ocasião.
Pouco mais de uma hora antes do momento em que teria de estar de volta ao meu "posto", rumei a casa, ao volante do meu carro, para vestir a casaca e ir buscar a minha mulher. Ia muito tenso, ainda com preocupações na cabeça, a pensar se algumas coisas me tinham escapado. Num cruzamento, pouco antes de chegar a casa, por distracção e precipitação, esbarrei de lado contra uma viatura: nada de ferimentos, mas latas amolgadas e alguns faróis partidos. E a culpa era toda minha!
Era uma senhora inglesa que guiava o automóvel atingido pela minha imprudência. Juntaram-se logo transeuntes a confirmar o óbvio da minha culpabilidade. Para alguma surpresa dos circunstantes, também eu dava toda a razão à condutora abalroada. A vítima da minha imperícia queria, naturalmente, chamar a polícia, porque deve ter pensado que isto de diplomatas, sempre protegidos pelas imunidades, é uma raça que costuma ser tentada a fugir às responsabilidades criminais.
Ora o meu drama não era o assumir da culpa. O meu problema era o tempo! Dentro de menos de uma hora eu tinha de estar, devidamente engalanado na minha casaca, à porta da Embaixada, a receber o presidente português, que chegaria acompanhado do nosso embaixador, para, pouco depois, se organizar a chegada da rainha. E, se acaso eu tivesse que esperar pela polícia para tomar notas do acidente, isso tornava-se inviável.
Foi então que testei toda a minha capacidade de convicção diplomática: "Minha senhora, eu assumo 100% da responsabilidade do acidente, mas tenho um problema muito sério: dentro de menos de uma hora vou jantar com a rainha! Eu sei que lhe deve ser difícil acreditar nisto, mas é pura verdade!".
Não consigo descrever a cara da minha interlocutora, o olhar incrédulo que me lançava, pensando talvez que a estava a tomar por parva. Num segundo, expliquei-lhe o que se passava: a visita do presidente português e o jantar na Embaixada. Não me pareceu convencida, até que me lembrei de lhe perguntar se tinha passado nos últimos dias pelo Mall, a avenida em frente ao Palácio de Buckingham. "Se lá passou, terá seguramente visto que há bandeiras portuguesas e britânicas por todo o trajecto". Não podia invocar parangonas na imprensa ou menções de relevo na televisão, porque as visitas protocolares têm escassa cobertura noticiosa. Restava-me a esperança da sua memória visual.
A senhora sorriu e disse: "De facto, vi muitas bandeiras. Eram portuguesas?". Percebi que estava salvo! Como prova da minha boa-fé propus-me deixar-lhe os meus documentos - a carta de condução e o livrete do carro -, garantindo-lhe que, logo no dia seguinte, de manhã, a Embaixada a contactaria. Para meu imenso alívio, aceitou. Deve ter ido contar para casa a história estranha por que tinha passado, o acidente com um diplomata que parece que ia jantar com a sua rainha.
E lá fui eu, à pressa, com um farol a menos, enfarpelar-me para jantar com a rainha de Inglaterra. E com a princesa Diana, claro.
Ao notar a próxima realização de uma mesa-redonda, aqui em Paris, sobre os media portugueses, não consegui deixar de recordar uma das primeiras pessoas com quem contactei, no seio do jornalismo português em França, quando por aqui fui passando, noutras andanças: Álvaro Morna.
Era uma figura amável e delicada, com um registo de entusiasmo profissional que seduzia, um trato humano onde se adivinhava uma personalidade de bem consigo mesmo, que gostava de fazer aquilo a que se dedicava. Rigoroso e conhecedor dos temas, fazia parte daquela magnífica espécie de profissionais com quem se pode falar sem qualquer receio de vir a ser mal citado, sem rasteiras ao canto de uma pergunta.
Exilado desde novo em França, Álvaro Morna trabalhou na Radio France Internationale, tendo sido aqui correspondente da Lusa, do Diário de Notícias e da Rádio Renascença. Andou muito pelo mundo e escreveu dois livros. Morreu em 2005. Deixou família e muitos amigos que, volta e meia, me falam dele com saudade.
Há mais de três décadas, atravessei pela primeira vez o “checkpoint Charlie”, em Berlim, entre as duas Alemanhas. Fi-lo como interessado turista, naquela curiosidade de observador distante de uma Guerra Fria que apenas conhecia no preto-e-branco dos filmes e dos livros de espionagem. Tal como me iria acontecer em outros contactos com o “socialismo real”, a experiência deixou-me um sabor amargo e triste, como se consagrasse a despedida definitiva de uma ilusão residual – a mim, que nunca tinha cultivado nenhum fascínio pelo modelo que, para alguns, foi o “sol da terra”. Porém, pertencente a uma geração política de quantos, cada um à sua maneira, acreditaram na possibilidade dos “amanhãs” poderem vir a cantar, via-me forçado, pela força da realidade, a concluir que, no passado, o futuro era bem melhor…
Porque à época da queda do muro ainda alimentava algumas dúvidas sobre o que a Alemanha iria fazer com a sua nova unidade, não fiz parte daqueles que saudaram, com grande euforia, a festa de Berlim, embora percebesse bem a alegria dos que a partilhavam. Sei que hoje não é popular escrever isto, mas assumo-o sem o menor pejo, porque é pura verdade. Como é igualmente verdade que não verti nenhuma lágrima de nostalgia pelo fim daqueles regimes feitos de tristeza e de tom cinza que a tutela moscovita conservara como cómoda almofada entre si o Ocidente.
O fim da Guerra Fria, para quem, como eu, assume não ser, por natureza, um desbravador obsessivo das incógnitas do futuro, não me sossegava muito, principalmente porque sentia algum incómodo ao pensar que uns Estados Unidos “à solta” poderiam ser tentados a algumas aventuras, basicamente concentradas no egoísmo dos seus interesses, para as quais, de uma forma ou de outra, acabaríamos por ser arrastados.
Enganei-me numas coisas, acertei noutras.
Enganei-me no que pensava sobre os riscos que a Alemanha podia fazer correr à Europa. A unidade alemã foi extremamente positiva para o desenvolvimento do processo de reconciliação política do continente e (agora) Berlim constitui um dos factores em que assento a residual esperança de que o projecto integrador possa suplantar as tensões que hoje tendem a desagregá-lo.
Noutras coisas acertei. Deixada sem contrapoder, uma certa América fez-nos correr uma aventura cujo saldo está ainda hoje por apurar e que adubou, de forma trágica, alguns conflitos para que foi arrastada. A circunstância de uma “outra” América ter, entretanto, reaparecido, no mercado das forças políticas com expressão à escala global, pode ajudar-nos a tentar atenuar essas derivas, mas as hipóteses de retoma do curso normal das coisas estão, em definitivo, já afastadas.
O mundo que hoje vivemos, goste-se ou não, é ainda um mero produto da Guerra Fria. O modelo das nossas instituições multilaterais mais não é do que uma projecção dos equilíbrios saídos do final da Segunda Guerra Mundial. A prova provada é que ainda andamos às voltas para tentar dar à NATO uma finalidade diferente daquela para que havia sido criada. Verdade seja que, do lado de Moscovo, sente-se uma filosofia de acção externa muito tributária de uma mentalidade tradicional de cerco, que rigidifica posições e provoca contra-reacções do mesmo sinal. Para nos recordar que esses tempos não estão mortos, regressou recentemente a temática do Tratado CFE (sobre forças convencionais na Europa) e mantêm-se os “frozen conflicts” de antanho (Transnístria, Nagorno-Karabasch), alguns com afloramentos muito pouco saudáveis (Ossétia do Sul, Abcásia).
A Europa que aí temos, a União Europeia alargada, mais não é do que uma filha directa da Guerra Fria, embora agora liberta das antigas peias dos pais geradores. Algumas atitudes que detectamos em certas capitais europeias face a Moscovo trazem consigo os germes dos traumatismos passados e tornam-nos a todos reféns involuntários dessa História regional.
Ora o mundo mudou, o 11 de Setembro deu um forte sinal que parece não ter sido entendido, mesmo por quem o sofreu dramaticamente na pele. As lições do Iraque, os riscos novos no Irão, os impasses no Afeganistão, bem como o barril de pólvora no Paquistão parece não serem suficientes para nos fazer acordar para a necessidade de mudança de paradigma do nosso quadro das relações internacionais.
Nesta cegueira estratégica, a atitude de uma certa Europa perante a questão turca prova que vivemos ainda no mundo do passado e que alguns teimam em não perceber que, pedra a pedra, estamos a colocar as fundações para um novo muro.
(Texto publicado hoje num suplemento especial do Diário Económico sobre a queda do Muro de Berlim)
É o afloramento da minha "costela" brasileira, mas não posso deixar de congratular-me vivamente com o retorno à divisão principal do Brasil do velho Vasco da Gama, o mais representativo clube português por aquelas terras.
A história da condutora de automóvel portuguesa apanhada 38 vezes sem carta de condução e que - ao que parece, porque certezas, no âmbito da nossa Justiça, não tenho nenhumas - só agora irá ser condenada a pena efectiva de prisão, continua a divertir alguma imprensa e "blogosfera" deste país.
Na França, haverá também haver uns casos parecidos, mas a nossa vocação para entrar neste triste e ridículo domínio do Guiness parece imbatível.
Talvez poucos (se alguns) dos leitores deste blogue conheçam a cidade de Soukhoumi, capital da auto-proclamada República da Abcásia, território que a Geórgia considera pertencer-lhe e que é objecto de uma já antiga disputa internacional. Trata-se de uma estância no Mar Negro, que foi uma reputada colónia balnear ao tempo da antiga União Soviética. As batalhas entre as forças abcases e georgianas deixaram a cidade com profundas marcas de guerra, as quais, no entanto, não foram suficientes para fazer desaparecer algum do seu antigo "charme".
Fui a Soukhoumi em 2004, integrado numa missão da OSCE, composta por vários observadores internacionais. Recordo, ainda com algum frio na espinha, uma viagem num bem usado helicóptero ucraniano, ao serviço da ONU, ao longo da respectiva costa. Ao perguntar porque razão voávamos tão distantes de terra, um dos pilotos, com toda a naturalidade, disse-me que era para tentar evitar os mísseis. É que tinha havido, tempos antes, uns problemas... Fiquei imensamente sossegado!
As nossas conversas na capital da Abcásia, com as autoridades separatistas locais, não conduziram a muita coisa, salvo, talvez, a precisar melhor o campo das divergências e o rigor dos argumentos independentistas. Saídos das sessões de trabalho, tornadas mais pesadas pela obrigatoriedade de interpretação, fizémos uma caminhada ao longo de um passeio que me recordou a Foz, no Porto, sempre acompanhados por segurança. No final desse percurso, chegámos a um restaurante, onde nos ia ser oferecido um almoço.
Foi então que alguém constatou que dois diplomatas, um belga e um outro cuja nacionalidade não retive, haviam saído do grupo e tinham desaparecido, sem rasto nem aviso. A preocupação espalhou-se pela delegação, em especial a partir do momento em que a vimos transposta para a cara dos responsáveis abcases, que entre si trocavam conversas tensas, enviando já polícias pela cidade.
Passaram longos minutos e, por esse imprevisto, a refeição formal acabou por não decorrer com a serenidade desejada. Até que, cerca de meia-hora mais tarde, lá vemos entrar na sala, para grande alívio, os nossos dois desaparecidos colegas. Pela mesa passou a palavra de que , por qualquerrazão, haviam decidido fazer um outro passeio. Sentaram-se discretos, sob o olhar reprovador da generalidade dos convivas.
Só no final do repasto nos elucidaram da razão do atraso: tinham feito uma "escapada" aos correios locais, para adquirir colecções de selos da Abcásia, aparentemente muito difíceis de obter à distância. Vinham impantes, com a antecipada certeza de terem conseguido raridades que iriam abrilhantar as respectivas colecções.
A diplomacia também ajuda a filatelia. Será que os nossos colegas se haviam incorporado na missão, fisicamente algo arriscada, apenas para comprar selos abcases? Nunca saberemos.
Na noite de sexta-feira, graças a uma iniciativa da Rádio Alfa, essa instituição de referência que une a comunidade portuguesa da zona de Paris, teve lugar em Créteil uma bela noite de fado.
Tenho ouvido mais fado de qualidade em França, desde que aqui cheguei, do que em toda a última década da minha vida, por esse mundo fora. A França é um destino regular dos melhores fadistas portugueses.
A iniciativa do comendador Armando Lopes, a alma por detrás da Rádio Alfa, conseguiu, uma vez mais, trazer ao vivo e pela antena três vozes de qualidade: Filipa Cardoso (na imagem, que não conhecia e que me pareceu de uma escola fadista próxima de Maria da Fé), António Pinto Basto e Mafalda Arnauth.
Há semanas, uma conversa com compatriotas aqui residentes há bastantes anos trouxe à discussão a questão das "lideranças" da comunidade portuguesa em França. Alguém dizia que, contrariamente a outras comunidades de origem estrangeira, os portugueses não geram figuras de dimensão nacional, que possam projectar a sua especificidade no seio da sociedade francesa, levando as instituições deste país a terem mais em conta - e mais em consideração, o que não é necessariamente a mesma coisa - aquilo que interessa à nossa comunidade.
Em muitas dessas conversas, o mote é clássico: "nós, os portugueses, não nos sabemos unir", "não aparece gente capaz para ocupar lugares de relevo" e, na lógica de quem quer "passar uma bola" que o incomoda, "é importante que alguém faça alguma coisa para mudar isto".
Há uma triste ironia quando se comparam estas conversas com algumas outras em que se discute pessoas de nacionalidade ou origem portuguesa que, numa ou noutra actividade, conseguiram uma certa relevância e projecção ou estão em percursos de ascensão. Aí, o tom já é outro: "não passa de um ambicioso", "está a aproveitar-se de ser português para obter lugares de 'poleiro' ", "o que ele quer é subir na vida à nossa custa" ou "comigo não conta ele para se promover".
Talvez não seja por acaso que a última palavra de "Os Lusíadas", essa obra que é um pouco o nosso espelho histórico, seja "inveja".
O dom da ubiquidade - conseguir estar em vários lugares, ao mesmo tempo - é algo que, apesar de denodados esforços que há muito venho a fazer, se tem tornado um tanto difícil de concretizar. Pode ser que com o tempo...
Há dias, a simpática obrigação de ir fazer uma palestra a Poitiers, a convite de Sciences Po, fez com que não pudesse estar, como desejaria, num colóquio que teve lugar, à mesma hora, na Fundação Gulbenkian, aqui em Paris, sobre a obra de Maria Judite de Carvalho. E que, por esse motivo, e ao que me dizem, tivesse faltado a uma visita ao salão internacional de construção - o Batimat - onde figuram muitas e importantes empresas portuguesas.
Uns dias antes, uma deslocação de trabalho à periferia de Paris, há muito fixada, impediu-me de estar presente num outro importante colóquio, desta vez sobre a figura de Joel Serrão, um evento a que muito gostaria de ter assistido. Nessa mesma data, o Champagne de Sousa, uma marca magnífica que ostenta as nossas origens, tinha um lançamento a que, do mesmo modo, me vi obrigado a faltar.
Esta conflitualidade de horários e locais, às vezes agravada pelo trânsito infernal das horas de ponta em Paris, passa-se quase todos os dias, para compreensível desespero dos simpáticos convidantes que tenho de "deixar cair" e que, imagino, algumas vezes devem julgar que o embaixador de Portugal se "está nas tintas" para as suas iniciativas. Não estou, embora pouco possa fazer para evitar tais embaraçantes situações, para as quais apenas posso contar com a compreensão de quem solicita a minha presença e acaba por não tê-la.
Dito isto, acreditem ou não, a diplomacia pode ser considerada uma das poucas profissões onde a ubiquidade ainda pode existir. Como na história que vou contar.
Foi no século passado (expressão magnífica, que agora nos permite qualificar tudo o que tenha mais de 10 anos...), ainda na década de 70. Numa tarde de sábado, passeava eu pelo Chiado, em Lisboa, numa segunda quinzena de Dezembro, dou de frente com um colega mais velho, colocado num posto distante, num outro continente, de cuja área geográfica eu me ocupava. Trocados cumprimentos e outras banalidades, explicou-me que tinha vindo para o Natal e que só regressaria ao posto em meados de Janeiro. Despedimo-nos, com as óbvias boas-festas à mistura e lá fomos para o fim-de-semana.
Na segunda-feira seguinte, ao final da tarde, pousa sobre a minha secretária, no Ministério, um telegrama (nome que damos à forma de comunicação entre as missões diplomáticas e consulares e Lisboa) assinado pelo referido diplomata. O texto era datado desse mesmo dia. Estranhei, mas, sendo ao tempo mais ingénuo do que sou hoje, pensei tratar-se de um erro do serviço de expedição.
No dia seguinte, terça-feira, surge um novo telegrama, sobre outro assunto, igualmente assinado por aquele colega, oriundo da cidade onde estava colocado. A data era desse mesmo dia.
Na quarta-feira, o tráfico "telegráfico" parou. Pronto, pensei eu, o nosso homem decidiu suspender o envio a Lisboa de telegramas "fantasma".
Mas logo na quinta-feira, ei-lo que volta à carga, agora com um elucidativo texto: "Parto amanhã de férias para Lisboa, depois de encerrado o expediente, deixando F... como encarregado dos arquivos". Texto magnífico: "ganhava" esse dia como se estivesse em posto e, com o habilidoso "depois de encerrado o expediente", obtinha também a totalidade da sexta-feira. Na prática, ia iniciar férias no... sábado! O nosso homem, tinha assim conseguido "sobreviver" formalmente no posto durante uma semana mais, exactamente o mesmo tempo em que já se passeava, com toda a calma, por Lisboa.
As coisas hoje já não são assim, lá pelas Necessidades. A transparência da vida diplomática não permite estes truques. Mas temos de ser justos: são eles que nos permitem afirmar que a ubiquidade pode ser considerada uma característica diplomática.
O Rádio Clube Português perguntava-me, há minutos, o modo como a comunidade portuguesa em França apreciava a acção do presidente Nicolas Sarkozy, nesta primeira metade do seu mandato. Em especial, se ela acompanhava a tendência da sondagem do "Le Nouvel Observateur" de ontem, que consagra algum desgaste de imagem do líder francês.
Para além do cuidado diplomático que um representante estrangeiro deve ter sempre neste tipo de comentários, dei-me conta de que, mesmo que quisesse, seria impossível para mim ter uma opinião clara, pelo facto da nossa comunidade ter por aqui um papel de uma discrição quase extrema em matéria da vida política local.
Muito embora haja já um número interessante de eleitos de origem portuguesa nas instituições democráticas francesas, essa presença está ainda bem longe daquela que seria desejável para uma defesa plena dos seus interesses e da comunidade em que estão inseridos. E é pena que assim aconteça: bem melhor seria que os portugueses com direito a voto fossem activos protagonistas da sociedade política francesa. Nesse caso, não apenas os partidos políticos franceses procurariam, com maior frequência, recrutar figuras da nossa comunidade para lugares electivos, a fim de "arrastar" consigo o voto português, mas, igualmente, os próprios eleitos franceses se mobilizariam em favor das agendas de interesses da nossa comunidade (em especial em matéria de ensino e promoção de apoio local às suas instituições associativas).
O facto dos portugueses serem uma "comunidade silenciosa" é, com certeza, lido como uma nota positiva num magma social e étnico onde certos afloramentos e tensões, de outras origens, marcam pela negativa o quotidiano do país. Mas tem, como reverso da medalha, o preço de alguma irrelevância no plano das vantagens que decorrem da afirmação cívica.
Sucumbi ontem a alguma nostalgia ao participar, aqui em Paris, na inauguração do Salão de Filatelia, no qual Portugal é o país convidado de honra.
Por instantes, vi-me nos tempos da minha adolescência, durante a qual, sob a orientação do meu pai e a tutela profissional dos clássicos catálogos portugueses de Eládio de Santos e Simões Ferreira, bem como do francês Yvert & Tellier, apurei uma muito razoável colecção de selos (que inclui mesmo o que está na imagem, o célebre "5 reis D. Maria", o primeiro selo português). Até que, lá pelos anos 80, deixei de me interessar pelo assunto, nunca percebi bem porquê - mas, muito provavelmente, porque outros entusiasmos alternativos tenham suplantado a filatelia no meu mercado pessoal de interesses. Não deixou, contudo, de ser um tempo bem curioso, em que muito aprendi de geografia e de história do mundo através dos selos.
Hoje, fiquei com a sensação de que a filatelia tende a ser uma coisa de um outro tempo. Muito poucos jovens havia no Espace Champerret para apreciar a bela exposição aí instalada. A era do e-mail ou dos SMS's parece estar a fazer desaparecer a prática do coleccionismo filatélico e, em especial, a não conseguir conquistar para ela as novas gerações.
Curiosamente, os correios portugueses mantêm um dinamismo que pode ser considerado em contra-corrente com esse desânimo e continuam a imprimir, com grande regularidade, belas colecções de selos e de produtos editoriais que lhes estão associados, conseguindo mobilizar para esse trabalho excelentes artistas plásticos nacionais. Foi, aliás, muito agradável verificar o elevado prestígio que os nossos profissionais do sector disfrutam junto dos seus pares europeus.
Pela sua qualidade, pelo modo como projectam a estética e os valores portugueses, os nossos produtos filatélicos dão hoje uma contribuição para a imagem de Portugal que podemos quase qualificar como "diplomática". Pena foi que, no famoso escândalo da empresa filatélica ibérica Afinsa, tenha acabado por ficar um "selo" diplomático português...
É muito instrutivo procurar apresentar faces diversas da Europa, tanto quanto possível apelativas, dirigidas a auditórios muito diferenciados.
Ontem, ao final da tarde, numa organização de Sciences Po, fiz em Poitiers, para umas largas dezenas de jovens, uma apresentação sobre a Europa e o modo como vemos o nosso próprio papel no projecto. O animado debate que se seguiu quase me fazia perder o TGV (bendito TGV!) para Paris. Foi muito curioso responder a várias e interessantes questões, algumas delas de tom quase inesperado, por parte de estudantes de várias origens. Aprende-se imenso ao ouvir as preocupações daqueles a quem pertence o futuro.
Hoje de manhã, já aqui em Paris, fui o "guest speaker" (até porque a apresentação foi feita em inglês) na reunião da "Bankers Association for Finance and Trade", que reune quadros superiores das grandes instituições bancárias europeias. O Tratado de Lisboa, as derivas intergovernamentais dentro da União Europeia, a preservação do Mercado Interno e outras interrogações sobre o futuro do projecto europeu animaram uma bela hora de debate. Outro auditório, outras preocupações.
Logo à noite, falarei em Neuilly sobre a experiência de Portugal na Europa. Serão outros ouvintes, muitos dos quais pertencentes às novas gerações francesas que têm origem comum portuguesa, filhos e netos de quantos, na realidade, entraram nas Comunidades Europeias antes que Portugal delas fizesse formalmente parte.
A cena passou-se num país com o qual as nossas relações bilaterais não estavam a ser fáceis, nos anos 80 do século passado.
Era sábado e o encarregado de negócios de Portugal, que chefiava a missão diplomática na ausência do embaixador, havia sido chamado de urgência pelo ministro dos Negócios Estrangeiros local.
A conversa começou tensa. O ministro colocou sobre a mesa uma carta, da qual saíam três notas de 100 dólares: "Esta carta ia ser enviada pelo vosso cônsul na cidade de X para a família, em Portugal. Contém dinheiro em "cash", o que vai contra todas as regras. Além do mais, pressupõe ser produto da obtenção de divisas estrangeiras por meios ilegais, porque, como é sabido, há neste país um controlo muito forte da circulação de moeda estrangeira e não temos registo do cônsul ter adquirido os dólares no banco central. Exigimos uma explicação urgente por parte da Embaixada."
O nosso diplomata foi apanhado de surpresa. De facto, era uma situação estranha mas, pensou, era importante falar primeiro com o cônsul e obter a sua versão do assunto. A posse de moeda estrangeira era muito vulgar no país, até porque os diplomatas eram pagos em dólares e havia serviços e aquisições locais que exigiam essas divisas. Já o seu envio por carta parecia muito imprudente. Mais para ganhar tempo do que por qualquer outra razão, inquiriu: "E esta carta ia pelo correio?".
Nesse instante, notou que o ministro hesitou um pouco, antes de esclarecer: "Não, ia na mala diplomática para Lisboa".
O nosso encarregado de negócios teve então um lampejo, recuperou o comando da conversa e retorquiu firmemente ao ministro: "A Embaixada está totalmente disponível para prestar todos os esclarecimentos sobre este assunto mas, antes que isso aconteça, as autoridades do seu país vão ter de explicar a razão pela qual violaram a nossa mala diplomática, contra todas as regras internacionais. E, ainda hoje, vou fazer chegar uma nota de protesto por este acto que, de forma ostensiva, infringe as regras da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas".
O ministro não estava à espera da resposta e foi apanhado de surpresa. Voltou à carga com a ideia da necessidade de obter uma posição sobre a questão dos dólares na carta, mas o encarregado de negócios foi definitivo: "Antes de obtermos, da vossa parte, uma explicação sobre a razão pela qual a nossa mala diplomática foi violada, não diremos rigorosamente nada sobre o seu conteúdo. Aliás, peço, formalmente e desde já, a devolução do resto da correspondência que seguia na mala diplomática, a maioria, aliás, de natureza oficial. Não sei se se dá conta que isto é de uma extrema gravidade, senhor ministro! Os senhores violaram a mala diplomática portuguesa! Isto pode vir a ser um escândalo!".
O interlocutor começou a ter consciência de que a sua posição abandonava um terreno confortável e mostrava-se já um tanto embaraçado. O nosso diplomata saiu da reunião entre o satisfeito e o preocupado, mas sem plena certeza sobre o que se seguiria.
No dia seguinte, o conteúdo da mala diplomática chegou, discretamente, à nossa Embaixada. A carta do cônsul vinha junta... sem os 300 dólares. O encarregado de negócios não chegara a mandar a nota de protesto, até porque, para o fazer, necessitava de uma autorização de Lisboa, que nem sequer obtivera. O "bluff" compensou, ou melhor, custou 300 dólares ao pobre cônsul. E o assunto morreu...
Cenas da vida diplomática, como diria o Lawrence Durrell.
Nenhum regime crismou o termo "coabitação" de uma forma tão marcante como a V República francesa. Um dos tempos mais interessantes dessa coexistência entre um presidente da República e um primeiro-ministro, oriundos de famílias políticas opostas, foi o período em que François Mitterrand, como Presidente da República, coincidiu com Jacques Chirac, como primeiro-ministro.
Por essa razão, e porque tem alguma graça ver como os políticos, com distância, se avaliam, não resisto a transcrever este breve extracto do primeiro volume das memórias de Chicac, sob o título «Chaque pas doit être un but», que hoje foi publicado:
«Je n’ignore pas la complexité du personnage, ni les zones d’ombre qui jalonnent son parcours, mais l’homme que je découvre au fil de nos entretiens m’apparaît d’une finesse de jugement et d’une intelligence tactique que j’ai rarement rencontrées dans le monde politique. Son amour de la France est indiscutable, et il n’admet pas que celle-ci soit abaissée, même s’il tend, selon moi, à l’enfermer dans des perspectives archaïques et eût sans doute rêvé de la laisser vieillir comme un paysage qu’il aimait. Nos valeurs communes sont celles de deux provinciaux attachés aux traditions terriennes, comme aux idéaux de la République. Et si, pour le reste, nos convictions semblent à l’opposé l’une de l’autre, probablement l’un est-il moins à gauche qu’il ne le fait croire et l’autre moins à droite qu’il ne le laisse paraître. Plus que ses idées, c’est la façon de les mettre en scène que la cohabitation m’a permis d’admirer chez François Mitterrand. "Salut l’artiste!" m’est-il arrivé de penser en assistant à quelques-unes de ses prestations.".
Nos obituários, a generosidade costuma abundar. Porém, quero crer que o sentimento de perca que a morte de Claude Lévy-Strauss desencadeou por todo o mundo tem uma genuinidade muito grande. Foi um homem que deu um notável contributo às Ciências Sociais.
No que me toca, passei a ver muitas coisas de forma diferente depois de ler o seu "Tristes Trópicos" e a minha compreensão do Brasil ficaria muito incompleta sem ter antes feito essa leitura.
Este blogue acaba de ser visitado pelo seu 100º país, como pode ser constatado na estatística autónoma do "Flagcounter", ali ao lado. As Nações Unidas têm ainda mais 92 Estados, mas duvido muito que a popularidade do "Duas ou Três Coisas" acabe algum dia por chegar ao Butão, a Kiribati, a Palau ou a Saint Vincent and the Grenadines.
Mas lá que ter 100 países visitantes é um belo número, lá isso é...