segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O incendiário vindo do Leste

O racista de Loures não é importante. Importante foi Passos Coelho e o PSD dele não se terem demarcado. 

Pedro Passos Coelho não é (obviamente) um racista, mas vive uma situação de desespero político que o leva, nos dias de hoje, a cavalgar, de forma oportunista, sentimentos que um verdadeiro social-democrata deveria rejeitar. E isso tem um nome, feio: chama-se populismo.

O que Passos Coelho disse no Pontal sobre a lei da nacionalidade não teria grande importância se isso não tivesse acabado por se somar àquela que parece começar a ser uma deriva filo-xenófoba de alguns setores dentro do seu partido. Ao dizer o que disse, no contexto que hoje se vive, o líder do PSD, que é tudo menos um ingénuo político, sabia bem o que fazia. E isso é que é muito grave. Como se prova pelo facto da imprensa ter corrido a sublinhar aquela sua declaração.

Só falta agora que um refugiado, ou um imigrante de Leste, surjam acusados por alguém - não, não é preciso haver provas ou ser condenado! - de terem ateado um incêndio. Esperem pelas redes sociais, pelo lixo aqui no facebook, pelos desbragados sob pseudónimo no twitter. É assim que estas coisas começam.

10 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Exacto. "É assim que estas coisas começam."

"C'est d'abord rumeur légère,
Un petit vent rasant la terre.
Puis doucement,
Vous voyez calomnie
Se dresser, s'enfler, s'enfler en grandissant.
Fiez-vous à la maligne envie,
Ses traits dressés adroitement,
Piano, piano, piano, piano,
Piano, par un léger murmure,
D'absurdes fictions
Font plus d'une blessure
Et portent dans les cœurs
Le feu, le feu de leurs poisons.
Le mal est fait, il chemine, il s'avance ;
De bouche en bouche il est porté
Puis riforzando il s'élance ;
C'est un prodige, en vérité.
Mais enfin rien ne l'arrête,
C'est la foudre, la tempête.
Mais enfin rien ne l'arrête,
C'est la foudre, la tempête.
Un crescendo public, un vacarme infernal
Un vacarme infernal
Elle s'élance, tourbillonne,
Étend son vol, éclate et tonne,
Et de haine aussitôt un chorus général,
De la proscription a donné le signal
Et l'on voit le pauvre diable,
Menacé comme un coupable,
Sous cette arme redoutable
Tomber, tomber terrassé."

Beaumarchais / Rossini.
 

Anónimo disse...

O senhor, ao usar o temo "racista" está a cair no mesmo comportamento radical e ridículo dos comunas que chamam "fascista" a qualquer um.

Racista, senhor, é uma coisa demasiadamente séria para ser chamada a qualquer um que aponte defeitos a um grupo.

Racistas, senhor, é aquilo que se viu recentemente nos EUA. Meter tudo no mesmo saco é um péssimo serviço que faz à democracia e ao bom senso (ainda que lhe valha elogios de amigos).

Anónimo disse...

Mas Maria João Avilez acha que ele é um homem de estado. Contudo, ela tem boas crónicas sobre as férias...

Anónimo disse...

Os outros andam a cerrar fileiras às entradas e nós andamos a escancarar as portas de uma forma inexplicável e incauta.

Não se poder expulsar quem não vem por bem e só faz desacatos não é democracia ou igualdade de direitos, é falta de sensatez e discernimento dado o estado em que se encontra o mundo.

Não se trata de xenofobia, trata-se da segurança do país que tem sido um dos nossos maiores trunfos para atrair turismo e investidores estrangeiros. Se vier a acontecer alguma coisa menos boa, depois de "casa roubada, trancas à porta". Pode é ser tarde!

A lei da nacionalidade aceita tudo e mais alguma coisa - uns simples três anos de matrimónio e vira-se português, mesmo sem que isso represente ter qualquer afinidade com o país.

Portugal é muito atrativo, pela segurança e por ser uma porta aberta para a livre circulação na Europa e a multiplicidade de países a que um detentor de passaporte português acede sem visto.

Joaquim de Freitas disse...

“Do anónimo de 15 de agosto de 2017 às 02:33 »
« Os outros andam a cerrar fileiras às entradas e nós andamos a escancarar as portas de uma forma inexplicável e incauta”.
“Não se poder expulsar quem não vem por bem e só faz desacatos não é democracia ou igualdade de direitos, é falta de sensatez e discernimento dado o estado em que se encontra o mundo.”

Estas duas frases levaram-me uns séculos para trás, os séculos de 1500, quando os Portugueses decidiram que para progredir e tornar o seu país maior e mais poderoso, era preciso procurar outras terras, afrontando os mares desconhecidos, de preferência, porque pela via de terra havia o poder de Castela a limitar esse sonho.

As portas dessas novas terras estavam “escancaradas” (os “incautos”!) e, quando não estavam, os canhões das caravelas abriam-nas. E os Portugueses instalavam-se e tomavam possessão dessas terras e dessas gentes em nome do rei de Portugal e dos Algarves…

““Não se poder expulsar quem não vem por bem e só faz desacatos não é democracia ou igualdade de direitos”, escreve o anónimo.

Nunca na história das nações, uma invadiu outra “por bem”.E quanto aos “desacatos”, transformar os habitantes dessas nações em escravos, impor-lhes uma nova religião, sob pena de morte se recalcitrantes, não eram realmente uma “igualdade de direitos” digna de fé.

Mas, como escreve o anónimo, era o “estado do mundo dessa época”
Quando “um poder mais alto se alevantava”, não havia matéria para discussão.

“Portugal é muito atractivo, pela segurança e por ser uma porta aberta para a livre circulação na Europa”, escreve o anónimo.
Pois é, como quando Portugal se instalava à porta do Mar Vermelho e do Indico, ou em Malaca, à porta domar da China…, construindo fortes e nomeando vice-reis, símbolo da dominação longínqua cuja cabeça se encontrava na Europa.

Uma caravela portuguesa tinha um passaporte universal: o canhão.

E foi assim, da África ao Brasil e à Ásia, para a grande glória de Portugal e o enriquecimento das suas elites.

Os séculos levaram com eles essa grandeza histórica, e o Império desmoronou-se. Os canhões calaram-se por falta de munições…

Hoje, são milhões de Portugueses que procuram entrar, (por vezes, noutros tempos, pelas portas das traseiras), nas outras nações, simplesmente para viver mais decentemente.

Imagino facilmente, porque fui um deles, se nas portas de Saint Jean Pied de Port, lá para os Pirenéus, o poder local tinha implementado uma lei, por “sensatez e discernimento dado o estado em que se encontra o mundo”, impedindo a entrada, pela força se necessário, de todos desses indivíduos de quem não se sabe se vêm por bem, ou para fazer desacatos neste país de França. Porque, depois de "casa roubada, trancas à porta". Pode é ser tarde!

E qual teria sido a vida daquelas centenas de milhares de Espanhóis, que, no fim da guerra civil, fugindo à barbaria fascista de Franco, passaram pelas portas “escancaradas” dos Pirenéus.

Joaquim de Freitas disse...

Esta frase ficou do outro lado da página:

Talvez porque eu e os meus fizeram parte daqueles que bateram à porta desta grande Nação de França, há mais de meio século, por razoes muito similares, tenho uma certa compreensão e participo na minha comuna num movimento de ajuda àqueles que cá chegam em bem mau estado. E tenho a certeza que nunca lhes daremos tanto como o que nós, os Europeus, lhes roubamos.

Anónimo disse...

É pena que o Freitas, já que se acha parte de um bando de ladrões, não se vá entregar à polícia de um dos povos "roubados". Seria digno de se ver...

Joaquim de Freitas disse...

Caro anonimo das 14 :16 :

Creio que os Portugueses já pagaram bem com os decénios ou séculos de prisão que acabaram em 1974. Da Historia gloriosa e das riquezas fabulosas restam alguns mosteiros, catedrais e igrejas , e uma imensa nostalgia de grandeza, que agora comparamos à nossa classificação na cauda do desenvolvimento das Nações que outrora também “ganharam novos mundos”, na nossa esteira.

Dos gloriosos descobridores e propagadores da fé cristã, restam pedaços dispersos na carta do mundo, e também milhões de emigrantes que procuraram e ainda procuram hoje, mesmo nas antigas colónias onde agora mandam os “indígenas” de ontem. os meios para viver uma vida decente, e um futuro, que a velha Casa Mãe não soube preparar , apesar das grandes riquezas pilhadas em cinco séculos. Talvez porque o maná não foi bem distribuído, vivem hoje à sombra da comunidade europeia e do crédito.

Um dia fui visitar a catedral de Burgos, e ao contemplar a carroça real dos Reis de Espanha“grandeur nature” fabricada em prata maciça, e conhecendo o “preço” dessa carroça em vidas humanas, as dos escravos Índios das minas de Potossi, pensei que os Europeus nunca conseguirão limpar a sua consciência de todo o sofrimento infligido para tudo isso.

Vem-me ao espírito, o livro de Saramago sobre a história do Mosteiro de Mafra (Memorial do Convento). E do preço…do milagre do rei D.Joao V°….

Anónimo disse...

Caro Anónimo das 14:16,

O Freitas faz parte dos bravos de bancada! :-)

Anónima das 02:33/15 de agosto de 2017

Joaquim de Freitas disse...

anónima 16 de agosto de 2017 às 23:38

Cara anónima:-

Freitas , fez aquilo que devia fazer nos anos da juventude, participando nos movimentos de resistência contra o fascismo que esmagava Portugal. E não foi nas bancadas. Acompanhando no seu combate Mulheres de valor, como Virgínia Moura e outras, que não tinham um ecrã para se proteger no anonimato e que não se contentavam de publicar argumentos ineptos como o seu.