segunda-feira, maio 18, 2009

Mudança


O importante pintor e escultor alemão Anselm Kiefer, que tinha, desde 1993, o seu atelier em Barjac, no sul da França, ter-se-á incompatibilizado com a vizinhança e decidiu mudar-se para Portugal, com todas as suas obras, provocando uma reacção de alguns meios franceses, que vêem com desagrado este "déménagement" artístico.

A "Floresta Cultural" de Kiefer será instalada no vale Perdido, na Herdade da Comporta.

Para exemplo de alguns portugueses, continua a haver quem nos considere um local simpático para viver.

domingo, maio 17, 2009

Mourinho(s)

Há muito quem discuta o seu estilo pessoal, quem deteste a sua assumida arrogância, quem se irrite com a sua constante propensão para a provocação mediática. Mas se, no mundo futebol, são apenas os resultados que contam, José Mourinho é um vencedor. Agora foi na Itália, levando o Inter ao título.

Que tal aproveitar o ensejo para felicitar também o outro Mourinho, seu pai, antigo guarda-redes e treinador do Vitória de Setúbal, que mandava o filho observar as equipas adversárias, actividade em que este terá aperfeiçoado as suas qualidades de planificador táctico? Mas será alguém ainda se recorda ainda desse outro Mourinho? E será que isso tem alguma importância?

Memória

Foi ontem, no Consulado-Geral em Bordeaux. Eram umas dezenas de eleitos em autarquias francesas, cujo ponto comum era uma relação, próxima ou longínqua, com Portugal. A grande maioria não se conhecia entre si mas todos responderam a um convite pessoal que eu havia endereçado, numa carta a cada um, para, em conjunto, reflectirmos sobre o modo como entendiam que a memória de Portugal, que os une, que conservam e que querem promover, pode passar a ser tratada no futuro. E o papel que entendem que a Embaixada pode ter em tudo isso, sem intuitos de controlo ou enquadramento, sem prejuízo da autonomia devida à sua condição de eleitos do quadro das instituições francesas.

Durante mais de duas horas, quase sempre em francês - única língua que era acessivel a todos, dado que alguns falam pouco português - discutimos temas tão diversos como a participação eleitoral, as geminações, o apoio às associações, as televisões portuguesas no exterior, o ensino de português, as questões culturais, a imagem de Portugal e dos portugueses, as novas migrações portuguesas para França, etc. E, o que pareceu significativo, falaram quase todos os presentes, dando conta da diversidade das suas preocupações.

Para mim, foi um dos momentos mais ricos, em termos de aprendizagem, desde que cheguei a França. Da reunião saiu a base para a possível criação, até ao final de Maio, de uma plataforma informática em que, os que assim o pretendam, podem vir a colocar as suas questões, os seus anseios e mostrar as suas realizações em áreas que possam ser do interesse comum. E a poderem interagir entre si. Veremos se esta ideia tem pernas para andar.

Este exercício, agora iniciado na reunião da Aquitaine, procurarei reproduzi-lo em outras áreas de França. Com tempo, mas com determinação.

sábado, maio 16, 2009

Ainda o "Le Monde"

Ontem, revelei a minha ligação afectiva ao jornal "Le Monde". Mas tenho uma história que prova bem que essa afectividade não é um exclusivo meu.

Estávamos em 1976. Surgira em S. Tomé e Príncipe uma greve dos professores cooperantes portugueses... por cuja pré-selecção eu próprio tinha sido responsável, pouco tempo antes. Aparentemente, os nossos docentes sentiam estar a haver alguma discrepância entre as condições que lhes haviam sido prometidas, antes de partirem de Portugal, e a realidade local com que então se defrontavam. A coisa parecia séria, as aulas estavam suspensas e a "batata quente" foi passada para as minhas mãos, porque eu fora o elo de ligação com as autoridades santomenses. E aí fui eu despachado de Lisboa, viajando através de Paris e de Libreville, no Gabão, para o cumprimento da minha primeira missão externa. Cinco meses depois de entrar para o MNE, imaginem!

Chegado a S. Tomé, o embaixador português, Amândio Pinto, homem simpatiquíssimo, sem dar mostras de qualquer agastamento por terem mandado um "miúdo" para resolver um problema diplomático, perguntou-me logo se eu queria encontrar... o primeiro-ministro, Miguel Trovoada, que era também responsável pela pasta da Cooperação. "O primeiro-ministro!?", inquiriu o recém-admitido adido de embaixada que eu era. "Claro, não há qualquer problema", disse o embaixador. E, com a maior naturalidade, pegou no telefone e ligou ao primeiro-ministro. Para meu espanto, de neófito, meia hora depois, lá estávamos no respectivo gabinete.

Ao cumprimentar o chefe do Governo de S. Tomé, que veio depois a ser presidente da República, dei-me conta de que, sobre a sua secretária, tinha um exemplar do jornal português "O Século". E, pelo título de uma notícia, percebi que aquele jornal teria, pelo menos, duas semanas. Aí, não resisti: "Vejo que está a ler um Século antigo. O senhor primeiro-ministro quer o Monde de ontem?". Trovoada fez um olhar surpreendido: "Mas como é que você tem o Le Monde ontem?". Expliquei-lhe que saíra de Paris na tarde da antevéspera, já com o Monde desse dia (aliás, com a data do dia seguinte) debaixo do braço. Miguel Trovoada, homem que muito frequentara a França, sorriu, encantado com a possibilidade de ter notícias frescas da Europa, e, logo ali, disse que mandaria um carro à nossa Embaixada, para recolher a novidade informativa. O nosso embaixador prontificou-se a ser ele a mandar entregar-lhe o jornal, de imediato.

Para a pequena história, assinale-se que o governo santomense fez algumas concessões que permitiram acomodar as reivindicações dos nossos professores e me deram ensejo de com eles negociar o fim da greve. E que o jovem adido de embaixada que eu era regressou, impante, a Lisboa, com a missão bem cumprida.

Será que o "Le Monde" teve alguma coisa a ver com isso?

sexta-feira, maio 15, 2009

Filinto Elísio

Conhecemo-nos há dois anos no Brasil, chama-se Filinto Elísio, é um poeta de Cabo Verde que Pedro Támen qualifica como "uma voz original e genuína" e acaba de publicar "Li Cores & Ad Vinhos", numa magnífica edição da portuguesa Letras Várias.

Cerca de 100 pessoas estiveram a ouvi-lo, ontem à noite, na Embaixada de Portugal em Paris, apresentado pelo professor Luis Silva. As Embaixadas de Cabo Verde e de Portugal juntaram-se para esta iniciativa, numa parceria de lusofonia que espero possa frutificar.

O pássaro da foto? É de Cabo Verde.

Angola

O embaixador do Congo em Paris, Henri Lopes, contou-me, há dias, uma história curiosa, passada em 1974.

Na capital do Congo, Brazaville, estava situada aquela que era a principal representação externa do MPLA no exterior. Nesse tempo, o movimento defrontava-se com uma cisão chamada Revolta Activa, então chefiada por Mário Pinto de Andrade. A Organização de Unidade Africana (OUA) procurava encontrar uma solução para aquela fractura política e Henri Lopes, que era então primeiro-ministro do Congo, havia sido encarregado de tentar uma reconciliação. Em algumas conversas, Neto dera sinais de poder aceder a essa ideia, pelo que foi marcada uma reunião no gabinete do primeiro-ministro congolês.

Assim, numa manhã, Neto e Lopes falavam do tema, com o presidente do MPLA a dar indicações claras de que, nos termos de algumas condições, um compromisso era possível. Num determinado momento, porém, chega a notícia de que uma revolta tinha tido lugar em Portugal. Era dia 25 de Abril.

Ao espanto de Agostinho Neto sucedeu-se, de imediato, a sua decisão de pôr fim a qualquer mediação ou entendimento. O MPLA e a Revolta Activa acabaram por agravar as suas tensões, que chegou a momentos de alguma violência, mesmo em Brazaville. Os membros da Revolta Activa não viriam a ter qualquer papel no início da independência angolana.

É curioso como, aqui por Paris, se encontram histórias esparsas que se ligam à nossa aventura africana.

Ana Moura

Foi um sucesso - dizem-me - o espectáculo que a fadista portuguesa Ana Moura levou ontem a cabo no La Cigale, aqui em Paris.

O facto da ubiquidade não ser, pelo menos até ver, um atributo dos diplomatas impediu-me de estar presente, como desejaria. Fica o registo.

Turquia

O Presidente da República portuguesa, Cavaco Silva, deixou bem claro, na sua visita à Turquia, o compromisso de Portugal com as regras por que se regem as candidaturas de adesão à União Europeia: "Os critérios do alargamento são os critérios de Copenhaga. A identidade cultural dos povos, a religião que maioritariamente professam, não faz parte desses critérios". Esta declaração é da maior importância e reforça a posição de um país, como Portugal, que tem deixado bem evidenciada a sua atitude de respeito pela crediblidade do processo negocial que está em curso e que, na nossa perspectiva, deve prosseguir, sempre segundo critérios bem objectivos.

Portugal compreende e respeita as dificuldades que, por razões de ordem interna, e nalguns casos essencialmente conjuntural, alguns países registam, quanto à aceitação da candidatura turca. Os tratados europeus dizem, sem ambiguidades, que, para que uma nova adesão se possa concluir, será necessário o voto positivo de cada Estado, de cada parlamento e, em alguns casos, a submissão dessa mesma proposta a um voto popular interno. Essa será sempre uma decisão final que competirá a cada país e que teremos de respeitar, competindo a esse mesmo país arcar com o custo político da posição que vier a tomar - positiva ou negativa. Porém, iniciado que seja o processo, nenhum Estado pode obstaculizar formalmente ao prosseguimento do processo negocial, embora lhe assista o direito de, no âmbito deste, ir sustentando as objecções que entender, eventualmente dificultando a conclusão dos diversos capítulos de negociação. Essa é uma matéria que releva da responsabilidade de cada um.

As declarações do presidente Cavaco Silva, em nome de Portugal, foram a reafirmação da extrema coerência que o nosso país tem mantido perante esta questão. Na perspectiva portuguesa, a Turquia, que foi um aliado vital do Ocidente durante a Guerra Fria, não pode ser hoje tratada como uma entidade pertencente a um mundo diferente. Tanto mais que Ancara foi, já há muitos anos, convidada formalmente pelos Estados comunitários a apresentar o seu processo de candidatura e dispõe já de um acordo com a actual União Europeia que configura uma real expectativa de integração.

Além disso, os importantes sectores que, naquele país, lutam denodadamente, e por vezes com grande sacrifício e fortes incompreensões internas, pela fixação de um padrão civilizacional e comportamental que aproxime o país do modelo ocidental não merecem ser retribuídos com uma complacente indiferença europeia, muito menos com uma qualquer aberta hostilidade. Todos temos a obrigação de ter consciência de que a questão turca tem uma dimensão estratégica, de longo prazo, que deve estar para além das meras polémicas ou sensibilidades conjunturais.

Edgar Rodrigues (1921-2009)

Em Novembro de 2008, enquanto embaixador português no Brasil, prestei uma homenagem, no nosso Consulado-Geral no Rio de Janeiro, a Edgar Rodrigues, o mais antigo exiliado político português naquele aíd. Foi a enterrar no Rio de Janeiro em 15 de maio de 2009.

Conhecia Edgar Rodrigues apenas por alguns dos seus muitos livros, essencialmente dedicados ao movimento anarco-sindicalista. No Brasil, tive algum trabalho até conseguir contactá-lo, porque não fazia parte dos circuitos tradicionais da comunidade portuguesa. Escrevi-lhe e respondeu-me com uma carta comovente, de grande reconhecimento pelo meu gesto de aproximação.

Edgar Rodrigues era uma figura muito interessante, que viveu quase sempre alheada dos principais grupos políticos que mantiveram oposição ao Estado Novo no Brasil. A sua obra escrita, com várias dezenas de livros, publicados em diversos países, é de grande importância para o estudo dos movimentos sociais em Portugal. Foi objecto de diversas exposições e os seus trabalhos foram reconhecidos por vários investigadores.

Tentei que, ainda em vida, fosse atribuída a Edgar Rodrigues a Ordem da Liberdade. Não consegui.

Sobre Edgar Rodrigues recomendo as seguintes leituras: http://arepublicano.blogspot.pt/2009/05/in-memoriam-de-edgar-rodrigues-1921.html e https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Edgar_Rodrigues

Le Monde

O jornal Le Monde chega hoje ao seu nº 20.000. Para quem gosta das coisas da política internacional, o Monde é uma companhia indispensável de vida. Bem antes da escolha profissional me ter conduzido pelos caminhos da diplomacia, comprar o "Monde" era, para mim, o gesto rotineiro, logo que cruzava a fronteira francesa. Era o meu primeiro "banho de Europa", após ter saído de um Portugal abafado e de imprensa triste. O "Monde" era, para muitos da minha geração, a cara do mundo exterior.

Recordo, nos tempos pré-Abril, como trocávamos informações sobre o que, segundo constava, "vem hoje no Monde" e que a polícia não deixara passar para os quiosques. E, no auge da agitação de 74, lembro-me de conversas com Marcel Niedergang, apresentado pelo José Rebelo (correspondente do Monde em Lisboa), no bar do Hotel Mundial, tentando decifrar-lhe as bizarrias da complexa política doméstica.

Habituei-me ao Monde ainda sem fotografias, com uma publicidade muito escassa, com textos densos e, por vezes, de leitura difícil, mas sempre bastante rigorosos. Nele aprendi coisas sobre temáticas pouco comuns, através dele fui alertado para opiniões diversas e divergentes, em especial sobre a vida política interna francesa. Lembro-me bem dos célebres editoriais de Beuve-Méry, dito Sirius, e tenho saudades das pequenas e deliciosas "caixas" na primeira página de Robert Escarpit. Assisti a diversas reformas gráficas e acompanhei as suas crises e polémicas internas. E no Monde tive a honra de ser publicado, quando a ocasião se proporcionou.

Não me conheço interessado sobre questões internacionais sem ter o Monde à minha frente. Durante décadas, visitei centenas de bancas de jornais, em aeroportos ou hotéis, por esse mundo fora, sempre em busca do último Monde. Sou fiel ao Herald Tribune, gosto muito do Financial Times, faz-me falta o Economist. Mas - e sei que esta opinião é hoje minoritária -, se tivesse que escolher um único jornal para ler, ele seria o Monde, embora reconheça que é talvez uma atitude que tem algo de sentimental. Por isso, todas as tardes, espero-o como se espera um amigo que sabemos que nos visita em cada dia. Embora, neste caso, sempre anunciado com a data do dia seguinte...

quinta-feira, maio 14, 2009

Bayrou

François Bayrou é, actualmente, a mais destacada figura política do centro político francês - um lugar ideológico que, até agora, não tem por aqui uma história de grande sucesso na ascensão a lugares cimeiros nas principais instituições do Estado, se descontarmos o caso pontual de Alain Poher, cuja derrota eleitoral, contra George Pompidou, significou o seu ocaso político.

Antigo ministro, actual deputado, candidato nas últimas eleições presidenciais, François Bayrou tem vindo a tentar afirmar um projecto próprio, o qual, como agora se verifica, passa por uma oposição muito forte ao presidente Sarkozy. É nesse quadro de combate político que se insere um feroz libelo que lançou contra o chefe de Estado, na forma do seu livro "Abus de Pouvoir", que acabo de ler. Embora noutro tempo e noutro contexto, este livro não deixa de nos recordar o "Le Coup d'État Permanent", de François Mitterrand, talvez o mais violento livro de que me recordo, publicado por um político no activo, contra o General de Gaulle.

Recordo um episódio em que entra François Bayrou. Estávamos em 2000, durante a presidência portuguesa da União Europeia. Era o tempo do isolamento da Áustria pelos outros "catorze", por virtude do acesso de um partido de extrema-direita ao poder, em Viena. Coube-me apresentar essa decisão ao Parlamento Europeu, em Bruxelas, no início de uma sessão que acabou por ser bastante turbulenta. Num determinado momento, fui objecto de uma violenta intervenção de Jean-Marie le Pen, a que me recordo de ter respondido com rispidez. Bayrou saiu em minha defesa e, de certo modo, acabou por ajudar a equilibrar o debate.

Mas este post serve, essencialmente, para sublinhar que existe em França, de há muito, uma tradição, por parte dos actores políticos, de mobilizarem o debate através da publicação de livros, o que permite contrastar teses e fazer assentar a polémica num confronto de ideias, que não exclui, bem entendido, o corrente uso de picardias pessoais. Ministros, deputados, senadores e outras figuras conhecidas recorrem, com frequência, à expressão publicada das suas posições, o que não deixa de ser fascinante para um observador atento à realidade política francesa.

Não sei se o nosso mercado livreiro teria elasticidade para tal, mas creio que seria muito salutar se a vida política portuguesa fosse pontuada, com mais regularidade, com obras de ideias produzidas por políticos nacionais no activo.

Holocausto

Hoje de manhã, numa conferência na Fundação Calouste Gulbenkian, aqui em Paris, Eduardo Lourenço dizia que, se pensarmos bem, a escravatura pode ser considerado o primeiro holocausto. Nunca me tinha ocorrido, mas, como quase sempre, ele tem razão. Porém, nem todos são da minha opinião.

À noite, com amigos seus, tive o privilégio de ter Eduardo Lourenço a jantar em casa, falando-nos do mundo e da Europa que o fascina e intriga. Quem, no nosso país, reflecte em profundidade sobre a Europa e o papel de Portugal nela, senão Eduardo Lourenço?

quarta-feira, maio 13, 2009

Desconseguir

Li ontem que um responsável de um jornal português teria afirmado que a publicação de um suplemento ia ser "descontinuada". À parte a tristeza pelo fim do caderno, nada de mais grave se passa, em matéria de correcção do português: a palavra existe. Não é bonita, lembra o anglo-saxónico "discontinued", mas está aceite pelos dicionários.

Porém, se assim é, não percebo porque não se adoptam outras fórmulas semelhantes, de que a mais elaborada será, com certeza, a que se ouve muito em Angola: "Conseguiste chegar a tempo ao banco? Desconsegui".

Lula

Lula da Silva, presidente do Brasil, vai receber o prémio Houphouet-Boigny, da UNESCO, destinado a personalidades que contribuiram para a paz mundial, decisão para a qual, julgo saber, muito contribuiu Mário Soares.

O presidente Lula merece bem este prémio, como construtor maior de um Brasil mais justo, menos desigual, atento aos grandes desafios globais. Depois de Fernando Henrique Cardoso, que colocou o Brasil na agenda da modernidade, Lula da Silva conseguiu conduzir o seu país a um lugar de prestígio, à escala mundial, nunca no passado igualado.

A título muito pessoal, parabéns Presidente!

Cultura

Foi há pouco anunciado que Guimarães será, em 2012, a Capital Europeia da Cultura.

Julgo que muitos portugueses não se terão ainda dado conta da fantástica mutação que Guimarães tem vindo a sofrer, ao longo dos últimos anos, através de uma inteligente recuperação do património e de melhoria da sua paisagem urbana.

terça-feira, maio 12, 2009

Visita de Estado

Os três dias tinham passado na agitação e correria que é tipica das visitas presidenciais a um país estrangeiro. Na manhã seguinte, far-se-ia o regresso a Portugal. O ministro e a sua mulher, acabado que foi o último jantar oficial, voltaram cansados ao quarto do hotel, ansiando por uma boa noite de sono.

Havia, porém, um ritual a cumprir: neste género de deslocações, as regras logísticas obrigam a que os membros das comitivas deixem as malas, do lado de fora dos quartos, aí pelas cinco da manhã, por forma a serem recolhidas pelos bagageiros, que as colocam no avião, bem antes da partida. É desta forma que os presidentes e as suas comitivas podem sair directamente dos hotéis para os aviões, já sem precupações com as bagagens.

Para isso, porém, há que fazer as malas bem cedo, deixando para trás apenas as coisas básicas de higiene e o vestuário para essa manhã. Foi essa regra que a mulher do ministro cumpriu, já com o marido a dormir. Concluída a função, colocou as malas à porta e foi-se deitar.

No dia seguinte, aí pela sete horas, o ministro toma o seu duche e - surpresa das surpresas! - dá-se conta de que a sua mulher, por lapso, tinha colocado nas malas o seu par de sapatos. A essa horas, as malas já deviam estar no avião!

Que fazer? Era um "país de Leste", as lojas da cidade estavam fechadas, o "concierge" do hotel revelou-se sem soluções. E, há que convir, era política e socialmente imprudente o ministro surgir em peúgas na fila de cumprimentos. Ou não surgir, o que seria protocolarmente muito grave e abriria lugar a infindáveis especulações.

É nessas horas que os embaixadores justificam a sua existência. Ou não. O meu colega em posto foi alertado para a crise ministerial quando já estava, no seu carro, prestes a chegar ao hotel. "Que número usa, senhor ministro?". A resposta "41" terrificou-o, olhando desolado para os seus pés "38" e para a impossibilidade de encontrar, na sua própria casa, uma alternativa. O carro continuava a rolar em direcção ao hotel, onde o presidente o esperava. Mas o embaixador tinha bem claro que o seu ministro também o esperava, embora ainda no quarto, e, claro, aguardando uma solução. Na falta dela, como seria de presumir, lá se iria a desejada promoção e o tal posto, uma sinecura simpática que prometera à sua mulher e que perseguia há muitos anos, como fim de carreira.

Que importava a qualidade dos dossiês técnicos, que a Embaixada tão bem tinha caprichado em trabalhar e apresentar, face ao drama do ministro? Que representavam anos de bons serviços, perante a presumível fúria ministerial, que o gáudio da comitiva iria potenciar?

Apesar da hora matutina, pouco propensa a rasgos, o nosso embaixador, olhando casualmente de viés entre os bancos da frente do seu Mercedes de serviço, a pedir uma substituição que o chefe da gabinete do ministro lhe assegurara na véspera, intui uma solução: nos pés do seu motorista. "Ó Arnaldo, que número é que você calça?". Surpreendido pelo intimismo do seu sempre reservado chefe, o Arnaldo responde: "40, senhor embaixador". E aí, pese embora o diferencial que a tragédia tornava irrelevante, o Arnaldo selou, em glória, o seu destino matinal: lá se ficou no carro, em peúgas, até ao regresso à Embaixada, depois da partida da comitiva presidencial.

Dizem-me que o ministro arvorou, nas despedidas, um ar grave e compungido, que alguns jornalistas - rapazes bem sagazes - levaram à conta da tensão entre o governo e o presidente, que os últimos meses tinham agravado. Ora a verdade, porém, era bem mais terra-a-terra.

segunda-feira, maio 11, 2009

Souvenirs, souvenirs

Tinha-o perdido de vista há muito tempo, pensava-o reformado, a tratar de netos. Afinal, chegado a França, dou-me conta que Johnny Halliday ainda mexe, vai no quinto casamento, inicia, em breve, "mais uma última tournée", já com lotações quase esgotadas, actuou no seu 25º filme (desta vez no Japão, queixando-se de quase não ter falas na fita, vá-se lá saber porquê...) e tem uma renovada biografia escrita pelo embaixador francês em Malta.

Apesar de alguns anos mais velho, Halliday é "um rapaz do meu tempo", um tempo em que tinha como namorada Sylvie Vartan e arrasava musicalmente a França e a concorrência, o que, em Portugal, acompanhavamos, com algum "voyeurisme" adolescente, através da leitura do "Salut les Copains". Nunca fui um incondicional: seguramente por defeito próprio, a sua canção de que sempre mais gostei era a versão francesa do "The House of the Raising Sun", aqui traduzida pelo "Le Pénitencier".

Halliday foi o émulo francês possível de Elvis Presley, mas, contrariamente ao cantor americano, a sua carreira teve escasso impacto fora do mundo francófono, onde, contudo, é um ídolo incontestado. Alimentou sempre um estilo de "bad boy", que vai bem com o seu tom de voz e a figura de roqueiro "blouson cuir", olhar castigador e moto à ilharga. Um dia, creio que em 1971, fiquei à porta de um concerto seu, em Bayonne ou Biarritz, à falta de bilhetes. Hoje, confesso, não tenho nostalgia suficiente para me bater por uma entrada num espectáculo para o ouvir.

Mérito

Há portugueses em lugares internacionais de que muito me orgulho de ser compatriota.

É o caso de Marta Santos Pais, que acaba de ser nomeada pelo Secretário-Geral da ONU como sua Representante Pessoal para a Violência contra as Crianças. Trata-se de uma reputada jurista portuguesa que, sem grandes alardes mediáticos mas com uma elevada competência, tem feito um magnífico percurso internacional, que muito honra o nome de Portugal.

Parabéns, Marta.

Diplojazz


Sei que alguns fantasmas históricos serão inclementes, mas decidi que um concerto de jazz era a melhor forma de hoje inaugurar uma série de espectáculos musicais nos salões da Embaixada em Paris.

À bateria do português Pedro Viana juntou-se, ao piano, a romena Ramona Horvath e o contrabaixo do franco-brasileiro Guillaume Duvignau para uma hora de jazz europeu e de outras partes do mundo, assistido por cerca de uma centena de convidados.

Ah! E os dourados não foram abalados, descansem...

Islândia

A Islândia anunciou que poderá, em breve, pedir a sua adesão à União Europeia. A grave crise por que passa aquele país terá demonstrado agora aos islandeses as virtualidades do processo integrador do continente e, em especial, a redução das vantagens da sua singularidade. De facto, e não obstante a gravidade da situação que ainda se vive por toda a Europa, a pertença à União, em especial ao euro, tem-se revelado, não apenas um importante factor de controlo da instabilidade, mas igualmente um modo dos países mais frágeis terem a sua voz melhor representada nas instâncias decisórias à escala global.

Será que a Noruega e a Suíça, no último caso reduzidas que foram as vantagens bancárias comparativas de que dispunha, acabarão por seguir por caminho idêntico?

Lembrar

Seria importante que os parceiros do G7 aproveitassem para lembrar publicamente a Trump que os palestinos de Gaza e da Cisjordânia não podem...