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terça-feira, junho 16, 2015

Direita(s)

Há dias, publiquei no JN um artigo, que aqui já reproduzi, em que adiantava a ideia de que uma certa direita portuguesa não conseguiu, até hoje, fazer o "luto" da ditadura e tende a desculpar esta última sempre que pode. Com isso, facilita a que a esquerda mais radical teime em identificar toda a direita, em bloco, com esses tempos, o que faz com que esta tenda a evitar auto-qualificar-se como tal, como seria normal numa sociedade democrática. Enquanto o salazarismo continuar a ser desculpabilizado, enquanto a repressão de décadas e os crimes da Pide forem considerados coisas de somenos, enquanto se mantiver o discurso nostálgico sobre "os bons tempos" da ditadura e sobre os tempos coloniais - isto é, enquanto a direita democrática não tiver a coragem de dizer, alto e bom som, que, tal como a esquerda, repudia esse passado autoritário do país, a sua "diabolização" continuará a ser possível. 

Noto que, em França, a direita democrática denunciou sempre a extrema-direita, repudiou Vichy e foi de grande severidade para com o colaboracionismo. E não há nela laivos de saudades da "Algérie Française", sem deixar de saudar a memória de todos quantos, em qualquer circunstância, combateram pelas cores da bandeira nacional.

Por cá, mal se fala dos crimes salazaristas, saltam logo a terreiro os fantasmas "equiparadores" do comunismo e do estalinismo: ora em Portugal houve 50 anos de ditadura de direita e pouco mais de um ano de tentativa antidemocrática de esquerda. Comparar ambas as experiências é apenas desonesto.

Ontem, coloquei aqui uma foto de uma mesa em forma de suástica, ornada com a simbologia nazi e da ditadura portuguesa. Tratava-se de um jantar, promovido em Setúbal em 1938, para acolhimento de uma organização nazi. 

Logo surgiram, no blogue e no Facebook (neste caso em comentários a partilhas feitas por leitores), esfarrapadas justificações, tentando defender que aquele tipo de eventos seguramente tinha sido feito à revelia do regime salazarista, que à data "ainda não havia nazismo", que tudo se deveria a uma iniciativa de Rolão Preto e dos seus nacional-sindicalistas (que já estava há três anos exilado em Espanha...). Embora todos saibamos (ou devamos saber) que só por má fé se pode argumentar que, num sistema tão controlado como era o do Estado Novo de então, uma iniciativa como esta podia surgir espontaneamente, configurando uma linha ideológica em que a ditadura se não revia.

Alguma direita portuguesa, de facto, não tem emenda e, com este seu comportamento, ajuda ao "guetto" em que alguma esquerda quer fazer acantonar a verdadeira direita democrática. E enquanto esta se não distanciar da primeira, isolando-a, denunciando-a e "exorcizando" as memórias da ditadura, não há muito a fazer. Mesmo com cravos na lapela um dia por ano.

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A minha conversa semanal com Jaime Nogueira Pinto, no "Olhe que não, olhe que não", começou na crise da imprensa em papel mas, com...