segunda-feira, junho 22, 2015

Uma carreira diferente


Começaram no passado sábado as provas de acesso à carreira diplomática.

Um cidadão acaba o seu curso superior. No final, com cerca de 2000 (não leram mal, é o número deste ano!) e tantas outras pessoas nas mesmas condições, resolve apresentar-se ao mais exigente concurso que existe na função pública portuguesa - a uma imensa distância de todos os outros! Desta feita, entrarão 25! 

Começa por ser sujeito a uma prova eliminatória de cultura geral. Depois, faz exames escritos de português e inglês. Vê muitos dos seus colegas eliminados, pela obrigatoriedade de não terem menos que 14 valores no uso escrito da nossa língua. 

Começa em seguida um calvário temático, para o qual se preparou longos meses: Relações internacionais, História e história diplomática portuguesa, Política económica e Relações económicas internacionais, Direito internacional e Direito da União europeia. Provas escritas sobre aqueles temas, num cruel sorteio. 

O universo dos competidores vai-se entretanto reduzindo. Seguem-se os exames orais, igualmente sobre esses temas, sob o escrutínio de professores universitários da especialidade. Ficam agora umas escassas dezenas de candidatos.

Entretanto, passaram já alguns meses. Suspenderam-se as profissões, as famílias têm-nos em casa em "part time". Falta uma última prova, decisiva, a entrevista profissional. Meia hora de exigente escrutínio. Eliminatória, como as anteriores. E, no termo desse penoso processo, 25 são admitidos na carreira diplomática.

Entraram para a carreira? Não necessariamente. Se, ao final de dois anos, não forem dado "confirmados", por serem dados como "não aptos", recebem um agradecimento pelo serviço prestado e vão ter de ir à procura de novo emprego.

Os admitidos vão começar a subir as várias categorias da carreira. Iniciam-se como adidos de embaixada, passam a secretários de embaixada e, decorrida que for mais ou menos uma década, podem fazer concurso para ascenderem a conselheiros de embaixada. Nove ou dez anos mais tarde - isto é, com cerca de vinte anos de percurso profissional, podem vir a ser promovidos a ministros plenipotenciários. A partir desta categoria, já podem vir a ser designados para chefiar embaixadas, começando normalmente por postos mais pequenos e mais difíceis - em condições de vida, de segurança, etc. Quando, em média, tiverem feito 26/27 anos de carreira, alguns (muito escassos) podem, finalmente, ter hipóteses de ascender aos menos de 30 lugares da categoria última, o "generalato": podem ser nomeados embaixadores (ditos "full rank" ou "de número"). Só muito poucos conseguem aí chegar.

Entretanto, nas duas décadas que levam de "casa", já saltitaram por várias embaixadas e consulados, muitos viram os cônjuges ter de abandonar as profissões para os acompanhar, os filhos tiveram de saltitar de escola em escola, ou ficaram em Lisboa, onde os diplomatas têm sempre de manter uma segunda casa, para os períodos que passam nas Necessidades.

É uma profissão exigente, dura e competitiva. Mas servir o país no exterior é uma imensa honra.

11 comentários:

  1. Anónimo19:37

    Já saíram os resultados da primeira prova, e são uma razia. Dos cerca de 1700 candidatos inscritos só sobraram 176 ( 159 homens e 17 mulheres ).

    Luís Quartin Graça

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  2. Anónimo19:50

    Não é fácil, não! E será que vale a pena? É uma vida de saltimbanco e muito exigente para os poucos que são apurados.

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  3. Caro Francisco
    Tem toda a razão. Em cada linha do seu texto vi as "cruzes" pelas quais o meu irmão mais velho passou. E é de facto uma honra servir o país.
    Não fossem as malvadas proibições feitas às mulheres do meu tempo e eu seria hoje diplomata. Não sei se teria sido mais feliz, mas que talvez me tivesse libertado de alguns incómodos, isso, teria certamente!

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  4. Anónimo21:47

    Mas só 800 compareceram à prova. O último concurso foi uma razia maior, de 1000 candidatos que foram à prova sobraram cerca de 40.

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  5. Anónimo22:18


    Sr. Embaixador
    os emigrantes também fazem esses percursos com mulheres e filhos à espera, depois deslocações, saudades do país, filhos a mudar de escola...
    também à sua maneira servem o país
    seria uma grande felicidade que os consulados lhes dessem apoio a tempos e a horas, inclusive aos luso-descendentes que têm maiores dificuldades por não conhecerem as leis do país

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  6. Anónimo00:06

    Caro Anónimo das 22.18:

    Os diplomatas também são emigrantes!

    Agora, "saudades do país" ? Nem pensar.

    Têm saudades é do exterior, quando são obrigados a passar cá umas temporadas.

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  7. Anónimo03:20

    Dita-me a 'velha senhora' quadras soltas de S. João, informando que dedica a última à sua amiga Helena Sacadura Cabral:

    a minha velha ternura
    pra com homens da carreira
    por meu mal ainda dura
    mas nenhum há que me queira

    perdura a saudade boa
    ser feliz nunca é em vão
    só que a idade não perdoa
    as coisas são como são

    também quis ser diplomata
    o ditador não deixou
    mas se de servir se trata
    serve a médica que sou

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  8. Cara Velha Senhora

    Já o mesmo eu não direi.
    Estudei economia
    Porque acreditei
    Que um dia ela salvaria
    O pais onde nasci
    Esqueci,
    tonta que sou,
    Que a politica é que comanda
    Aquilo que a economia inventou.

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  9. Anónimo12:09

    Caro anónimo das 00h06,

    Os diplomatas são emigrantes de luxo.
    Em nada se comparam, em privilégios e regalias, ao emigrante que sai de Cabeceiras de Basto com "uma mão à frente e outra atrás" à procura de sustento para a família. Curiosamente, os diplomatas só se assemelham a esses compatriotas quando, lá fora, perante um evento que evoca a pátria, se envolvem, emocionam e aglutinam à volta do nome de PORTUGAL.
    Não concordo que não tenham saudades do país.
    Eu, pelo menos, tenho.

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  10. Anónimo15:07

    Alguém sabe no que consistiu a prova de cultura geral?

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  11. Anónimo23:30

    Pelos vistos alguém a publicou... A prova pode ser consultada aqui:
    https://ntpinto.files.wordpress.com/2015/06/prova-cultura-geral.pdf

    a) um candidato

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