sexta-feira, junho 05, 2015

A direita


O tema é polémico, difícil de abordar sem provocar reações. Mas acho que vale a pena fazê-lo, com serenidade. Trata-se do estatuto da “direita” na sociedade portuguesa.

Alguns dirão que as diferenças entre esquerda e direita estão hoje ultrapassadas, que essa tipificação é já sem sentido. O filósofo francês Alain afirmava que quem dizia isso não era seguramente uma pessoa “de esquerda”. E isso é quase sempre verdade.

Contrariamente à esquerda, que tende a afirmar-se como tal, a direita portuguesa esconde-se geralmente por detrás de alguns “heterónimos” -  “centro-direita”, “liberal” (embora a medo, porque "neo-liberal" surge hoje com carga muito negativa) ou, ainda, como “conservadora”, um termo bem clássico e honroso, hoje pouco utilizado. O mais comum, contudo, é ver a grande maioria das pessoas de direita a tentarem escapar à classificação, afirmando "não serem de esquerda".

Porque as sociedades democráticas só ganham em serem transparentes, faz falta ver a direita portuguesa assumir-se abertamente como tal. Temos hoje, por exemplo, o governo mais à direita da nossa história democrática, mas não vejo nenhum dos seus membros assumir isso, sem sofismas - "somos de direita". Pelo contrário, se alguém afirma isso, sente-se que ficam quase ofendidos, como se fosse um insulto.

Alguns dirão: “mas se nos afirmamos de direita, a esquerda atira-nos isso à cara, chama-nos "fascistas", “reacionários”, liga-nos ao tempo da ditadura”.

Talvez valesse a pena pensar por que é que isso acontece. Em parte, isso deve-se ao facto de alguma direita se sentir na permanente obrigação de relativizar a gravidade dos tempos salazomarcelistas, deixando cair, a espaços, elogios ou desculpabilizações de parte desse passado. A direita portuguesa não soube fazer a rutura entre um pensamento contemporâneo conservador e as brumas sinistras da ditadura e do colonialismo. Alguma direita em Portugal não fez – e recusa-se a fazer - o "exorcismo" do que se passou antes do 25 de abril. Quando conseguir assumir a denúncia sincera desse passado, a esquerda mais agressiva, que se pretende “proprietária” dos valores da Revolução, deixará de ter argumentos para a diabolização e será obrigada a defrontá-la no terreno da luta democrática de ideias.

É tempo da direita portuguesa, a que não tem "esqueletos no armário", afirmar com orgulho o que é, defender as suas propostas, apresentar-se no debate político sem disfarces. Embora, nem por um segundo, alguma direita acredite, foi também para isso que se fez o 25 de abril.

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

13 comentários:

  1. Anónimo01:11

    Lá vem ele outra vez com este assunto....isto tresanda a mofo...

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  2. Anónimo09:10

    Claro que este governo é anarco-capitalista quanto à economia e assumem-no mas, em termos de valores humanos, estão bem dentro dos princípios da estrema esquerda, sem o assumirem. Esta é que é a verdade!
    É daí que vem a confusão! Porque, para mim, qualquer tipo de extremismo económico é de estrema esquerda porque perverte a minha conceção dos valores humanos (que será de direita, como alguns dirão).
    Ainda assim o mais certo é dividir as pessoas em honestas (enquanto há) e as outras...

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  3. Anónimo10:14

    Era melhor que fossem conservadores ( direita?) no que existe de positivo e progressistas ( esquerda?)no que pode ser melhorado, mudado e mesmo anulado.

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  4. Bem dito e melhor escrito!
    Clementina

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  5. Anónimo13:35

    A "Direita" não assume o salazarismo....a esquerda não assume o "estalinismo"...chatice, ninguém assume !!!

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  6. Anónimo14:10

    É sempre o mesmo, vira o disco e toca o mesmo.

    Escrita datada dos bons e gloriosos tempos da 5º divisão, salpicada aqui e ali por alguma abertura aquilo a que no seu espírito se convencionou ser a direita (?).

    è uma chatice este século 21!, está "lost in time" na bolha espaço tempo de certo "passado glorioso" em que viveu.


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  7. Anónimo16:46

    Para mim, vai para vários anos que em Portugal direita e esquerda são muito fáceis de definir.

    Direita - defende o patronato, a privatização do erário público e por norma classes baixas e médias pouco interesse têm para a sociedade. Vivem acima de tudo com base nos impostos (podendo estes ser muito elevados).

    Esquerda - defende o proletariado (classes baixas e médias) e como quer ter muito votos e a simpatia do povo aquando de eleições tenta não aumentar impostos, mas vive à custa da dívida pública que pode aumentar sempre visto que não é para se pagar.

    Resumindo: Tudo farinha do mesmo saco. Não há um político que saia mais pobre desde que entra para a política. E não pelos ordenados que esta paga.

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  8. Anónimo17:27

    Será que ainda há gente de direita em Portugal???
    O que de facto pode haver é gente que não reconhece mérito a este tipo de democracia de esqerda. O trauma de se ter sido apelidado de direita, depois de 1974, é quase tão profundo como o trauma de se ter sido colonialista.
    Se o governo actual é reconhecido como de direita.... bem.... bem.... então está tudo estragado. Veja-se o que são as direitas actuais por essa Europa fora.

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  9. Anónimo17:31

    Com todo o respeito discordo. Até MRS fala em direita e esquerda. Nos anos setenta e oitenta havia um qualificativo pejorativo: o complexo de esquerda. Hoje é o contrário, há um complexo de direita. É nela que parece estar a virtude. Quanto mais longe dela maior parece ser o erro. julgo que ainda é consequência da queda do muro de Berlim. O pêndulo oscilou e bem para aquele lado. Era o tempo do fim da história.

    O que mudou foi a relação de forças de expressão dentro da direita. Onde havia igreja, tradição e autoridade há hoje a vontade de regressar a um liberalismo utópico, o novecentista, apropriando-se aliás da palavra liberal - e o liberalismo de que falam é sempre económico. O liberalismo político está ausente. Verdade seja que proclamar-se neoliberal ninguém faz. É um pouco como dizer, sim, sou bêbedo! Ouvi uma vez João Carlos espada e ele conseguiu evitar cuidadosamente a palavra - e no entanto o fio condutor era claro.

    Agora Portugal ê como é. Agir pelo pensamento não é o nosso forte. Seja no modo antigo seja no novo, a direita, que sociologicamente é a de hoje e muitas vezes a de ontem, é essencialmente uma questão de nascimento, de classe social e de manutenção de privilégios. Se quiser pôr essa gente em alvoroço nem precisa de falar esquerda. Pregue-lhes com a meritocracia, aplique-a e depois vai ver os epítetos que leva em cima. O que mudou foi a epiderme.

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  10. É curioso para quem viveu o PREC já adulto que "defenda" que a direita deve assumir-se.
    E a quase ilegalização do CDS já foi esquecida ou faz parte do passado "deles"?

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  11. Homem de esquerda, poderia estar de acordo com a definição da Direita do anónimo de 17:35, se , à sua frase : " é essencialmente uma questão de nascimento, de classe social e de manutenção de privilégios", explicasse o seguinte:

    Uma massa importante do voto de direita é constituída por gente que nasce pobre, não tem privilégios nenhuns e continua a pertencer à classe social na qual nasceu. Na realidade é uma massa amorfa, sem educação política, capaz mesmo de votar por aquele que lhe parece "mais bonito e simpático e fala bem".

    Mas além desta alienação, a tentação é grande de sintetizar assim :

    - a Direita, possui um património que quer conservar e mesmo aumentar.

    - a Esquerda não o têm e quer adquirir um.

    A Direita é minoritária, mas tem uma posição dominante e favorável: Possui tudo, portanto é conservadora, unida, e entende "conservà-la por todos os meios"! Vimo-lo na História.

    A Esquerda é maioritária, mas dividida. Coabitam aqui aqueles que só pretendem tomar o lugar dos que possuem, e depois os outros, idealistas, como eu, que aspiram somente a uma melhor repartição das riquezas e a uma sociedade fundada sobre a reciprocidade da solidariedade, que aqueles que "possuem tudo" recusam.

    Depois, a curva de Gauss explica o resto: Três grupos de indivíduos: entre duas minorias extremas: os "muito maus" e os "excelentes", e no meio, uma massa de "médios", mais ou menos bons ou maus.

    A terrível consequência é que nesta massa, crê-se ,que obter uma promoção pelo único Direito e os seus méritos é ilusório. Mas em contrapartida, com a ajuda da autoridade, é sempre possível independentemente do Direito e dos méritos. O grande número de "xico-espertos' conhecidos está nestas paragens! Obter pelo favor , ou mesmo a corrupção, o que é recusado pelo Direito, tal é a tentação.

    Que alavanca para os conservadores, de poder "distribuir" segundo os apetites , prémios, promoções, postos de trabalho, aumentos de salários! Mesmo aos sindicalistas! Esta alavanca permite de estender a clientela e defender a posição dominante. Que pode chegar até ao poder político "en place" , às altas esferas do governo.

    Já são os conservadores que impõem uma certa ordem social e jurídica que lhe é favorável. Mas mesmo assim sabem que restam minoritários , por conseguinte, é preciso dividir os adversários : a Esquerda. Os media vão fazer o trabalho destilando coisas assim : Se a Esquerda chegar ao poder, os ricos vão fugir ! A Direita é a autoridade. A Esquerda é a anarquia. A Esquerda são mais impostos.

    Estimular a submissão, prometendo a segurança e a estabilidade da sociedade é um dos logros da Direita. Há muitos cidadãos que só assim podem encontrar o equilíbrio psicológico! E esquecem o resto. Eventualmente, mesmo a liberdade poderiam alienar se essa fosse a condição para a estabilidade. O aparelho ideológico, aqui, perde a partida.

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  12. a palavra direita tem de facto uma conotação negativa em países que saíram do fascismo, como portugal.

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  13. Anónimo17:57

    Só faltava o Professor Doutor Freitas....,,,,,, ..tombe la neige.....

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