quinta-feira, 11 de junho de 2015

Rio-Lisboa


(Deixo aqui um artigo do escritor brasileiro Joaquim Ferreira dos Santos, publicado em "O Globo", do Rio de Janeiro, em 28 de maio de 2015. Às vezes, sabe bem ver os outros olhar para aquilo que nem notamos.)
 
O bom de descer as ladeiras de Lisboa é que durante alguns dias você está longe da selvageria carioca, pode sentir a nostalgia de sair flanando como fazia antes nas ruas da sua cidade. Zero de medo. Assim como quem não quer nada, um sorvete da Santini numa das mãos, você vai Rua do Carmo abaixo, passa pela luvaria Ulisses e, quando dá com os cornos no Rossio, o largo monumental pode fazer a surpresa de oferecer uma festa de máscaras ibéricas, comidas e danças por todos os lados, mas nunca a cena de um médico ensanguentado no chão do Café Nicola, esfaqueado por algum garoto que em seguida lhe roubou a bicicleta e foi embora.
 
Isto aqui é Lisboa, ó pá. Zero de deslumbramento. As escolas de Portugal acabaram de ser avaliadas em trigésimo lugar num ranking de 38 sistemas educacionais europeus, há muita coisa a ser feita, mas o bom disto aqui é que se vive em paz com os pequenos valores da existência. Zero de sobressaltos. A delícia antiga de se ir ali à esquina e, na ordem natural da felicidade das coisas, voltar sem que a polícia lhe tenha metido uma bala perdida nas costas.
 
Agora, por exemplo, você está na ladeira do Príncipe Real e basta pôr os pés na faixa de pedestres para que os carros parem até você chegar do outro lado. Aí é só começar a descer a rua por uma calçada de pedras portuguesas, todas postas em seus lugares, nenhuma solta e chamando os pés para um tropeção que pode para sempre lhe estuporar os artelhos e desgraçar a sobrevivência.
 
Não está acontecendo nada de muito notável, Lisboa está linda, mas não se faz aqui o registro de qualquer grande marco a se exaltar na revolução civilizatória moderna. É apenas uma cidade que tem se descoberto feliz consigo mesma.
 
Lisboa está coberta dos caminhos simples, verdadeiros yellow-brick-roads para se levar a vida com leveza, essa carência carioca, e num deles você desce o Bairro Alto, atravessa o Largo Luís de Camões, pega a Rua Alecrim e, ao final, apesar de todas as modernidades da Rua Nova do Carvalho, é possível encontrar ainda de pé as tascas da tradição gastronômica. Tudo convive sem conflito. Ao contrário do Rio, onde toda semana fecham uma mesa na memória do paladar e tiram da boca do cidadão um gosto familiar, em Lisboa é possível sentar num tamborete do quase botequim Sol e Pesca para comer as conservas que há séculos apetecem ao apetite local. Ninguém mais sabe ao certo o que é antigo e o que é moderno. As sardinhas continuam nas latas, o azeite continua de oliva, mas o estilo de tudo isso agora vem embrulhado em papéis do mais fino design.
 
Isto aqui é Lisboa, ó pá, e isto não é o anúncio de que o mundo está sendo reinventado a partir de suas oito colinas. Os políticos corruptos também estão, como os ratos de sua corja internacional, nas capas do “Expresso” e do “Público”. Mas na vida real do dia a dia a cidade encontrou um jeito delicado de lustrar os seus casarões magníficos, parecidos com os que todo mês desabam na Lapa carioca e, ao mesmo tempo em que se orgulha deles, reinventa suas funções. Não há mais loja de roupa, mas de “conceito”, e portuguesa de bigode era a vovozinha. Agora as garotas são todas “gira”, o termo local para traduzir o “cool”.
 
A sensação em alguns momentos é que você vai sair da Rua Augusta, tomar uma ginja no canto da Praça da Figueira e quando dobrar em direção ao Largo dos Intendentes vai dar na verdade nos Arcos da Lapa. Mas é só impressão. As ruas são limpas, os garçons servem às mesas com presteza, os telhados são os mais bonitos do mundo e as praças estão sempre tomadas por senhoras que descansam ou jovens, no Quiosque do Refresco, animados por doses de capilé. Tagarelam, paqueram, o de sempre. Ninguém aporrinha o próximo.
 
O Cais do Sodré, por exemplo, está basicamente o mesmo de sete anos atrás. Mas se você prestar bem a atenção, andar para a direita e entrar no Mercado da Ribeira, lá sobrevive o comércio tradicional das barracas dos tripeiros, convivendo com os stands da nova culinária portuguesa, tudo redesenhado sob o patrocínio da revista “Time Out” — e é impossível ao carioca não pensar que um dia, sem precisar ir tão longe, poderia estar assim, curtindo a vida em paz, comprando suas flores, gastando pouco, beliscando o que quisesse, na Cadeg de Benfica. Depois, sem entrar em pânico, passaria pela Barreira do Vasco e chegaria em casa para contar aos que ficaram como foi bom.
 
Ao carioca-da-semana-passada, um dos períodos mais tristes da vida da cidade, foi preciso ir até Lisboa para recolher histórias de não acontecimentos, comer um bacalhau ao sossego e ter a sensação inenarrável de que não corre o risco de ser assassinado na próxima esquina — e em Lisboa esses sonhos, essas pataniscas simples, parecem cada vez mais fáceis de se realizarem. A cidade se pacificou com suas tradições, entendeu feliz que um bom jeito de avançar é o da refazenda das suas guarirobas. Ao invés de gourmet, os pastéis de Belém procuram resgatar a receita original. E se em algum momento a cidade tentou esquecer Amália Rodrigues, por causa de suas relações com Salazar, Lisboa agora, em mais um arroubo de orgulho pelas suas referências, está cercada de motoristas de táxi com os carros sintonizados na recente Rádio Amália, um chorrilho de 24 horas de fados da grande cantora.
 
Na chegada ao Galeão, o carioca-da-semana-passada foi cercado pela notória turbamulta de taxistas. Sonhou que uma Rádio Elizete Cardoso iniciava o processo de pacificação geral e convocava a cidade a guardar suas facas.

9 comentários:

Bartolomeu disse...

Uma coisa é olhar e outra diferente, é ver. O Jornalista Ferreira dos Santos... olhou e sentiu aquilo que os seus sentidos no imediato lhe transmitiram; mas não viu. As pedras da calçada portuguesa, correm o risco de ser substituidas por placas de cimento; as antigas tascas (as que ainda não fecharam) por obra e graça das fiscalizações ASAEnianas, servem sabores liofilizados, estirilizados e assépticos. Ainda bem que esta entidade fiscalizadora do estado intrevém tão duramente; é que não parava de morrer gente, vítima da falta do uso de faca vermelha para as carnes, verde para os legumes e azul para os peixes.
Como dizia o comediante Jô Soares... "haja Deus Eleonora!Tem pai q'ué cego..."

Anónimo disse...

Como sabe bem! Totalmente de “Acordo”! Até “parece” que o autor usa uma língua diferente!
E a inveja pelos lisboetas começa mesmo do lado de cá! Não lhes chega estarem "pertinho" do “orçamento”! Vivem também na melhor cidade do mundo!
Pois, não sabem o que têm!

Anónimo disse...

quem dela tem falta que o diga...

...eu

Anónimo disse...

Algumas vezes é necessário ir lá fora (ao estrangeiro), para reconhecermos que nem tudo é mau por cá... Uma das recentes notícias vinda do Rio de Janeiro, que muito mexeu comigo, foi o assassinato de um médico por dois rapazes para lhe roubarem a bicicleta, quando ele fazia desporto nos seus tempos livres.

Joaquim de Freitas disse...

Desde há muito que a vida humana perdeu valor no Brasil. Da origem da escravatura e desde os fazendeiros que aplicam a lei dos pistoleiros no sertão quando alguém ocupa uns pobres metros quadrados para fazer viver a família, aos esquadrões da morte que assassinam crianças nas favelas do Rio, aos excessos de violência dos estádios, o Brasil ritma com violência como a Colômbia e a Venezuela. Procurem onde existem mais injustiças sociais e as gentes mais escandalosamente ricas, e encontrarão a causa da violência.

Bmonteiro disse...

A wonderful world.
Claro, que na visão de quem está de passagem curta.
O que não poderia ser, se a autarquia cuidasse da cidade
como devem ser cuidadas as plantas.
As da natureza e as das cidades.

Portugalredecouvertes disse...


Também leio muitos comentários de portugueses sobre a grandeza e beleza do Rio! o facto de querermos ver sempre mais e melhor, não quer dizer que não se ame o que se tem...
E as cidades passam por ciclos, com maior ou menor grandeza...
esperemos que se conservem os espaços de calçada portuguesa, do Rio a Lisboa

Anónimo disse...

e que dizer da Caparica, uma praia que pede meças a qualquer outra, às portas de Lisboa ou dentro de Lisboa? E da luz da cidade? e da vista quando se aterra em Lisboa vindo do sul que provoca um aperto de coração, apenas de emoção por tanta beleza?
É tudo impagável, graças a Deus
João Vieira

Anónimo disse...

Dá para ver que ele não foi assediado pela matilha de ciganões que por ali anda a oferecer agressivamente "haxe".