quinta-feira, 16 de abril de 2009

Queluz

Era um jantar de gala no Palácio de Queluz. Um rei ou um presidente estrangeiro estava em visita de Estado a Portugal. O protocolo esmerou-se em ter a imensa mesa com grandioso aspecto, belos candelabros e talheres de prata, o serviço de pratos mais requintado, tudo sobre uma toalha magnífica, só usada nas grandes ocasiões. Demorou horas a colocar tudo em ordem, mas o cenário era deslumbrante.

Salazar chegou bem antes do presidente português e do convidado estrangeiro deste. Era, cumulativamente com o cargo de chefe do executivo, ministro dos Negócios Estrangeiros e tinha um cuidado pessoal com estas ocasiões solenes. Mesureiro e conhecedor do seu sentido de pormenor, o chefe do protocolo, cavalgando a oportunidade do bom trabalho feito, inquiriu se o senhor presidente do Conselho quereria dar uma vista de olhos à sala, antes de o jantar começar. Salazar disse que sim.

Lá chegados, o diplomata não resistiu e perguntou: "O senhor presidente do Conselho acha que está tudo bem? Gosta da toalha que escolhemos? Fomos buscá-la à Ajuda...". Salazar esboçou um sorriso, entre o cínico e o irritado, e respondeu: "Muito bem, está tudo muito bem. E a toalha é linda. Pena foi que a tivessem posto do avesso...".

Esta é uma história clássica no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

9 comentários:

Anónimo disse...

Excelente história.
Mas sorri também com "presidente" do Conselho com minúscula...Subtilezas que divertem...quem partilha coisas e causas comuns...
P.Rufino

Paulo Correia disse...

Além de clássica revela que para sua sobrevivência o poder precisa de um olho de lince. É a lei da vida...
O problema destas pequenas histórias do dia-a-dia é tornarem humano o pior dos ditadores. Todos terão a sua vida intíma tão banal quanto a nossa.
Pequenas preocupações, pequenos gestos sensíveis, pequenas graçolas,... tudo isto a conviver num ser capaz das decisões mais cruéis, bárbaras e injustas.
Pessoalmente prefiro o célebre humor Churchiliano. Ácido, corrosivo, inteligente, implacável e directo.
É célebre aquele em que belo dia, Churchill, levou um seu sobrinho à Câmara dos Comuns, para uma visita guiada. Ao mostrar-lhe a bancada Trabalhista, o sobrinho perguntou:
- Tio, é aqui que se sentam os seus inimigos?
Ao que Churchill respondeu:
- Não, aqui sentam-se os meus adversários. Os inimigos sentam-se atrás de mim, na minha bancada.
Na mouche!...

Francisco Seixas da Costa disse...

Nota aos dois comentários anteriores:

1. O uso das maiúsculas neste blogue segue as regras dos "livros de estilo" dos jornais.

2. Se contar uma historueta humaniza um ditador, que se há-de fazer? Não contar a história?

Paulo Correia disse...

Caro Embaixador não interprete mal o meu comentário. Simplesmente constactei um facto.
Todos nós somos suficientemente abertos para compreender a realidade.
Venham mais histórias (historietas) deliciosas que povoam o seu baú de recordações.
Também elas dão uma outra abordagem da realidade histórica.
Pessoalmente, prefiro que se contem as histórias do que fiquem perdidas na memória do tempo.
Negar a realidade seria muito pior...

Helena Sacadura Cabral disse...

No meio de tudo isto será que, na altura, não terá virado moda pôr as toalhas do avesso?
Comentário perverso este meu. Mas ando traumatizada com o "politicamente correcto".
Quanto às maiúsculas, vitais, faz bem Senhor Embaixador em seguir os livros de estilo dos jornais. Mas nem todos obedecem aos mesmos critérios. O que escolheu é, seguramente, o melhor.

Anónimo disse...

A minha curiosidade é seguramente face á toalha...

Partindo do pressuposto que seria bordada e á mão é necessário mais que olho de lince, também sensibilidade especifica ou alguma formação feminina obtida de num percurso formal ou informal.

Se o tecido da toalha era um tecido lavrado tipo damasco ou mesmo liso as bainhas não estavam perfeitas.

Acho que posso inferir que a ter sido uma Senhora a colocar a referida toalha a presença de Salazar Lhe gerava uma tal ansiedade que provocou redução da acuidade visual.

Só para dizer que também adorei a história.
Isabel Seixas

Gil disse...

Não creio que tenha sido uma senhora.
Deve ter sido o Protocolo do Estado e o velho Manholas não admitia mulheres na carreira diplomática.

Fábio disse...

Calhou um dia folhear um livro de memórias de um ex-ministro de Oliveira Salazar. Num dado momento ele contava uma história: estando com dificuldade na redacção de uma lei, Salazar deu uma vista de olhos e rapidamente resolveu o imbróglio mudando meia-dúzia de palavras. O ministro ficou deslumbrado. Acho que a história humanista que contou se insere na mesma linha de bajulices do ditador português.

Francisco Seixas da Costa disse...

Como vê, Fábio, a crítica é livre por aqui...