sábado, 25 de abril de 2009

A Festa

É diferente o 25 de Abril em França.

Os portugueses comemoraram, um pouco por toda a França a Revolução de Abril, em algumas dezenas de festas populares, que se iniciaram ontem e cujos eventos se prolongam, nalguns casos, por toda a próxima semana. Alguns não deixam de lembrar a ditadura, a censura, os presos políticos, a PIDE e o obscurantismo anti-democrático, bem como os capitães de Abril que ajudaram a pôr um ponto final a tudo isso e às três guerras coloniais. Eu próprio o fiz, ontem à noite, em Fontenay-sous-Bois, numa magnífica jornada de alegria e cravos, com muita juventude, mobilizada pelo entusiasmo democrático de Baptista de Matos, após um desfile à luz de archotes que terminou naquilo que é o único monumento ao 25 de Abril erigido no estrangeiro.

Mas, repito, há algo de diferente no 25 de Abril em França.

Por aqui, para além da Revolução, comemora-se a recuperação da cidadania dos portugueses que a ditadura obrigou a sair de Portugal. Celebra-se o início de um caminho para a atribuição do estatuto pleno de que hoje beneficiam na sociedade francesa, graças à sua pertinácia, à sua força, à sua capacidade de afirmação, eles que entraram para as Comunidades Europeias bem antes de Portugal a elas ter aderido formalmente. Celebram a sua liberdade. Um jantar-encontro na noite de hoje, organizado em Ivry-sur-Seine por essa figura indomável da cultura portuguesa em França que é João Heitor, recheado de músicas de Abril e de boa disposição, com a presença honrosa do antigo embaixador português, Coimbra Martins, provou-me que a festa é, por aqui, o outro nome do 25 de Abril.

1 comentário:

Filipe Pereira disse...

Talvez o modo como os portugueses de França festejam o 25 de abril seja diferente. Mas o 25 de abril, propriamente dito, é o mesmo para os portugueses de dentro como para os de fora. A verdade é que, como acontece com outros assuntos, Portugal e os que la vivem por vezes esqueçem ou desprezam o que vai na alma e no coraçao dos que emigraram. A presença do senhor embaixador ontem em Ivry, como em Fontenay, e onde quer que aconteçam celebraçoes como estas, fez com que nos sentissemos menos isolados. Ontem nao so me pareceu que estava a festejar o mesmo 25 de abril que se festejou em Portugal mas até me pareceu estar a festeja-lo com Portugal.

Agora explicar porque é que o 25 de abril em França é mais festivo do que em Portugal… O 25 de abril significou para os emigrantes-exilados a promessa do fim das causas que os haviam obrigado a partir, quer tenham ficado depois a viver no estrangeiro, quer nao. Mas hoje, para muitos dos que vivem em Portugal, o 25 de abril significa o fracasso dessas promessas e por vezes a ameaça de terem que procurar melhores condiçoes no estrangeiro… Também haverà nesta aparência de maior alegria, algo da fascinaçao exaltada com que os portugueses de fora persistem em ver o que Portugal teve ou tem de “bom”. Mas tudo isto nao passa das singulares impressoes de um português, que nasceu em França alguns anos depois do 25 de abril.

Jà agora aproveito este comentàrio, um pouco abusivo, para pedir desculpas “pelos erros do português ruim”, como canta Maria Bethânia, e sobretudo, para uma vez mais louvar a iniciativa deste blog, que muito contribui para atenuar a impressao de marginalidade que por vezes sentimos cà fora.

Filipe Pereira