quinta-feira, dezembro 12, 2013

Regras diplomáticas

Um colega que comigo coincidiu em Brasília, ao tempo em que eu por lá chefiava a nossa representação diplomática, enviou-me, para recordação, duas "instruções" que então eu distribuí por todos os funcionários.

A primeira tinha a ver com as comunicações recebidas na Embaixada:


"Qualquer comunicação escrita (carta, fax ou mail) dirigida a qualquer serviço da Embaixada, quer para o endereço geral, quer para um qualquer funcionário nessa sua qualidade, deverá, sem excepção, ser respondida. Em situação limite, em que o funcionário entenda que a comunicação não tem condições de ser respondida, deve ser sempre acusada a recepção."


A segunda prende-se com o "estilo" que eu entendia que os textos que seguem para Lisboa (e que são sempre assinados pelo embaixador) deviam assumir: 
  1. Não escrevam em estilo jornalístico. Escrevam como se tivessem que assinar “Nestrangeiros” (telegramas recebidos de Lisboa), isto é, linguagem totalmente neutral, pouco adjectivada, frases curtas e sem personalização, citando pouco e interpretando muito. Nós não concorremos com as agências noticiosas na busca dos factos: interpretamos.
  2. Não utilizem (nunca!) expressões brasileiras ou termos locais: “reforma tributária”, “reforma ministerial”, “inadimplência”, etc. Há termos portugueses para isto.
  3. Um telegrama tem de ser auto-explicativo, partindo-se do princípio de que quem o lê está a contactar com essa realidade pela primeira vez. Deste modo, não há “CPI” ou “MP” mas sim “Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)”, podendo, então, repetir-se a expressão “CPI” no mesmo telegrama. As “MP” são “Medidas Provisórias (MP)”, devendo sempre ser seguidas da explicação de que se trata de “iniciativas legislativas que o Governo submete ao Congresso com prioridade de apreciação”. Temos que ser didácticos e partir (sempre) do princípio que é uma pessoa nova que nos lê todos os dias.
  4. Procurem evitar referir nomes de pessoas, a não ser que sejam muito conhecidas ou importantes.
  5. Façam telegramas curtos. Ninguém lê em Lisboa mais do que página e meia. Quando possível, façam textos de menos de uma página.
  6. Façam parágrafos. Ajudam a ler.
  7. Não façam ironias ou graças nos textos: esse é o privilégio do embaixador… algum havia de ter !

10 comentários:

  1. Anónimo00:29

    Será este post um ponto de ordem aos comentários aos post(s)?
    antonio pa

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  2. Anónimo00:38

    Lembro-me desta sua instrução..quando nos "cruzámos" em Viena!
    Nem mais!

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  3. Ora resumindo Sr. Embaixador regras básicas para redigir um documento formal visando efetivamente a sua leitura, prevenindo o cansaço do recetor da mensagem.

    As regras ajudam porque orientam.

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  4. Anónimo01:07

    Está perfeito, Senhor Embaixador. Mas que pena que muitos dos seus queridos colegas das Necessidades, de ontem como de hoje, não sigam esse guião.

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  5. Anónimo08:57

    Não lhe bastava o privilégio dos croquetes?! Esta gente quer tudo!

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  6. Anónimo11:05

    Inteiramente de acordo! Regras sábias como todas as que traduzem bom senso, clareza e correcção. A língua portuguesa não necessita de estar a "importar" palavras ou expressões por simples mimetismo ou snobismo, deve ser facilmente entendida por quem lê e os floreados literários não fazem falta em documentos de trabalho. Bom conselho para os dirigentes, em geral...
    Em síntese, devemos ser concisos, simples e claros!
    José Honorato Ferreira

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  7. Anónimo11:14

    Estou certa que tem muitos seguidores nas camadas jovens da carreira e que agradecem estas dicas. Infelizmente já vão sendo poucos os que as sabem e transmitem

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  8. Rui C. Marques11:58

    Caro Francisco,
    Alguns telegramas sem "regras" fizeram as minhas delícias.Se,quando os li e reli,tivesse um fininho tirado pela Adelaide...
    Forte abraço.

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  9. a adjectivação excessiva é irritante e inutil, torna inclusivamente os textos e o que se quer dizer menos expressivos, portugal vê com profunda preocupação e desagrado, etc, para quê o profunda?
    e o comentário jocoso deixá lo de facto ficar para o chefe...
    e sobretudo nada de narcisismos nos escritos, isso não, pf...

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  10. Anónimo06:41

    Se todos seguissem essas regras d'ouro não teria nunca havido essas verdadeiras pérolas de telegramas que vão enriquecendo o património das Necessidades e que servem, pela sua originalidade, pelo seu ridículo ou pela sua insensatez, para divertir os diplomatas que a eles vão tendo aceso e aos outros a quem vão sendo transmitidos de geração em geração.
    Mas não teria havido também outros que, embora excedendo toda a contenção aconselhada, foram constituindo um notável acervo de peças notáveis de estilo literário e de interpretação de factos que honram quem os redigiu e que entraram para a História da Diplomacia portuguesa.

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