Nunca esqueço um conselho que, há muitos anos, recebi de António Guterres: "Cuidado com as entrevistas: a sua pior frase será sempre o título".
Lembrei-me isto ao ver a "esparrela" em que o ministro das Finanças, Mário Centeno, caiu, ao ser perguntado sobre um possível novo "resgate".
A técnica utilizada neste caso "tem barbas" e, em Portugal, há dois ou três jornalistas "especializados" no truque. Lembro-me, em particular de um, que fazia entrevistas num semanário e que era useiro e vezeiro no "golpe". É muito simples. Imaginemos que se trata de uma qualquer figura do Porto, à volta de quem surgem rumores de que tem ambições a nível nacional. A meio da entrevista, por exemplo depois de ele falar do conforto da vida no Porto, surge, como quem não quer a coisa, a pergunta: "Vê-se a viver em Lisboa?". A resposta normal é: "Sim, porque não?". O título do jornal, pela certa, é "Vejo-me a viver em Lisboa". Isto dá logo origem a especulações por parte do leitor, do género "Ah! Afinal o tipo sempre tem intenções de vir para Lisboa! Eu bem dizia!". Esta é uma vigarice jornalística típica.
Que Mário Centeno tenha caído nela, é normal, acontece aos melhores. O que já é menos normal - ou, se calhar, conhecendo-os, é - é o facto de figuras com responsabilidades políticas, sabendo que uma polémica em torno deste tema pode ter consequências graves nos mercados, serem vistas a especular o assunto em registo de baixa chicana. Honra seja feita a Maria Luís Albuquerque que, numa entrevista ao "Jornal de Negócios" disse, sobre o assunto, o que precisava de ser dito, sem deixar de marcar as suas discordâncias.
