Há quantos anos não vou à Festa do Avante! No seu início, esta "feira popular" dos comunistas portugueses, que copiava o modelo italiano do L'Unità e francês do L'Humanité, convocou a curiosidade de muita gente, muito para além dos comunistas. Havia livros e discos com desconto, arte a preços convidativos e uma oferta de gastronomia regional que, somada aos espetáculos, atraía (e julgo que ainda atrai) pessoas de várias orientações políticas.
Nos primeiros anos a seguir ao 25 de abril a novidade levou-me por lá, a uma meia dúzia de edições. Numa delas fui com o meu amigo Alfredo Magalhães Coelho, um homem cordial, divertido e com imenso sentido de humor. A certo ponto do percurso pelas tasquinhas, pedimos dois copos de vinho, talvez para "olear" duas sandwiches de panado. O "camarada" que nos serviu foi parco na quantidade do líquido, deixando uma boa parte por encher. O Alfredo indignou-se logo:
- Ó camarada. Então aqui também há exploração do homem pelo homem? Então não se enchem os copos? Sabe como se chama a diferença entre o vinho que colocou e o copo cheio?
O homem, coitado, não sabia e ficou atrapalhado. O Alfredo, forte do seu conhecimento de economia marxista, esclareceu:
- É a mais-valia, camarada. Já o grande Marx ensinava. Ora ateste aí a mais-valiazinha que está a faltar!
E lá bebemos nós o copo bem cheio, de um vinho que, afinal, era uma zurrapa. Afinal, mais valia o Alfredo não ter protestado.
