terça-feira, 7 de abril de 2009

Palmas

Deve ser embirração minha, mas confesso que não consigo perceber o hábito, muito português (embora não exclusivo), de bater palmas após a aterragem dos aviões. No passado, quando as portas da cabine de pilotagem se mantinham obrigatoriamente abertas na aproximação ao solo, o som de júbilo dos passageiros ainda chegava ao comandante. Agora, nem isso.

Será que bater palmas à chegada é uma forma de exorcizar o medo sentido na viagem?

13 comentários:

Anónimo disse...

Acredito que sim...Essencialmente para tornar inaudivel o som revelador dos suspiros de alivio "Pés bem assentes em terra?".
Adoro andar de Avião...Não bato palmas quando aterro...
Isabel Seixas

margarida disse...

Não viajo de avião tanto quanto gostaria, mas há muito que deixei de ouvir as ditas palmas.
Há uma vintena de nãos sim, era constante. E eu gostava. Porquê? Exactamente porque era uma forma de exorcizar o medo de estar confinada a um frágil invólucro de metal, e era ainda uma instintiva profunda gratidão àqueles que, tão humanos quanto eu, se assemelhavam aos deuses, levando-nos às alturas, conduzindo-nos pelos ares e deixando-nos depois serenamente no chão, como por magia.
Toda a ciência dos homens não chega para ‘explicar’ o milagre que voar é.
Daí o júbilo emocionado de alguns, talvez mais sensíveis, talvez mais tontos, talvez excessivamente simples.
Porque camuflar as emoções é uma arte.

Anónimo disse...

Curiosamente é na TAP que menos oiço palmas. (não sei de onde tira essa ideia de hábito muito português) Sou frequente passageiro de quase todas as companhias aereas do mundo.

Anónimo disse...

O “tique” do bater palmas após a aterragem, pela experiência que tenho de viajar de avião, varia de algum modo em função, digamos, da proveniência dos voos. Há determinados voos, por razões que ignoro, que atraem mais “simpatizantes das palmas” do que outros. Por exemplo, o de Luanda-Lisboa é um daqueles em que se nota uma maior propensão para as palmas à chegada, já outros destinos levam, pelos vistos, passageiros menos atreitos a palmas no momento da aterragem.
Talvez um estudo sociológico consiga encontrar as causas destas discrepâncias de atitudes.
Por mim sou igualmente pouco afoito a palmas naquelas ocasiões; costumo reserva-las para outras, que se me afigurem mais condizentes.
Todavia, uma ocasião houve, em que não só me apeteceu bater uma profusão de palmas, como ir mesmo muito além disso, por exemplo, pôr-me aos saltos, tal a satisfação em ter aterrado são e salvo. Não o fiz por timidez e porque os restantes passageiros se mantiveram silenciosos. Sucedeu quando aqui há uns 2 anos tive de ir até Dushanbe, no Tajiquistão. O voo era via Moscovo e dali para a capital Tajique. O avião fazia lembrar uma daquelas camionetas ronceiras que se nos depara na selva da Amazónia, mas com asas. Tinha ferrugem e mossas no exterior, o teto apresentava-se deplorável, o chão revelava umas reminiscências de alcatifa, a cortina separadora estava esburacada (!) as cadeiras na sua maioria estavam estragadas (ou demasiado inclinadas para trás, ou puxadas de encontro à da frente; poucas se aproveitavam). Coube-me a infelicidade de uma completamente encostada ao banco da frente e depois de fortes reclamações (e algum tempo) lá me colocaram noutra; desta feita, confrontei-me com a situação inversa, totalmente reclinada (se calhar foi de propósito!), o que me fez levar um sem número de pontapés nas costas, durante o resto da viagem, por parte do parceiro atrás, (que não tinha outro remédio) e durante as refeições (abundantíssimas - para meu espanto!) foi uma complicação para me posicionar e conseguir comer.
Como se não bastasse, apercebi-me a certa altura, perplexo, que a larga maioria dos passageiros (quase todos tajiques, ou russos) estavam a fazer uso dos seus telemóveis! Já em estado de grande ansiedade, receando que a aeronave pudesse vir parar lá abaixo, chamei à atenção de uma das hospedeiras para o facto, uma moçoila enorme, que mal conseguia andar pelo corredor estreitíssimo. Como não falava inglês e não conseguiu entender a linguagem do “gesto é tudo” (mesmo eu caprichando), chamou um colega, que me serenou com a seguinte resposta: “não há problema, este avião foi concebido antes dos telemóveis, não cai!” Nem mais. No regresso, como tivesse avariado o avião, meteram-nos noutro, cuja companhia aérea se chamava “Crash” e lá fomos, ou antes fui, novamente com o coração saltos, até aterrar em Moscovo. Ficou-me, todavia, a impressão que o único realmente assustado era eu; os outros, ou eram mais corajosos, ou já estavam habituados aquelas “bizarrias”!
Enfim, sobrevivi, ainda por cá ando, achei alguma graça aquelas terras longínquas, mas, quanto aos voos, pelo menos ás companhias que me destinaram, não se recomendam.
Sim, nestas circunstâncias, bater palmas é mais do que um estado de alma, é um alívio! E não julguem que exagerei. Foi tal e qual assim!
P.Rufino

Helena Sacadura Cabral disse...

Belo texto o da Margarida. Final feliz, esse de afirmar que "camuflar as emoções é uma arte". Curiosamente as palmas que me incomodam são as extemporâneas, nos concertos, antes de uma peça estar terminada. Essas, que nem sequer camuflam a ignorância musical, essas sim, irritam-me solenemente...
Há uns anos, no final de uma aula de Escrita Criativa, na Universidade, os alunos bateram-me palmas. Guardo ainda hoje esta lembrança como uma das minhas maiores preciosidades.
E quando me assaltam dúvidas sobre a minha capacidade para fazer alguma coisa, a recordação daquelas palmas salvam todas as minhas angústias. Menoridade minha, decerto!

Eduarda Lima disse...

Também acho que sim, se calhar é em comemoração do 'milagre' que é voar. Segundo o cómico Louis C K num show do Conan O'Brian todos deviamos celebrar esta magia cada vez que voarmos (a partir do min 2, vale a pena! ;)
"Everything is amazing, nobody is happy"
http://www.youtube.com/watch?v=LoGYx35ypus

Anónimo disse...

Palmas apenas à chegada à ilha, nunca à chegada a Lisboa, ao Porto... Aqui as palmas devem-se às dificuldades com a aterragem, principalmente ao medo do vento... continua-se a considerar um milagre a aterragem em determinados dias. Embora reconheça as dificuldades nunca bati palmas, confio que o comandante não aterraria se as condições fossem desfavoráveis, é a sua profissão, preciso de sentir essa confiança para continuar a viajar...
gfaria

Francisco Seixas da Costa disse...

A verdade é que este comentário foi suscitado por uma sonora salva de palmas na chegada do voo Paris-Porto no sábado passado.

Helena Sacadura Cabral disse...

Não consegui furtar-me, meu caro P Rufino, a uma sonora gargalhada provocada pela sua notável crónica de viagem para terras especiais.
Mas console-se. Eu que adoro Marraquexe, aqui bem mais perto, fiz uma viagem idêntica à sua, numa caranguejola que, de avião, apenas tinha as asas.
Não hei-de eu ter um imenso orgulho naquele irmão de meu pai que, com pouco mais, se abalançou pelo Atlântico Sul...

Fernando Correia de Oliveira disse...

Viajo frequentemente de e para a Suíça e as palmas são uma constante por parte dos portugueses, para espanto dos restantes passageiros. Há um que as bate, outro segue timidamente, segue mais um, a coisa pega e há uma salva. Ou não pega e... morre ao fim de algumas palmadas isoladas, solitárias, tão dramáticas e deslocadas como as palmas a meio de uma peça musical, no final de um andamento...

Rui M Santos disse...

É o alívio...!
E o "piloto automático" agradece...

Rui M Santos

Unknown disse...

As palmas têm algo que ver com aquilo que em linguagem de linha aérea se chamam "voos étnicos"). Mas recordo-me que uma vez, ao levantar vôo do aeroporto do Funchal, um grupo de rapaziada que regressava de umas férias bateu uma grande salva de palmas. Mais tarde uma das hospedeiras revelou-me que o piloto não tinha gostado nada do "cumprimento"...

Anónimo disse...

Penso que esta atitude depende de várias circunstâncias.

De facto, por tê-lo verificado, pratica-se mais nos voos ditos "charters ou turísticos" que voos d'affaires.

... Pode, também, considerar-se como um reconhecimento à equipagem, ou como um desabafo, no caso de uma aterragem dificil.

C.Falcão