sexta-feira, 24 de abril de 2009

Histórias do 25 de Abril - Testemunho


Parece que foi ontem, mas passaram já 35 anos sobre o movimento do 25 de Abril, a data que mudou Portugal e os portugueses.

Eu prestava serviço como oficial miliciano numa unidade militar de Lisboa. Desde os últimos meses de 1973, era patente que uma agitação atravessava os militares profissionais com que diariamente contactávamos. Inicialmente, sabíamos tratar-se de reivindicações corporativas, precisamente de protesto contra as facilidades concedidas aos milicianos de poderem vir a integrar o quadro profissional, modelo a que a instituição militar crescentemente se via obrigada a recorrer, perante as exigências de uma guerra em três frentes.

Mas, a partir de determinado momento, demo-nos conta de que as coisas tinham já uma amplitude maior, que os militares profissionais estavam cada vez mais conscientes da sua força potencial e de que começava a consensualizar-se, no seu seio, uma vontade de provocar uma mudança política no país. Se bem que não merecesse um apoio generalizado dos oficiais com que convivíamos, tornava-se claro que o general António de Spínola, recém-regressado do cargo de Governador da Guiné, acabava por funcionar como um polo de referência para muitos, em especial pela frontalidade que vinha a demonstrar nos últimos anos. A publicação do seu livro “Portugal e o Futuro”, que conduziu à sua subsequente demissão, terá sido a gota de água que terá feito acelerar a agitação que já era latente. Menos claro era, para muitos de nós, o sentido em que essa mesma inquietação caminharia e se ela teria, ou não, condições para conduzir a uma mudança democrática consequente.

Com efeito, o espectro de que um golpe mal preparado pudesse levar a uma rigidificação do regime assustava muitos de quantos tinham uma experiência de associativismo universitário e alguma formação política, que temiam que Marcelo Caetano acabasse por ser substituído por um “ultra” – nome que utilizávamos para designar os radicais conservadores do regime. O fracasso do movimento de 16 de Março, iniciado e acabado nas Caldas da Rainha, permitiu perceber que a força de resposta do regime tinha, contudo, sérios limites. E, não obstante o malogro dessa intentona, o sucesso de um golpe bem organizado pareceu mais próximo.

Por essa altura, os nossos contactos com os militares profissionais começaram a intensificar-se, embora de uma forma um tanto caótica, unidade a unidade, dependendo das relações pessoais, sempre com precauções de segurança mínimas, que temíamos fossem detectadas facilmente pela polícia política. Nada aconteceu, porém.

Ao fim da manhã do dia 24 de Abril, um grupo de oficiais milicianos “de confiança”, que reuni na biblioteca (de que era responsável) da minha unidade militar, recebeu a indicação de que o golpe era para ter lugar nessa noite. Lembro-me de que, apesar de estarmos preparados para o facto de que esse dia iria chegar, mais cedo ou mais tarde, ficámos então num misto de excitação e ansiedade, tanto mais que nos não foram dados pormenores sobre as tarefas que nos iam ser pedidas. Apenas era requerida a nossa disponibilidade.


E foi assim que se avançou pela noite, para o dia seguinte, um dia a que, na altura, ninguém se lembrou de chamar “o 25 de Abril”.

3 comentários:

Paulo M. A. Martins disse...

Mas, Senhoe Embaixador, o "France Soire" estava atento a todas essas movimentações!

Vale a pena, quem tiver essa posibilidade, voltar a ler essas páginas diárias, nomeadamente a partir dos acontecimentos de 16 de Março de 1974.

E foi assim que, pé ante pé, os "filhos da madrugada" viraram de sopetão uma ditadura "consolidada" de meio século para dar lugar à Liberdade e à Democracia!...


Paulo M. A. Martins
Fortaleza (CE) - Brasil

João de Deus disse...

Senhor Embaixador, um testemunho histórico na primeira pessoa de particular valor para a geração que, como eu, nasceu já ao "abrigo" da democracia e que, em grande parte, esqueceu hoje (ou nunca precisou de saber?), "adormecida" pela espiral consumista, o valor da palavra LIBERDADE.

Um forte abraço ainda mineiro. João de Deus.

Paulo Correia disse...

O Quinta de Cabriz não é mau. É um Dão de Carregal do Sal, distrito de Viseu. No entanto, é daqueles vinhos que foi sendo "formatado" a um determinado gosto e características. Sai sempre igual, quer faça chuva, quer faça sol.

Que tal experimentar um "Vinha Paz" da próxima vez. Também é um Dão, de São João de Lourosa, Viseu. Produzido pelo cirurgião cardíaco, António Canto Moniz.

Um autêntico remédio para o corpo e para o espírito, passe a publicidade.