sexta-feira, setembro 09, 2016

A minha Europa


Há dias, Jaime Gama disse do seu desagrado por ver setores políticos portugueses a assumirem um discurso negativista sobre a Europa, apelando à reconstituição do “arco europeu”, que assegurou a vontade para a integração e a mobilização para as três décadas de presença portuguesa no projeto. Com a autoridade de quem teve responsabilidades em momentos decisivos desse percurso, Gama sublinhou as virtualidades políticas do processo integrador e algumas das imensas vantagens que Portugal dele retirou.

Gama tem toda a razão e, olhando, mesmo que com uma frieza isenta de qualquer idealismo, para o leque das opções que Portugal tem perante si, em termos de inserção geopolítica, parece-me evidente que um projeto europeu é o único que, num prazo que vai até onde a nossa visão estratégica alcança, melhor defende os interesses portugueses.

Articular essa inserção europeia com a vertente atlântica e a dinamização possível do espaço lusófono, onde a proteção da diáspora se deve integrar, com o nosso particular olhar histórico para a África e o “Sul” em geral, sustentar a credibilidade que criámos na vida multilateral, terreno por exemplo essencial para uma “diplomacia do mar”, bem como aproveitar a nossa vocação de “honest broker” e de “produtor de segurança” através das nossas Forças Armadas – eis um programa de ação externa em que nos deveremos empenhar.

Mas voltemos à Europa, a qual, aliás, nos ajuda a potenciar muitos dos vetores da agenda atrás sintetizada. Costumo dizer, para arrelia de alguns, que sou tão europeísta quanto os interesses de Portugal o justificarem. Porém, repito, não dispensando o exercício de algum controlo nacional sobre a soberania partilhada no quadro europeu, não tenho hoje a menor dúvida de que é aí que os nossos interesses, enquanto país, melhor são defendidos. Creio que era a essa Europa que Jaime Gama se referia. Só que pode haver outras.


Como português, não sou europeísta de “qualquer Europa”. Se a Europa vier a transmutar-se num modelo de gestão centralizada, desigualizadora na proteção dos interesses dos diversos povos e Estados, um grande mercado monetário policiado pelo veto financeiro de alguns e desmunido de políticas fortes de solidariedade, assente numa matriz que garante a riqueza a uns pela persistência da falta de bem-estar de outros – essa não é a minha Europa. Não sou pela Europa “do mal o menos”, nem acho que Portugal deva assumir uma vocação europeia apenas “by default”. Somos um país que deve defender a preservação da democracia como elemento identitário dentro da Europa mas, igualmente, que deve bater-se para que a Europa seja, ela própria, regida por regras transparentes, democráticas, que preservem o princípio da igualdade soberana dos Estados. Essa é a minha Europa ou, para ser mais claro, é apenas a esse europeísmo que adiro – e não a qualquer outro.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

8 comentários:


  1. um texto muito bom Sr. Embaixador :)
    temos de gostar uns dos outros !

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  2. Reaça09:50

    Portugal será Lusexit, e já não haverá UE.

    Tal como fomos o último a descolonizar em África, será o último a ser descolonizado na Europa.

    Somos sempre os últimos a abandonar, imagine-se que ainda teremos o único partido marxista-leninista, mesmo após Fidel Castro que ainda quer festejar o seu aniversário aos 100 anos.

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  3. Só posso concordar consigo. Contudo, o pendor hipotético da parte deste artigo parece-me um tanto anacrónico. A meu ver, estamos já numa exponencial Europa assente num "modelo de gestão centralizada, desigualizadora na proteção dos interesses dos diversos povos e Estados, um grande mercado monetário policiado pelo veto financeiro de alguns e desmunido de políticas fortes de solidariedade, assente numa matriz que garante a riqueza a uns pela persistência da falta de bem-estar de outros".
    E é também basicamente por estas razões que eu não gosto desta União Europeia.

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  4. Ao Reaça, 9/9 09:50




    Quando o bolchevismo apareceu num dos países com regime mais retrógrado da Europa, em 1917, o capitalismo europeu reagiu violentamente para impedir a sua fixação e a sua expansão ulterior noutros países.
    O capitalismo triunfante levou finalmente a Europa 20 anos mais tarde para um dos maiores genocídios de todos os tempos = 60 milhões de mortos.

    Desde o fim desta guerra, o capitalismo não cessou de destruir povos e nações, pelo mundo inteiro.


    Uma vez o muro de Berlim e a URSS derrubados, e o comunismo vencido, o capitalismo continua na sua marcha triunfante para a destruição do que resta dos valores da humanidade, sempre com o mesmo objectivo: a hegemonia mundial.

    Mas finalmente, qual é o verdadeiro objectivo do capitalismo? Derrubar o marxismo que já não existe desde há muito ou implementar uma nova ordem mundial na qual o homem é uma matéria descartável, que só existirá como auxiliar da máquina?

    Nem o comunismo nem o capitalismo pode satisfazer o homem, porque ambos lutam pelo TER, enquanto o que torna o homem feliz é o SER ...

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  5. Anónimo13:22

    Sim, porreiro, tudo bem. Mas o antigo duo das Necessidades achava mesmo que com os tratados e moeda que desenharam e construíram se garantia mesmo isso tudo para Portugal ou acham que se chegou ao lugar onde estamos por uma via natural, mesmo física, sem intervenção humana?

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  6. Anónimo16:53

    Ainda me recordo nos primeiros tempos das discussões sobre a nossa integração de Portugal na U.E. de ouvir, uma certa esquerda nessa altura em Portugal, dizer: Mas se a Europa nos quer lá que nos paguem para nós fazermos parte dela. Enfim...
    Como os tempos mudam....

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  7. Reaça18:09

    Ao Joaquim de Freitas

    Eu como Reaça, não quero saber do capitalismo nem do comunismo.

    O que quis dizer é que somos conservadores, somos os últimos a mudar, vamos sempre lutando contra os "ventos da história".

    Já no tempo do meu ídolo, já ele repousava em Santa Comba, e só passados alguns anos é que vimos que já não era ele que mandava.

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  8. Caro Embaixador,
    Lendo o último parágrafo, pergunto-me: é a Europa [a UE] um modelo de gestão descentralizada? É a UE igualizadora na proteção dos interesses dos diversos povos e Estados, como por. ex. na Grécia, ou em Portugal? É a UE [a UEM] um mercado monetário não policiado pelo veto financeiro de alguns e munido de políticas fortes de solidariedade ....etc......
    Concordo, também não sou europeísta de “qualquer Europa”. Mas pergunto: que fazemos nós nesta Europa do exclusivo poder dos mais fortes?

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