quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Joseph William Crabtree (1754-1854)

                

Começámos (começaram) 100 anos após a data atribuída à sua morte. Desde 1954, um grupo de 200 personalidades, democraticamente cooptadas, reune-se uma vez em cada ano, no University College, em Londres, na quarta-feira mais próxima do "Valentine's day", para ouvir uma de entre elas pronunciar-se, durante uma boa meia hora ou mais, sobre um aspeto da vida, da obra e dos feitos dessa figura única da história polįtico-cultural e sócio-económica britânica que deu pelo nome de Joseph William Crabtree. Juntam-se aos membros da Crabtree Foundation mais de uma centena de convidados, rigorosamente selecionados. Por ali está a nata da sociedade britânica, professores universitários, artistas, membros do parlamento, banqueiros da City, diplomatas, militares, advogados, empresários e outros profissionais de relevo.

O nome do orador seguinte é anunciado no jantar anual, pelo que o indigitado tem suficiente tempo para se documentar com a informação necessária à sua palestra, até porque esta pode vir a ser contraditada (quase sempre é) por outros presentes, nomeadamente por uma figura central da sessão, "The Living Memory and Keeper of the Archives and the Seals", personalidade que vela pela compatibilidade e não contradição entre as "orations" ao longo dos anos. Os temas escolhidos para estas são totalmente livres, desde que revelem estudo aturado, investigação aprofundada e reflexão  intelectual adequada, com amor à verdade e à imaginação tida por necessária. Até hoje, foram já publicados dois belos volumes (edições "hard cover", com ilustrações) que recolhem as "orations" anuais sobre Crabtree. Um terceiro está a caminho, numa tarefa que incumbe ao "Keeper of the Scholars and the Colllected Orations".

Note-se que, no jantar, cujos vinhos são selecionados, com elevado critério, pelo "Vinter of the Foundation", o uso de "smoking" para os homens é obrigatório (é admitido, como exceção, o traje escocês), sendo que algum formalismo elegante (e conservador) no traje é exigido às senhoras. Estas começaram a ser admitidas como convidadas a partir de 1995 (foi uma noite de discussão atribulada, lembro-me bem) e, posteriomente (numa decisão também muito contestada, mas hoje já aceite, embora por alguns com visível resignação), as senhoras passaram a poder integrar a Crabtree Foundation como membros plenos, naturalmente dentro do estrito "numerus clausus", que nunca foi abandonado.

Convidado anteriormente durante dois anos, pela mão do saudoso e grande "scholar" crabtreeano que foi Bartolomeu Cid dos Santos, desde 1992 que tive a felicidade de ser chamado a integrar este distinto cenáculo, para o qual, diga-se, continua a haver listas de espera bem longas. Somos muito poucos os estrangeiros que foram até hoje admitidos, pelo que registo com grande honra o facto de já me ter cabido a presidência da Crabtree Foundation, no ano de 2012, responsabilidade que implicou a direção do rígido protocolo do jantar e a livre escolha do orador e do presidente para ano seguinte (selecionei uma mulher).

Convém sublinhar que não é só em Londres que a Crabtree Foundation se reúne. Há vários "chapters" distribuídos pelo mundo, de Harare a Glasgow, de Florença a Sidney, entre outras cidades. Em Lisboa estuda-se, desde há vários anos, a possibilidade de ser criado um "chapter", tanto mais que há fundada evidência das relações de Crabtree com o nosso país. Aliás, o espírito de Crabtree é cada vez mais universal, a sua mensagem espalha-se rapidamente à escala global e o passado desta personagem de perfil ímpar tem hoje assegurado um futuro radiante à sua frente.

Daqui a horas, lá estaremos, de novo. O tema da "oration" deste ano, anunciado há dias no jantar dos "Elder and Awful Guardians" (sete figuras centrais na direção da Foundation, cuja indicação e representatividade democrática, se bem que desconhecida, nunca é contestada - talvez por isso!), está já a causar "frisson" nos meios intelectuais londrinos: "How Crabtree won the Napoleonic Wars". Não excluo, por amor à verdade da História, no que concerne a Portugal, ser forçado a intervir no período de questões ao orador.

Algum leitor menos atento e menos habilitado é capaz de estar, a esta hora, a perguntar-se: "mas afinal quem foi Crabtree, o que é que essa figura fez de tão relevante que justifique que centenas de pessoas se reunam anualmente para saudar a sua memória?". Pode parecer presunçoso responder desta forma, mas apetece-me dizer que, se não sabe, talvez não mereça saber, o que me dispensa de ir muito mais longe.

Deixo, porém, umas últimas notas. 

Não excluo, em absoluto, que a alguns leitores possa ter chegado, ou vir a chegar, a malévola indicação de que Joseph William Crabtree é uma figura ficcional, inventada pelas "orations" que, ao longo destes 62 anos, foram produzidas a seu respeito. Eu próprio já ouvi dizer que "Crabtree nunca existiu" e outras barbaridades similares.

Outros poderão chegar a suspeitar, imagine-se!, que o retrato a óleo aqui reproduzido, que nos acompanha num cavalete durante os jantares e ao qual faremos a certo passo a reverente saudação, copos erguidos bem ao alto, com toda a sala a ecoar "To the Great Man!", teria, afinal, sido comprado em Portobello ou num mercado de rua similar.

Quem sabe se outros ainda pensarão, na pobre tristeza dos iludidos, que o cajado que, desde há décadas, figura sobre a mesa da presidência do jantar (e cuja guarda cabe ao "Keeper of the Cudgel"),  e que se sabe à saciedade ter sido usado por Crabtree na sua histórica travessia dos montes Apeninos, teria sido adquirido, afinal, num qualquer "car boot sale".

O leitor pode acreditar no que quiser. Nós fazemos exatamente o mesmo. Por mim, convertido em definitivo ao espírito de Crabtree, cá tentarei voltar todos os anos, como, desde 1995, fiz vezes sem conta de Lisboa, de Nova Iorque, de Viena, de Brasília ou de Paris.

Por Crabtree, tudo!

19 comentários:

a disse...

Ai as seitas...

jj.amarante disse...

Receio que só os ingleses tenham sido até agora capazes de inventar e sustentar uma instituição deste tipo. É um povo verdadeiramente fora do comum. E parabéns por ser membro de tal instituição!

Anónimo disse...

Seria interessante publicar a correspondência entre Crabtree e Fradique Mendes
Fernando Neves

Isabel Seixas disse...

De repente percebi que Crabtree dá para trava linguas para substituir um tigre dois tigres três tigres, só para variar...

e podendo ousar, ouse sr. embaixador o traje de exceção...

Luís Lavoura disse...

Fui ver à wikipedia e encontrei muito crabtree, mas nenhum Joseph William.
Presumo portanto que apenas seja uma tertúlia de uns tipos que se juntam para beber uns copos em companhia requintada e selecionada.
Muito próprio para uma pessoa de esquerda como o Francisco.

Francisco Seixas da Costa disse...

Luis Lavoura não parece muito prendado para coisas informáticas:

- https://books.google.co.uk/books?id=Tj55AgAAQBAJ&pg=PA263&lpg=PA263&dq=joseph+william+crabtree&source=bl&ots=gfPGR_pC6y&sig=DMhwhm54VCGMzCuuZvxS2WiB7_k&hl=pt-PT&sa=X&ved=0ahUKEwjq4vz6qf_KAhUD8RQKHSiTAeEQ6AEIOjAN

- http://www.crabtreemelbourne.org/biog.html

- http://dictionary.sensagent.com/Joseph%20Crabtree%20(polymath)/en-en//

Ah! E só a direita é que se ri, na sua opinião... Só que, às vezes, é a esquerda que se fica a rir da direita

Anónimo disse...

Embaixador, disse ai que também fazem isso em Harare? hum, será que o Mugabe deixa, lembrei agora, deixa, porque os lacaios e parvalhões brancos que lá quiseram continuar a morar depois da deposição do Ian Smith, nos inicios dos anos 8o, com a sua ganãncia de lá quererem continuar a explorar, chegaram ao ponto de se humilhar perante o Mugabe, ao que se diz ele até andou a cavalo neles e outras coisas bem piores. Por isso cuidado quando lá tiver que ir um dia para celebrar essa treta.

Anónimo disse...

Embaixador continuo a preferir o Fradique Mendes. Sabe é uma questão de ficar mais ao pé da porta. Ai Lavoura Lavoura, desse jeito e com essa tua inteligência ainda vais fazer jus ao teu nome.

Anónimo disse...

Nos últimos anos, no silêncio do meu estúdio, tenho-me debruçado aturadamente sobre esta personagem fascinante. Digo esta porque, com o decorrer das minhas sérias investigações, ponho neste momento a hipótese mais que plausível de se tratar de uma dama que, avant la lettre, se transmutou para o sexo masculino. Tenho na minha posse documentos que avalizam esta tese, descobertos há anos num lojista de Londres que, segundo concluí, sde tomara de amores por tal ser, a ponto de lhe ter legado todos os seus bens, incluindo uma enorme quinta nas proximidades de Windsor. Esta proximidade da realeza proporcionou-lhe encontros com uma dama da realeza, com que entabulou uma relação mui "avançada" para a época, o que lhe prpoporcionou alguns dissabores, dado que o ilustre Sir não acatou de bom grado ser alceado. Mais não digo, mas tenho no meu sótão/estúdio documentação que um dia revelarei sobre tão enigmático(a) personagem. Não sou como o S. Tomé (ver para crer), porque ainda eu estava longe de ser nascido quando tal ocorreu. Fontes fidedignas, são fontes fidedignas.

Helena Sacadura Cabral disse...

Só o tempo vai permitindo descobrir aquilo que se ignorou. Esta revelação do Anónimo das 21:43 faz-me lembrar a que ouvi ontem das cartas do nosso Papa João Paulo II enviadas a uma senhora por quem nutriria especial dedicação.
Só o decorrer do tempo permite discorrer sobre a História, a real e verdadeira. Crabtree é, de facto, um personagem surpreendente. Mas duvido que tenhamos gente suficientemente qualificada para um chapter à altura. Já não são muitos os vivos que o poderiam integrar!

Anónimo disse...

Homens (Mulheres?) de pouca fe, como dizia S. Tome! Entao J.W.Crabtree nao existiu? Ate andou por Portugal (Sintra, Douro, Mateus) e isto esta documentado. Entao nao existiu? Consultem o "Oxford Book of English Verse". Como muito bem diz o anonimo das 21.43 "Fontes fidedignas sao fontes fidedignas" Ai ai como dizem os meus netos quando caiem e esmurram os joelhos.

So falta ouvir atoardas que Joao de Fiesole nunca existiu. Claro que existiu. Nasceu em 1387 em Mugelo (Italia) mas ficou mais conhecido como Fra Angelico. Pintava, vejam bem. Acontece que e o Santo Padroeiro do dia 18 de Fevereiro

Bom regresso a patria neste dia cinzento.

F. Crabtree

ignatz disse...

" Por ali está a nata da sociedade britânica, professores universitários, artistas, membros do parlamento, banqueiros da City, diplomatas, militares, advogados, empresários e outros profissionais de relevo."

eheheh... não comento para não ser censurado.

ignatz disse...

gostava de saber quem é que paga o invento, mas cavalheiro não fala de dinheiro.

Francisco Seixas da Costa disse...

O ignatz, azeitado, só usa vinagre. É o habitual.

Anónimo disse...

O ignatz é um prato onde quer que apareça. Destila por tudo quanto é lado.

Ana Vasconcelos disse...

No melhor espirito da excentricidade e da excelencia da Academia britanica em evocar o que deve ser preservado. O mesmo espirito que mantem o corpo de Jeremy Bentham em exposicao numa vitrina, nessa mesma instituicao que acolhe a Crabtree Foundation, a UCL, a cuja fundacao Bentham esta ligado. Dizem os mitos que se desloca o corpo de Bentham para as reunioes do Council da UCL e as actas da mesma registam: 'Jeremy Bentham - present, but not voting'.
https://www.ucl.ac.uk/Bentham-Project/who/autoicon

Anónimo disse...

Melhor ainda é o Lavoura. O tal que não conhecia tão distinta personalidade, que até dá aso a uma data de iluminados e reformados sem nada para fazerem a não ser comerem chorudas reformas pagas por miseros Países. ó Lavora bem que te avisei fosses estudar. Mas melhor que estudares, tivesses bons padrinhos que te abririam as portas certas na hora certa e no lugar certo.

Francisco Baptista disse...

Boa tarde,

desde já congratulo-me por Portugal estar tão bem representado nesse clube exclusivo de 200 personalidades, celebrando justamente a vida e obra daquela personagem maior, espírito do seu tempo.
No intuito de acalmar os animos dos infelizes excluídos, no que parece ser a nossa sina milenar, julgo poder afirmar que, a seu tempo, o nosso país também contará com um sucedâneo, à nossa escala claro: um clube em homenagem de Michael Lawn (1961-?), cavalheiro de negócios, personalidade marcante e omnipresente no dealbar do Sec. XXI português. A selecção não deixará de ser rigorosa e prevêem-se vários «chapters» no mundo lusófono. As Orações serão fascinantes, se me é permitido advinhar, mas duvido que sejam publicáveis.

Anónimo disse...

Bem se realmente forem fazer aqui em Portugal, já vejo um sitio que pode ser um bom lugar. A carregueira, tal é o numero de pessoas de elite que já lá estão, e poderemos e desejamos lá ver mais uns quantos, daria uma boa sessão de merdelande.