sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Coreia

Foi bastante mais significativo do que, à primeira vista, se pode pensar o voto unânime do Conselho de Segurança da ONU que impôs sanções acrescidas à Coreia do Norte, em condenação pelos recentes lançamentos balísticos e atividades conexas de natureza militar. Ver a Rússia e a China a votar ao lado dos EUA, França e Reino Unido foi a prova clara de que a atividade do regime norte-coreano é vista como gravemente desafiadora da paz internacional.

Nos últimos anos, a Coreia do Norte contou com alguma complacência da China e da Rússia, mas apenas porque estes seus vizinhos temem, não sem razão, que um colapso do regime, nomeamente por via militar, possa vir a desequilibrar geopoliticamente a região, conferindo novos avanços estratégicos aos EUA e abrindo caminho a uma reunificação sob o "template" político da Coreia do Sul. A China, em especial, não permitirá nunca que o futuro da península coreana passe a ficar dependente, na totalidade, da tutela americana – hoje sob uma administração tão “respeitadora” da autonomia de Seul que até agora ainda não encontrou tempo para nomear um embaixador para o país.

Mas é também muito evidente que, para a China e a Rússia, é altamente desconfortável ver nascer um novo poder nuclear, ainda por cima titulado por um regime imprevisível, no seu "near abroad".

Se este mal-estar já era muito óbvio, ele não se atenuará ao observar a escalada que está montada entre Washington e Pyongyang. É que de ambos os lados desta trincheira verbal estão duas personalidades, dotadas de um poder quase absoluto sobre a movimentação das suas máquinas militares, que não auguram nada de bom em matéria de uma serena ponderação das suas decisões.

O mundo que viveu duas guerras, e em particular aquele que atravessou uma Guerra Fria, em que os dois lados da equação eram potências de capacidade equivalente, que se anulavam pelo mútuo temor, não contava com este potencial conflito, cuja simetria se apoia apenas no jingoísmo e na bravata.

O que é mais angustiante, na perspetiva da Comunidade Internacional que observa este “ping-pong” de ameaças, é o papel quase marginal do mundo multilateral, em especial das Nações Unidas, reduzidas à tarefa de promotor de medidas económicas constrangentes e com uma voz inaudível no tocante às questões de onde podem depender as vidas de milhões de pessoas. 

Se as condições, na sua política interna, estivessem reunidas de forma favorável, os EUA teriam aqui uma oportunidade soberana para fazer reganhar à ONU a sua centralidade. Mas não estão, pelas razões que todos sabemos e perante as quais se torna ainda mais evidente a nossa impotência.

(Artigo hoje publicado no "Jornal de Notícias")

5 comentários:

Anónimo disse...


Há uma coisa que ainda não percebi: Será o chefe da Coreia do Norte cretino o suficiente, para não perceber que se ele carregar o botão vermelho também irá ele despareceber mesmo que tenha muitos "bunkers". Se assim for não há de facto nada a fazer. É aguardar.
Ainda talvez se pudesse isolar toda a Coreia do Norte do resto do mundo das comunicações e relações financeiras internacionais. Tornar aquele país numa espécie de país pária e infrequentável. Talvez assim os Norte Coreanos percebessem.
Não sei se isto seria a primeira vez que acontecia mas podia-se assim dar um exemplo a este mundo globalizado.
Desculpem-me mas já ando um pouco farto da Coreia do Norte e as especulações sobre isto.

Reaça disse...

E nisto tudo, a Europa sem qualquer voz activa ou respeitada.
Pudera, fez duas Grandes Guerras e perdeu ambas!
Tristeza...nem a ela se vale!

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor Embaixador disse tudo quando escreve : « Nações Unidas, reduzidas à tarefa de promotor de medidas económicas constrangentes e com uma voz inaudível. “ e, “os EUA teriam aqui uma oportunidade soberana para fazer reganhar à ONU a sua centralidade.
Se em vez de “reganhar” tivesse escrito “ esganar” seria mais justo.
A ONU, desde sempre, e mesmo quando foi decidido de construir o edifício em Manhattan, esteve às ordens dos EUA e nunca o contrário.
“Delenda est Cartago , foi a frase que repetia Catão o Antigo no fim de cada discurso no Senado. O que queria dizer, que era preciso destruir Cartago. Destruir no ovo todo poder que não obedecesse às ordens de Roma.
E para demonstrar que havia urgência, Catão tinha trazido um figo de Cartago aos senadores, para lhes mostrar como Cartago, finalmente estava próximo de Roma… Por conseguinte, “seria bom que Cartago fosse destruída” … E foi.
Era uma ideia fixa. Foi assim para o Vietname, para o Iraque (onde o figo se transformou em frasquinho de ADM de Colin Powell), para a Síria, para o Irão, da parte dos imperadores sucessivos dos EUA. E seria para a Rússia e para a China, se Roma tivesse o poder necessário para os afrontar.
Então, o Catão moderno, de férias por três semanas, através dos seus “tweets” e entre duas partidas de golfe, ameaça potências inferiores. Mas que podem morder, porque hoje não é com elefantes que se faz a guerra mas com mísseis IBCM dotados de cabeças nucleares.
Este louco de Washington, ameaça o mundo inteiro.
E à ONU Senhor Embaixador, o louco em delírio, responde hoje: “
« Temos várias opções para a Venezuela, incluindo uma possível opção militar ».
“Temos tropas no mundo inteiro que estão por vezes longe. A Venezuela não é muito longe e as pessoas sofrem e morrem”. Que pena que não conheça Gaza. E Palestina …
Esta da “temos tropas no mundo inteiro” devia fazer reflectir a Geringonça…Se por acidente descobrimos petróleo nos Açores…
“Delenda est Lusitani” ?

Joaquim de Freitas disse...

Anónimo de 11 de Agosto de 2017 às 14 :12

Quando escreveu “Será o chefe da Coreia do Norte cretino o suficiente, para não perceber que se ele carregar o botão vermelho também irá ele desaparecer…”

E acha que o cretino da Casa Branca e o país que ele representa não é o que ele faz desde o fim da segunda guerra mundial, no mundo inteiro? Quer a lista? Vá ao Google , e escreva invasões militares americanas no mundo…

Em contrapartida faça a mesma pergunta para a Coreia do Norte.

Quanto ao seu conselho de “tornar aquele país pària e infrequentàvel” : E se o aplicasse ao agressor USA?

Joaquim de Freitas disse...

Caro Reaça : Desculpe por favor : A qual Europa se refere ? à que está ocupada pelas tropas da NATO, da ilha do Faial à Ajouter au dictionnaire, Turquia, Roménia, Bulgária, Eslováquia, Tchéquie, Estónia, Letónia, Lituânia, Hungria, Áustria, Kosovo, Itália, Alemanha, Reino Unido, etc.….?