Há dias, ao passar pelo Mindelo, marco da luta liberal-absolutista no século XIX, recordei-me que, precisamente na véspera, falara com amigos brasileiros sobre a mútua imagem de dom Pedro - o dom Pedro I do Brasil e o dom Pedro IV de Portugal. E na nossa diferença de perspetivas sobre a figura.
Bastou-me viver uns anos no Brasil para perceber que o modo como o autor do "grito do Ipiranga" é por lá visto contrasta, em muito, com a imagem que ele iria deixar na memória portuguesa.
Por cá, talvez influenciados pelo dramatismo da guerra civil e pela seriedade dos retratos pintados, dom Pedro surge-nos como uma figura serena, mobilizada por ética liberal, disposto a tudo para consagrar a prevalência de uma nova ordem constitucional sobre o "antigo regime", representado este pela boçalidade política do seu irmão.
Para o Brasil, dom Pedro é, pelo contrário, uma personalidade frenética, inconstante, furioso na sua devassidão romântica, politicamente ciclotímico, um quase agitador. Há excelente bibliografia sobre o primeiro imperador brasileiro que, sem exceção (creio), sublinha esse seu caráter.
Esta dualidade foi, para mim, algo surpreendente e muito curiosa nos seus pormenores. De certo modo, ela mostra que as figuras marcantes deixam perceções que radicam sempre no papel diferenciado desempenhado, face ao destino particular dos povos, pelos condutores de turno do comboio da História de cada um.
Não tive coragem de contar aos meus amigos brasileiros, que tinha levado a ver as festas da Senhora da Agonia, a anedota que correu em Portugal, nos meios que se empenhavam em caçoar sobre Américo Tomás, ao tempo em que o presidente português fez uma celebrada viagem oficial ao Brasil, em 1972, para oferecer aos brasileiros os restos mortais de dom Pedro. A acidez crítica da "vox populi" atribuía a Tomás, como é sabido, uma baixa qualidade intelectual, muito por via da imagem que o velho almirante projetava no inenarrável património de discursos públicos que nos deixou. Nesta cruel apreciação, ficou então famoso o imaginário diálogo entre Gertrudes Tomás e o marido: "Américo, por que razão nós, em Portugal, dizemos dom Pedro IV e os brasileiros chamam dom Pedro I?". O almirante, a quem a lenda pública atribuía (um tanto injustamente, ao que se sabe) a tal simplicidade mental, teria respondido: "Ó mulher, é fácil. São os fusos horários diferentes..."
