sábado, 25 de abril de 2009

Histórias do 25 de Abril - O Telefone


Estava-se nas primeiras horas do dia 25 de Abril de 1974. Todo o pessoal que dormia no quartel tinha sido acordado e mandado formar no escuro da parada. De megafone na mão, o capitão que liderava a revolta, anunciou que a unidade ia integrar um movimento militar que tinha como finalidade “acabar com a ditadura”, competindo-lhe atacar um determinado objectivo.


Os soldados, quase todos ensonados, alguns ainda a despistar a hipótese de se tratar de um mero exercício, ouviram em silêncio as palavras do capitão: quem quisesse alinhar que fosse buscar a sua arma, os restantes podiam voltar para a cama.


Mas já ninguém conseguiria dormir. Ouviram-se alguns comentários e apartes mais entusiastas, de milicianos com tarimba das lutas do associativismo universitário, alguns dos quais já previamente contactados, para o que viria a ser uma das primeiras operações militares que o Movimento das Forças Armadas iria efectuar nessa madrugada.


O pessoal foi mandado destroçar e, em pequenos grupos, regressou, cochichando, às camaratas, em busca da arma ou do travesseiro para a vigília.


Foi então que um soldado, discretamente, se aproximou da cabina telefónica que existia num canto da parada. Abriu a porta e, nessa altura, alguém, mais atento, atirou-lhe um berro:


- "Eh! pá, o que é que vais fazer?".


O rapaz olhou, meio apalermado, largou a porta da cabina já entreaberta e disse, com toda a candura, que só queria avisar a família, não fossem ficar em cuidados quando ouvissem as notícias.


- “Nem as penses! Pira-te daí!”, ouviu logo.


Desapareceu de imediato, rumo à camarata. Alguém entrou na cabina e arrancou o fio do telefone.


Como se faria hoje uma revolução, na era dos telemóveis?


2 comentários:

Anónimo disse...

Lindo texto. "...quem quisesse alinhar que fosse buscar a sua arma, os restantes podiam voltar para a cama". Eu estava a dormir numa Republica, em Coimbra. Fazia parte de uma organizaçao clandestina esquerdista e na Republica todos sabiam. Os esquerdistas da dita tinham os quartos no ultimo andar. Os dois que ocupavam os quartos do rés-do-chao eram os mais boémios da Republica e so dormiam de dia. Foi um deles que me foi acordar a dizer que estava "a começar a revolução". Eu nao acreditei, porque eles eram uns brincalhões. Mandei-lhes com um sapato. Como podia estar a revolução em curso se eu andava todos os dias em reuniões secretas a preparà-la e não sabia de nada? Mas eles não desistiram. "Levanta-te, levanta-te, começou a revolução!" gritavam depois os dois boémios, que até eram boas pessoas. Eu continuava a não acreditar, pensava que estavam bêbados. Puseram-me então um ràdio à porta e eu acreditei... "Comunicado do MFA...". Foi uma alegria....

Helena Sacadura Cabral disse...

Como se fez em Espanha na queda de Aznar...