Quem, sendo viciado em livros, nunca optou por não resistir à tentação de prolongar a leitura de um volume encontrado numa estante de hotel, reservando-o para datas posteriores ao “check-out”? (Gostei de construir este eufemismo).
Tive um amigo que ia mais longe: colecionava bíblias encontradas nas gavetas dos quartos dos hotéis. E como viajava muito, as estantes lá de casa estavam atulhadas de sagradas escrituras, em diversas línguas. Quando lhe fiz notar que “não era bonito” esse tipo de prática, que assim privava os crentes, que viessem a ser hóspedes a seguir, de uma leitura espiritual para acabarem a noite em maior paz, retorquiu-me enxofrado: “E és tu, um consabido ateu, quem se preocupa com esta minha “recolha” de bíblias?”. Já não sei o que lhe respondi. Uma coisa é certa: nunca desviei uma bíblia de um hotel.
A questão de poder tomar como seus os livros alheios, perdidos numa estante sem critério, é um tema que releva muito do íntimo de cada um. E, porque é íntimo, não quero elaborar sobre ele.
Uma coisa é certa: com a oferta de leitura que me é proporcionada no quarto de um hotel em que estarei por estes dias, não corro o risco de cair na menor tentação.
