quarta-feira, abril 15, 2009

A França na literatura portuguesa (1)

Manuel Alegre

PORTUGAL EM PARIS


Solitário
por entre a gente eu vi o meu país.
Era um perfil
de sal
e abril.
Era um puro país azul e proletário.
Anónimo passava. E era Portugal
que passava por entre a gente e solitário
nas ruas de Paris

Vi minha pátria derramada
na Gare de Austerlitz. Eram cestos
e cestos pelo chão. Pedaços
do meu país.
Restos.
Braços.
Minha pátria sem nada
sem nada
despejada nas ruas de Paris.

E o trigo?
E o mar?
Foi a terra que não te quis
ou alguém que roubou as flores de abril?
Solitário por entre a gente caminhei contigo
os olhos longe como o trigo e o mar.
Éramos cem duzentos mil?
E caminhávamos. Braços e mãos para alugar
meu Portugal nas ruas de Paris.

(1967)

5 comentários:

  1. O dia em que descobri a poesia foi tardio.
    No Liceu Rainha Santa Isabel, no Porto - à data já ‘escola secundária’ e dois anos depois ‘de Abril’ – um professor cansado mas atento e paciente, ‘retornado’ de uma das ex.colónias (de quem não fixei o nome, com infinita pena, porque foi daqueles que me marcaram positivamente a vida) começou a ler:

    Éramos vinte ou trinta nas margens do Sena.
    E os olhos iam com as águas.
    Procuravam o Tejo nas águas do Sena
    procuravam salgueiros nas margens do vento
    e esse pais de lágrimas e aldeias
    pousadas nas colinas do crepúsculo.
    Procuravam o mar.
    Éramos vinte ou trinta nas margens do Sena
    sentados
    ausentes.
    E havia uma rua. Havia uma casa.
    havia um cesto de cerejas sobre a mesa.
    Havia um puro cheiro a pão. Uma varanda
    e roupa branca a secar.
    Havia uma Pátria
    E havia tecedeiras subterrâneas
    tecendo em Coimbra a primavera.
    havia o Ant6nio e uma guitarra
    incendiada nos seus dedos.
    E a minha irmã morava nesse ritmo.
    A minha mãe bordava. (As vezes creio que lembrava.)
    Meu pai - esse partia extasiado
    para o pais da musica. Havia uma avó
    procurando sentir o que eu sentia.
    Havia uma casa.
    Havia uma Pátria.
    Éramos vinte ou trinta nas margens do Sena
    onde o vento cantava
    uma cançào estrangeira."

    (O Canto e as Armas (1967))

    E eu fiquei de olhos esbugalhados a ouvir aquela canção pausada e triste, cheia de guitarras e de silêncios, com o coração a doer crescentemente até quase me estrangular e a tentar disfarçar as lágrimas que teimaram em surgir, sem que percebesse porquê.

    Não cabe aqui explicar porque não lera poesia antes (longa história) ou porque este dia gerou essa epifania (não saberia fazê-lo), apenas quis disso dar justo testemunho.
    Anos depois ofereceram-me a obra completa.
    Mas nenhum poema mais teve o impacto daquele.
    Se calhar, há razões para que existam mistérios assim.

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  2. Margarida para quê tentar disfarçar as lágrimas e porquê não as perceber depois de uma epifania destas?!
    Há muito que me debato com esse problema. Com Eugénio de Andrade, o meu preferido, quase sempre choro. Felizmente.
    Aprendi relativamente cedo o preço e o valor das lágrimas. E sei, hoje, que são muito poucos os extases magníficos que por elas não passam. Sejam de dor ou de alegria.
    Bem hajam os dois pela furtiva gota que me fizeram derramar.
    Sempre acreditei que na vida nada é acidental. Nem este blogue, Senhor Embaixador. E muito menos, as pessoas que o comentam...

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  3. Minha mui querida e doce Milady..., hoje choro sim. Frequentemente. Às vezes sem lágrimas, mas são tempos de deserto, não é?
    Falava de quando ainda era mais menina do que agora e havia aquela estranheza das emoções. Sobretudo as tão súbitas e inesperadas que até suspendiam a respiração.
    Meninas e dois meninos, só, naquela turma.
    "Não podíamos" chorar. Mas - graças aos céus! - nesse dia não fui a única. :)
    Também acredito que as "coincidências" são magias de Deus. Pequeninas gargalhadas Dele, tão crente em nós e na capacidade de tecermos laços a partir de fios de quase nada...
    Por exemplo, a surpresa pela poesia que em tudo derrama do nosso 'anfitrião' - mea culpa, que desconhecia assim ser - e a generosidade tão maravilhosa da sua atenção fraternal.
    Riquezas que preenchem o tempo que é.
    Este. Nosso.

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  4. Anónimo12:02

    Sendo Manuel Alegre um Poeta da Liberdade e dando comigo a folhear umas poesias de Sophia de Mello Breyner Andresen, permiti-me transcrever aqui para o Blogue este pequeno poema daquela grande poetisa:

    “LIBERDADE

    O poema é
    A liberdade

    Um poema não se programa
    Porém a disciplina
    - Sílaba por sílaba –
    O acompanha

    Sílaba por sílaba
    O poema emerge
    - Como se os deuses o dessem
    O fazemos”

    P.Rufino

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  5. Anónimo01:11

    França/Esperança

    Uma segunda pele
    Emerge
    Da primeira Fome
    Na génese de um Homem
    Uma vontade perene
    Converge

    A maior fuga
    O Fugir da essência
    A da Pátria
    Na senda da impotência
    A Dor da sobrevivência

    Um abrigo
    Em gemido
    Um Amigo inimigo
    Impede estar Contigo

    Um Abril
    Pariu Liberdades
    Lábeis
    Adiadas
    Humores mil
    Mentiras e verdades
    Hábeis

    Mas os corpos
    Os destroços
    Levam e trazem
    As almas,Calmas
    A viver ...tudos
    E os Tempos todos
    Em Agostos...

    Isabel Seixas

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