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quarta-feira, junho 03, 2015

Saudades do Gastão


Foi em Paris. Era quase meia noite. Eu tinha passado por casa desses meus amigos para o que pensava ir ser uma conversa breve e que, afinal, acabou por se prolongar. E o dia daquele casal começava sempre mais cedo do que o meu.

O Gastão, o velho cão da família, nunca me havia dado grande confiança, sempre que eu ia lá a casa. Aturava as festas que eu lhe fazia com aquele ar solene que os porteiros dos hotéis de luxo dedicam a qualquer visitante com um rendimento abaixo do Bill Gates. Essa noite não foi exceção: o Gastão, que descera as escadas para me aguardar à porta, ignorou-me depois olimpicamente, deixando-se ficar no tapete do corredor, lugar de guardião imponente da casa que era a sua predileção. Mas só até certa altura. Num determinado momento, ia já alta a conversa, o Gastão fez a sua entrada na sala. De início, não saiu da soleira da porta, onde estacou por uns minutos. Porém, Logo depois, começou a aproximar-se de mim. Estaria interessado no que eu estava a dizer? Mas não havia da sua parte o sinal da menor agressividade. Estava ali, mirando-me, à medida que eu falava. Não olhava para mais ninguém da casa, só para mim, para o único visitante. Ia-se aliás aproximando cada vez mais, já quase não me permitindo cruzar a perna, no sofá onde me sentava. Não era incómodo, mas era estranho.

Estranho foi também o súbito sorriso dos donos da casa, a quem eu, a certo passo, devo ter dado qualquer nota física de "uneasiness" com a crescente proximidade do Gastão. A explicação veio logo:

- Não sabes por que é que o Gastão se está a aproximar de ti, pois não? Porque quer dar a volta noturna com o dono e, por sistema, faz essa "pressão", como que a "dizer" à visita que acha que chegou a hora de se ir embora. Desculpa lá!

Guardei para sempre este episódio com o Gastão, cuja postura digna, com traços de esfinge egípcia, lhe chegou a merecer o neologismo de "embaixacão".

O Gastão morreu agora. De velho. Durante muitos anos foi um companheiro ímpar dos seus donos. Esteve com eles em tempos muito, mesmo muito, complexos. Pode presumir-se que sentiu os estados de alma de quem lhe dedicava uma imensa afeição. O Gastão retribuiu como podia e sabia, mas fê-lo de tal forma que a sua memória irá acompanhar os donos para sempre. A ambos deixo aqui um abraço forte.

Ambiguidade

Corre por aí um modelo para ninguém perder a face na questão da Gronelândia.  Os EUA obteriam a propriedade das bases no território, o qual ...