Hugo Chávez morreu. Lula da Silva necessitaria de um milagre para ressuscitar politicamente. Deixo aqui um episódio dos dois.
Um dia, um importante ministro brasileiro, que acompanhou Lula numa das suas frequentes visitas a Caracas, contou-me uma história significativa que era bem reveladora do pensamento íntimo de Chávez.
Numa conversa em Caracas, Lula fazia notar a Chávez que os ganhos do Brasil, no seu comércio com a Venezuela, eram exponenciais. O Brasil nunca lucrara tanto nos seus negócios no país, nunca a balança comercial lhe fora tão favorável. E, no entanto, "com amizade", afirmou que o Brasil não se sentia bem nessa relação tão desequilibrada, em grande parte devida à ausência de um setor produtivo venezuelano que se pudesse desenvolver e criar produtos essenciais à satisfação de áreas essenciais, nomeadamente no domínio alimentar. O Brasil estaria disposto a ajudá-lo nisso, na criação de empresas industriais que pudessem substituir importações e reforçar a produção industrial venezuelana.
Chávez olhou para Lula, percebeu a genuinidade do gesto e adiantou: "Tens razão! Já tinha pensado nisso e tenho um grupo a estudar a criação de um conjunto de empresas estatais dedicadas a vários setores de produção de produtos essenciais". O presidente brasileiro deu um salto na cadeira: "Eu queria dizer empresas privadas, não empresas estatais!" Foi a vez de Chávez se alarmar: "No, privadas, jamás!" Para logo acrescentar: "Os privados ligam-se logo à reação contra mim!".
Era assim Chávez. Era assim Lula.
