terça-feira, janeiro 21, 2014

O novo oásis

Num dia de Julho de 2011, ao tempo em que era embaixador em Paris, fui a uma televisão debater com um representante de uma agência de “rating” a forte degradação da nota portuguesa, pouco depois da assinatura do Memorando com a Troika. Em irónica esquizofrenia, puniam-se as novas medidas de ajustamento com que Portugal se acabara de comprometer dado o seu impacto recessivo. À saída, o meu interlocutor, disse-me: “Portugal não é o problema. A questão para o euro está na Espanha e na Itália. No dia em que a Europa conseguir convencer os mercados de que suportará aqueles países, a vossa vida tornar-se-á mais fácil”.

Tinha razão. A partir do momento em que a acção persistente do BCE convenceu os mercados da determinação europeia em sustentar a moeda única, quando os fantasmas sobre as economias espanhola e italiana começaram a dissipar-se, as pressões dos mercados atenuaram-se. Isso reflectiu-se sobre as taxas de juro portuguesas, ajudadas pelo facto da Troika premiar, em nome dos credores, o zelo do governo nas medidas para o ajustamento. Taxas que, contudo, continuam incomportáveis, afectando já bastante a taxa média da nossa dívida, o que suscita, aliás, questões de fundo a que todos fogem.

Gostava de voltar ao Memorando, que hoje já ninguém lê, e aos seus objectivos: “Reduzir o défice das Administrações públicas para (…) 5.524 milhões de euros (3% do PIB) em 2013, através de medidas estruturais de elevada qualidade, minimizando o impacto da consolidação orçamental nos grupos vulneráveis. Baixar o rácio da dívida sobre o PIB a partir de 2013”. Onde tudo isso vai!

Como dizia o outro, é fazer as contas. O défice não será de 3%, mas cerca de 5,5%, e, em lugar dos 5.220 milhões de euros previstos, os números mostram que estamos acima de 9.000 milhões “Medidas permanentes de alta qualidade” pouco se vêem, com meros cortes ad hoc a serem os responsáveis essenciais pelo conseguido. Quanto à minimização do “impacto da consolidação orçamental nos grupos vulneráveis”, estamos conversados. O rácio da dívida sobre o PIB não só não declinou a partir de 2013 como aumentou nesse mesmo ano. Não acertaram uma!

Abstenho-me de elaborar sobre um desemprego que se mantém a níveis altíssimos, não obstante uma emigração que está já nas médias mais altas do século passado (com um inédito “brain drain”), números impressionantes de falências, um forte empobrecimento da classe média e camadas mais indefesas, esmagadas por aumentos nos transportes, na energia, na saúde, etc. Esqueçamo-nos também de um país dividido como nunca, onde se incita o privado contra o público, os novos contra a “peste grisalha”, os activos contra os pensionistas.

A Troika vai sair, nós ficaremos por cá, na convalescença do “sucesso”, a caminho do novo oásis. As eleições são dias depois. Aposto em como vai haver dinheiro para os foguetes. 


Artigo que hoje publico no "Diário Económico"

16 comentários:

  1. Anónimo07:41

    Às vezes até me apetece dar umas bufetadas em certa canalhada e tomar o poder.
    Então agora o único objetivo de todos os países da Europa é pôr as populações a trabalharem para a felicidade e o bem estar da troïka? E a felicidade e o bem estar (minimo, pelo menos) do povo?
    A Troïka! A troïka ! A troïka...
    José Barros

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  2. onde estava escrito com reduzido impacto nos grupos vulneraveis, foi lido pelos aplicadores com o maximo impacto nos grupos vulneraveis, etc etc...

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  3. Muito melhor que não importa qual comentário, este texto do Padre António Vieira, escrito em 1669, ao qual o Professor Adriano Moreira se referiu atempadamente:

    “Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra. Vedes as desatenções do governo, vedes as injustiças, vedes os sonhos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes os respeitos, vedes as potências dos grandes, e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos povos, os clamoroso e gemidos de todos? Ou os vedes ou não os vedes. Se os vedes, como não os remediais? E se não os remediais, como os vedes? Estais cegos.”

    A partir do momento em que a Troïka "invadiu" Portugal, transformando-o num protectorado, é normal termos chegado à situação actual. Os dois últimos parágrafos do texto do Senhor Embaixador são eloquentes.

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  4. Anónimo12:33

    O pior défice não é o financeiro! O grande défice é o da ética republicana! E este degrada-se dia a dia, contra as (algumas) espectativas que se geraram no início deste executivo!
    Quando resolverem o défice financeiro, volta tudo à mesma farra…
    Esta coisa de tratarem o ESTADO como uma empresa é abominável! Só ignorantes chamam de “clientes” ao público potencial utilizador de serviço do (pertença) ESTADO! (como “detentor de uma cota”, voto de imediato pelo seu despedimento, com justíssima causa e sem qualquer indemnização).
    Estamos no caminho acelerado para anarcocapitalismo!
    antonio pa

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  5. De facto já é altura de se mudar o que está mal. Como e quando?????

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  6. Anónimo17:27

    A 'velha senhora' concorda e discorda:

    é-me fácil concordar
    com tudo o que aqui nos diz
    mas será que foi ao ar
    o tal acordo 'infeliz'
    que eu julgava vigorar
    há quatro anos no país?

    aCção releCte aCtivar?
    revisores de jornal
    valem mais em portugal
    que acordo internacional?

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  7. Anónimo19:07

    Postou tanto um king morto e esqueceu-se de um imperador vivo. Porquê?
    A troika vai morrer, e a vida a seguir?
    Enterrem-se os mortos e cuidemos, com objetividade e carinho,dos vivos.

    Silva.

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  8. Anónimo21:06

    Nos últimos três anos vivi em Portugal e entretive-me como pude, trabalhando, estudando com afinco e tive mais dois filhos. Raramente vi televisão, consegui fugir q.b. a intrigas no trabalho, na família e ao pessimismo que se contamina. Fui para o estrangeiro. Não fiz bem nem mal. Sucumbi ao inevitável. Tive sempre, durante a minha permanência em Portugal, pouca simpatia pelas manifestações de rua contra o governo e também nenhuma simpatia pelo alarmismo e pela vozearia tonitruante do feicebuque. Acho que este Governo representa o pior que nos poderia ter cabido em lote de desonestidade, experimentalismo e cedência a grupos de interesses. Receio, no entanto, que a geração grisalha, em maioria, e os abstencionistas de conveniência, por associação, nós imponham de novo este governo. Se isso acontecer, como temo, terei feito bem então ir para o estrangeiro.

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  9. Não há dúvida de que o senhor embaixador não gosta deste governo e que, como se vê, gostava muito do anterior. Registe-se.

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  10. Anónimo21:51

    Tiro ao Alvo, deves ser um dos tais especialistas de ministro e estás muito satisfeito com a situação!
    Aproveita e lambuza-te bem no pote!...

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  11. Anónimo22:09

    Estamos ainda com as ideias dos"compagnons", Silva Pereira e Galamba, para quem as renováveis eram o futuro e são,mas"esqueceram-se" que o dimheiro que veio emprestado do exterior para os "apoios" não era de Portugal!

    Alexandre

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  12. fui verificar o que quererá dizer o período de graça, de que muito se fala após as eleições e encontrei o seguinte

    "Período de graça é aquele em que o indivíduo não contribui para o sistema, mas mantém a qualidade de segurado, mesmo que receba os benefícios... "

    Assim entende-se que terminará quando o individuo começa a contribuir para o sistema.

    Também dizem que cada vez é mais curto (para tormento da nossa saúde mental)

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  13. Senhor Embaixador : a medida que o tempo passa e as medidas de terror social, desencadeadas pelo "Governo de Portugal" se sucedem em catadupa aumenta a minha dificuldade em suportar o discurso do sucesso.
    Confesso mesmo que as vezes sinto que esta gente tenta passar-nos diariamente um atestado de estupidez e, embora não me considere um tipo muito inteligente,essa tentativa irrita-me profundamente.

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  14. Anónimo14:02

    Memorando, lido por aí:

    "No dia 13 de Janeiro, Rehn afirmou: "Tivemos discussões com o ministro das finanças de Portugal muito, muito antes de Portugal ter solicitado um programa, porque era bastante claro já em determinado momento de 2010 que, a menos que Portugal tomasse uma acção forte em relação a reformas económicas e a consolidação orçamental, iria enfrentar custos de financiamento proibitivos e enfrentaria a ameaça de ficar de fora do financiamento nos mercados, o que acabou por acontecer no início de Abril de 2011 e conduziu ao programa".

    Ler mais:
    http://expresso.sapo.pt/portugal-pediu-resgate-encostado-a-parede=f851814#ixzz2r8U7OFzF

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  15. Anónimo15:49

    Já nem sei o que dizer! A propaganda já começou, o que me deixa antever os juros ainda mais baixos nos próximos meses... Tínhamos juros mais altos quando a dívida era menor e alguma coisa ainda mexia... O que devemos fazer?

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  16. Anónimo16:41

    A 'velha senhora' ditou-me rimalhice ad hominem (e ad mulierem), precedida por uma

    declaração de interesses

    mourinho sócrates ronaldo estão
    no coração
    de portugal
    carinho e orgulho deles tenho igual
    que as coisas vão
    sem eles mal

    ---


    o ódio saiu-lhe à rua,
    embaixador,
    troça vil, calúnia nua,
    e sem pudor:
    que horror!

    cães ladram e continua
    a procissão;
    prossiga-me, amor, na sua:
    calar-se-ão
    ou não!

    que nos valha helena oneto
    bela e sensata;
    margarida, a si decreto
    que algum dos mata
    lhe bata!

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