Foi há mais de duas décadas. Senti-me bastante mal, uma noite, durante uma peça, num teatro de Lisboa. Saímos a meio do espetáculo, para a urgência do Hospital de S. Francisco Xavier. Esperei na fila (eu que abomino filas!), alguns minutos. Não demorou muito a triagem. Fora o irritante “senhor Francisco”, com o qual nunca me reconciliarei, tudo se foi passando burocraticamente bem. Como a avaliação feita me não dava como doente prioritário, esperei mais de uma hora.
A certa altura, mandaram-me entrar para uma sala, onde havia vários doentes. Por alguns minutos, fui espetador involuntário de alguém a morrer quase ao meu lado, rodeado de médicos e enfermeiros. Vi que faziam o impossível para o salvar, mas o impossível, às vezes, não é mesmo possível. A cena, confesso, não ajudou muito ao meu estado de espírito e à taquicardia que trazia.
Chegou, finalmente, a minha vez. O “senhor Francisco” foi então atendido com frieza profissional, com o rigor necessário, embora sem uma simpatia por aí além. O veredito, após alguns exames mandados fazer, o que levou quase uma hora mais, e a administração de uma terapêutica imediata, foi simples: “O ”senhor Francisco” sofre apenas uma dose imensa de stress. Vai ter de descansar, em repouso absoluto, um mínimo de 48 horas, nunca menos, com esta medicação forte, que o vai pôr a dormir bastante”.
Respondi: “Não vai ser possível. Tenho de partir amanhã, à hora do almoço, num voo para o estrangeiro. Preciso assim de conselhos e de uma medicação que se adequem a isso”. O médico ficou irritado: “Mas o que é que o “senhor Francisco” faz assim de tão importante na vida que não lhe permita descansar, como lhe estou a recomendar?” A minha resposta desconcertou-o: “Não sei se a minha tarefa é importante ou não. Sou secretário de Estado dos Assuntos Europeus, está a decorrer a nossa presidência da União Europeia e tenho uma tarde de debate no Parlamento Europeu, depois de amanhã. Ninguém pode fazer isso por mim! Só isso!”.
O homem ficou siderado: “Ah! Mas é do governo? Ninguém nos avisou. E o senhor não disse nada!”. “Claro que não disse! Para que é que ia dizer? Fui tratado com eficiência e profissionalismo, por si e por toda a gente, desde a minha chegada ao hospital. Por que diabo tinha de dizer o que faço na vida?”, retorqui-lhe. Sorriu então, pela primeira vez, talvez estranhando o que para mim era muito óbvio. E as recomendações lá se adaptaram ao então apressado estilo de vida do ”senhor Francisco” (tenho ideia de que passei a ser tratado “senhor doutor”…) Imagino que esses conselhos devam ter sido os mais corretos: vinte e um anos depois ainda estou aqui a contar esta história de eficiência básica do SNS de então.
Teve muita sorte, dirão muitos. As coisas raramente se passam assim. Talvez. Eu falo por mim e por essa ocasião. Sem “cunhas”, sem furar filas (que odeio, repito!), sem revelar as funções oficiais que ocupava. Como sempre - repito, sempre - fiz em todo o lado, em toda a minha vida. Não sou da laia dos ”sabe com quem é que está a falar?” Mas quem achar que tem dados provar o contrário, faça favor: as linhas seguintes são suas.
