O ministro Manuel Heitor teve a coragem de pôr o dedo na ferida: não há más praxes nem boas praxes. A praxe é uma prática discriminatória, reveladora de uma espécie de desforço por parte de quem se quer vingar daquilo que terá sofrido no passado, instituindo uma ridícula hierarquia entre os alunos, tudo disfarçado numa falsa medida de integração. Os praxistas são, em geral, uns sadicozinhos que se aproveitam circunstancialmente de uma suposta "autoridade" etária ou similar para humilharem os outros. Há alunos que gostam de ser praxados? Claro que sim, como há quem deseje masoquistamente ser açoitado ou humilhado, o que, as mais das vezes, justificaria uma oportuna consulta psiquiátrica.
Um dia, quando era presidente do Conselho Geral da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, suscitei nesse âmbito a questão das praxes. Apenas um professor levantou a sua voz para apoiar o meu repúdio sobre aquela prática. Vou ser muito claro: as praxes persistem, não porque sejam inevitáveis (hoje, só existem em Portugal e Espanha, estando proibidas no mundo civilizado, de que assim nos auto-excluímos), mas porque há uma muito generalizada cobardia por parte das autoridades universitárias, extensiva a muitos professores, que não querem passar pelo incómodo de "comprar uma guerra" com os estudantes. Bastaria ter o bom senso de incluir nos regulamentos universitários a proibição absoluta da praxe, assumida como gratuita violência, disruptora e punível da disciplina académica, afastando liminarmente das universidades os estudantes comprovadamente envolvidos na sua organização (começando por interditar a sua prática dentro das instalações) e, em poucos anos, podem crer, as praxes desapareceriam. É que os energúmenos que se dedicam a esses vícios de autoritarismo cedo acabariam por verificar que seus títulos de "dux veteranorum", e outras designações ridículas de corruptelas latinas, lhes serviriam de muito pouco quando tentassem arranjar trabalho sem qualquer diploma.
Manuel Heitor, ministro da Ciência e do Ensino Superior, pessoa que praticamente não conheço, é alguém que honra o exercício da política neste país.
