Era uma casa muito modesta, em La Habana, à qual cheguei por indicação de amigos, há cerca de dois anos. A proprietária era uma pintora, na casa dos 40, antiga funcionária de uma bomba de gasolina, que, anos antes, descobrira a sua vocação e se decidira a uma carreira nas artes. Para o meu olhar de leigo, a sua pintura denotava uma qualidade potencial que, se melhor educada, poderia ter condições para vir a evoluir bastante.O trabalho da pintora cubana terá chamado a atenção de alguém e, com todas as devidas autorizações, quadros seus partiram para o estrangeiro, venderam-se e fizeram mesmo algum sucesso.
Com total candura, perguntei-lhe se tinha estado presente nalguma dessas exposições, fora de Cuba. A sua resposta, num tom resignado mas não ácido, como se fosse a tradução de um destino irreversível, veio com um sorriso de triste desencanto: "Não, nunca fui. E nunca irei. Sabe, eu nunca sairei daqui...".
E agora, sairá?