sábado, 6 de fevereiro de 2016

A Tia de Costa

Por muito tempo, a Comissão era o nosso “amigo de Bruxelas”. Fábrica e distribuidora de fundos, era como que um instrumento de correção do poder diferenciado dos países. A retórica de solidariedade construía então a narrativa de uma Europa que almejava o nivelamento das condições de vida - a tal coesão. Esse mundo mirífico acabou.

De “bom da fita”, à Comissão europeia de hoje está cometida pelos Estados a tarefa de auxiliar o BCE na gestão do euro - esse heterónimo do marco, que os alemães um dia dispensaram, para obterem os derradeiros galões europeus da paz, a unificação, o alargamento e o mercado privilegiado onde assenta toda a sua riqueza. Essa gestão rege-se por uma ideologia, e ai de quem a contestar.

Margareth Thatcher disse um dia que “there is no alternative” ao modelo liberal, ao mercado puro e duro. A fórmula ficou conhecida por TINA e enforma a filosofia que hoje prevalece nas instituições europeias. Foi a TINA que moldou o “memorando de entendimento” e, por cá, a TINA foi a ideologia da coesa coligação Troika/PSD/CDS que governou Portugal e ainda hoje coloniza a mente da maioria dos nossos comentadores económicos.

Os gregos aprenderam na pele que é muito arriscado enfrentar o “touro” europeu de frente. António Costa fê-lo “de cernelha” e, com arte de lide, decidiu provar que a TINA podia começar a ser contrariada. Jogando as parcelas de forma diferente, fazendo essa coisa diversa (inesperada?) que é uma política fiscal de esquerda, conseguiu levar a água ao seu moinho. Percebeu-se o incómodo do ortodoxo báltico, que lia o papel da Comissão com um dos olhos em Berlim e outro em Madrid, ao ter entendido que, porque agora temos uma política europeia, temos outras armas, noutros tabuleiros, com que Bruxelas deve contar. Quem sabe se António Costa não encontrou uma “TIA" ("there is alternative”)?

(Artigo que hoje publico no "Diário de Notícias")

7 comentários:

Fernando Nogueira disse...

Muito bom! Partilho na sua totalidade a Tia...

Joaquim de Freitas disse...

Na realidade, é o conceito de Estado "semi-colonial" que traz mais luz na situação actual dos países europeus. Considero assim, que a UE é um sistema colonial cuja "metrópole" se encontra na Alemanha.

Ao ver o nosso primeiro ministro, como no passado os precedentes, ser obrigado de ir a Bruxelas buscar a autorização para o seu OE de 2016, autorização que na realidade vem de Madame Merckel, em Berlim, a Alemanha aparece como a principal "mestre de obra" deste neo-colonialismo à escala da Europa.

A construção de hospitais, escolas, estradas, o sistema de saúde, e a organização do trabalho no tocante a salários e duração, e do sistema de reformas, depende do "Visto" de Berlim, como noutros tempos o Governador de Angola ou Moçambique devia obter o de Lisboa, para os seus investimentos.

E isto sucede, porque a maior riqueza actual na Europa é na Alemanha que ela se encontra, materializada pelos seus rendeiros, que vivem dos benefícios duma exploração florescente do resto da Europa, graças a uma moeda feita de medida para eles, e a uma indústria poderosa que tem um mercado à medida das suas capacidades.

Esta valorização do capital é a preocupação essencial da Alemanha, porque dela depende a retribuição das rendas aos seus nacionais.

Ao saque das riquezas das colónias pelas antigas potências coloniais, corresponde hoje uma espécie de colonialismo continental introvertido, no qual o nível de desenvolvimento das suas "colónias" europeias é fixado pelos verdadeiros possuidores do capital que são as instituições financeiras que protegem os seus clientes "rendeiros".

Seria necessário uma intervenção da providência para que esta renda , que cresce graças à precariedade organizada e controlada dos povos submetidos, seja remunerada em função duma justa partilha das riquezas produzidas. E nada mais.

Anónimo disse...

Só falta mesmo ouvir os "olés".
Espero que em breve.

Septuagenário disse...

Merkel, Passos, PS, Seguro, PCP/cgtp, BE/liga, TAP...quem se segue?
Não haverá algo estranho a rondar?
Cautela e caldos de galinha...!

aamgvieira disse...

"O palhaço, o chuchu e o gordo rosa a cirandar a volta da fogueira !

josé ricardo disse...

A verdadeira TIA da União Europeia só poderá emergir de uma efetiva e despreconceituosa coligação das "bêtes noires" europeias, a saber, a Grécia, Itália, Espanha e Portugal.
Estou propenso a crer que já faltou mais...
José Ricardo

Antonio Cristovao disse...

Em Portugal costumamos dizer TIO rico que pague os desmandos do menino.
Ma sjulgo que a Merkl ou Bruxelas não estão muito de acordo de bancar a TIO ou Tia. Até Maio para ver onde param as modas, e já gozam.