terça-feira, 19 de agosto de 2014

Uma guerra perdida?

Foi ontem, ao jantar, num restaurante de Lisboa. Na mesa ao nosso lado, dois franceses procuravam "desembrulhar-se" com o menu. Que estava escrito em português e inglês. O pessoal, com uma gentileza impecável, lá procurava ajudar, mas a incomunicabilidade era quase total. Tentámos dar "uma mão" mas, como é sabido, é precisamente nos momentos em que procuramos lembrar-nos do nome de um peixe ou detalhar o modo de cozinhar um prato que o conhecido "alemão" mais nos ataca e os nomes não nos saem.
 
A conversa, inevitável, com os franceses acabou com a constatação, por eles, de que a preservação do francês como língua internacional de comunicação era uma "guerra perdida". Sem querermos concordar em absoluto, tivemos de anuir que, nas novas gerações portuguesas, a apetência pela língua francesa é residual. Há semanas, esta nostálgica constatação já havia sido feita numa sessão no Instituto Franco-Português onde, perante uma dezenas de pessoas reunidas em torno da apresentação de um livro francês de ficção editado em Portugal, houve oportunidade de desenvolver um pouco mais o assunto.
 
A progressiva perda do francês em favor do inglês como língua conhecida pelas novas gerações é um "fact of life" - e não é por acaso que uso uma expressão inglesa para exprimir isto. O inglês veio para ficar como língua veicular. Não apenas o inglês simples, não sofisticado, com umas centenas de vocábulos, aquilo a que alguns chamam "o inglês de aeroporto" ou "de hotel", que será cada vez mais o meio comunicacional do futuro. Mas igualmente o inglês mais elaborado. Nos últimos meses, foi em inglês que dei aulas numa universidade portuguesa, fiz parte (em Lisboa e em outra capital europeia) de júris de concursos de acesso a uma empresa portuguesa em que foi usado o inglês, integro órgãos de direção de empresas nacionais em que as reuniões se passam exclusivamente em inglês (porque estão presentes pessoas de outras nacionalidades e o léxico comum dos negócios é em inglês).
 
E, no entanto, o francês continua a ser uma língua magnífica, dá-nos acesso a uma cultura ímpar e insubstituível. Por isso, posso anunciar aos leitores "francófilos" que está em curso uma saudável "conspiração" para fazer renascer em Portugal o "Cercle Voltaire", uma estrutura que pretende promover a língua e a cultura francesa, organizando eventos e outras iniciativas nesse âmbito. Este blogue não deixará de dar conta, em breve, do que vier a ser público nesse âmbito. A "guerra" pode estar perdida, mas há ainda belas "batalhas" a disputar em torno da língua francesa. Lutar pelo francês "c'est de bonne guerre"!

22 comentários:

Anónimo disse...

Je suis totalement d'accord et disponible pour participer. J'ai appris à lire et à écrire en français et cela devra bien servir à quelque chose dans l'avenir, comme il a été le cas dans le passé.
Amicalement
JPGarcia

Anónimo disse...

Encore bien que les falants de français comme le moi pouvons dans ce Cercle Voltair venir paroler et je me candidate pourtant à membre de droit, merci beaucou, Monsieur Ambassadeur

a) Feliciano da Mata, homem do mundo, falante de muitas e desvairadas línguas

Marcos Correia disse...

Bom Dia,

Antes de mais, gostaria de dizer que sou um leitor assíduo do seu blog, onde a qualidade e diversidade de estórias estão cada vez melhores.

Relativamente ao seu post, apenas queria uma informação relativa ao Cercle Voltaire.
Haverá oportunidades/concursos condizentes para com uma pessoa fluente em Francês (residente em Paris), Inglês e Espanhol (nativo) com mestrado em Literatura (Sobornne) e experiência em ensino e actividades culturais em França?

Peço desde já as minhas desculpas pela formulação desta questão no seu blog pessoal mas a sua confissão levantou o meu interesse. Também gosto de acreditar que são nestas pequenas informalidades que se conseguem as melhores oportunidades, se no entanto assim não for, ficam mais uma vez os elogios ao seu blogue, decidadamente um dos melhores em Portugal.

Grato pela atenção e com os melhores cumprimentos

Marcos Correia

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Marcos Correia: o "Cercle Voltaire" foi no passado, e pretende-se que volte a ser, uma associação sem quadro nem estruturas físicas, alimentada por voluntários, sem quaisquer fins lucrativos.
E fico muito grato pelas palavras sobre o blogue.

Marcos Correia disse...

Bom Dia,

Obrigado pelo rápido esclarecimento. A oportunidade então passa mas o leitor assíduo do seu blog permanece.

Com os melhores cumprimentos

Marcos Correia

patricio branco disse...

esperamos noticias desse cercle com tão expressivo nome.

talvez por uma questão de simpatico respeito e solidariedade para com o vizinho cuja lingua quase já não se usa, os diplomatas ingleses são bons faladores de francês, mesmo que pouco o mostrem

Anónimo disse...

A língua francesa a desaparecer??? Em Portugal não. Os sucessivos governos através da DGEducação continuam a promover o seu ensino nas escolas públicas por mais que os alunos queiram espanhol, mandarim ou outra qualquer. Até porque o que é que se fazia às dezenas de professores de francês do quadro que por aí proliferam? Reforma antecipada?

maria disse...

Há sessenta e muitos anos, havia cinco horas semanais de Francês e duas de Inglês, no Liceu. Isto para não falar do Alemão... A minha Mãe, que era de Germânicas (e ainda chegou a dar aulas de Alemão no Liceu, "emprestada", pelo Colégio, não teve outro remédio que não fosse ensinar também Francês, porque, a partir de certa altura, não tinha alunos para Alemão. Não poderão tirar-se conclusões,para a decadência das duas línguas, dos resultados das duas guerras? O meu pobre Inglês -dois anos a duas horas semanais, sem ouvir nem falar -resulta mais das legendas dos filmes e de alguns livros que tive de ler e que com maior ou maior dificuldade vou lendo (principalmente humorísticos...)
Aproveito para o (e me) felicitar pela excelente qualidade dos seus textos, que muito me satisfazem dada a nossa condição de duplos conterrâneos...
Mete-me às vezes um bocado de confusão é o "diplomatiquês", mas, como é só lá de vez em quando... não chega a obnubilar-me.

Grato pelos muitos outros textos.
Abração!

Magalhães dos Santos

Anónimo disse...

Cher Fèlicien

A moi ne me trompes pas tu. Je suis Seguro que ces bouches kitsch viennent de quelqu'un qui domine la langue de Rabelé comme Pessoa.
a) Gaspard de la Jungle

Anónimo disse...

Os franceses são os culpados pela diminuição da importância da sua lingua. Exemplo disso é tratamento desagradável e arrogante dado pelos liceus franceses a qualquer diplomata estrangeiro que pretenda matricular os seus filhos pela primeira vez num daqueles estabelecimentos de ensino.
Os colégios ingleses recebem as crianças de braços abertos.































































































Anónimo disse...

caro embaixador

"A conversa, inevitável, com os franceses acabou com a constatação, por eles, de que a preservação do francês como língua internacional de comunicação era uma "guerra perdida" "

que os portugueses se familiarizem com a cultura francesa muito bem, mas à por vezes inacreditavel arrogancia e sobranceria de alguns francius
no seu territorio, nao ha como ve los em terra alheia amedricados "je veux un peu ze waterr" " i cannot speak inguilish"

como dizem os brasileiros "cair na real"



https://www.youtube.com/watch?v=S_xH7noaqTA



Helena Sacadura Cabral disse...

Ora aqui está uma bela notícia num tempo em que elas escasseiam!

Anónimo disse...

Quando era adolescente, com uns 15anos e picos, meus pais tiveram a genial ideia de contratar uma “Mademoiselle” para melhorarmos o nosso francês, com base, sobretudo, na “conversação”. Um irmão, mais novo, não tinha muita paciência e, sempre que podia, “baldava-se”. Já eu, quase com 16 anos, ficava ali. A dita “demoiselle” era um “petisco”. As “aulas de conversação” eram lá em casa. Como meu pai andava ocupado a trabalhar e minha mãe andava a laurear, eu ficava com “tempo livre” para “conversar” com a dita “professora” de “fraciu”. E, com ela, uma rapariga nova, francesa, vinte e coisa, lá “fui aprendendo algumas coisas e melhorando outras, comuns em França, Portugal e no resto do Mundo”. Reconheço que, o meu francês também registou progressos. “Mon chou chou”, chamava-me ás vezes a “Mademoiselle”.
Como dizia o outro: “La vie est belle mais les femmes dão cabo delle, mas nem todas elles, só quelques delles!” Como era, sem dúvida, o caso da menina Sabine, a dita Mademoiselle. Ainda hoje sei dizer “oui, cést bon”, em virtude da dedicação à causa de bem “ensinar” francês levada a cabo pela Mademoiselle "Sabine quelque chose".
Adieu!
François de La Croix

Defreitas disse...

Excelente tema, mais um, do blogue do Senhor Embaixador. Tanto mais que, a língua francesa não é a propriedade exclusiva dos Franceses e que a França tem responsabilidades perante os outros locutores da sua língua.

Há varias razoes para o recuo do francês no mundo, e sem duvida nenhuma a ciência e a tecnologia da comunicação são entre as principais. Incluindo as expressões inglesas nos jornais televisivos onde tudo podia ser dito em francês, sem problema. Um exemplo é o duma cadeia de informação em contínuo , que apresenta o jornal duma "new's room" , trata os sujeitos "in live", e introduz um palavra em inglês em quase todas as frases!
Assim, são os Franceses eles mesmos que desferem golpes graves contra a sua bela língua.

Um exemplo mais grave, a lei Fioraso, ministre do ensino superior e da pesquisa, que queria "anglicisar" o ensino dos masters em França, segundo as universidades, ao contrário do que fez outro ministro, Toubon, que estipulava expressamente que a língua do ensino superior em França é o francês, salvo algumas excepções.
Mas na prática, mais de 700 masters inteiramente em inglês são propostos nas universidades francesas, sobretudo nas escolas de comércio. Estes masters são ilegais e o objectivo da ministre Fioraso era de os legalizar. E dentro de cem anos o Francês seria banido das escolas!

Claro que como outros certamente, quando passo no Algarve, irrita-me que se dirijam imediatamente a mim , num hotel ou num restaurante, em inglês, talvez por causa do meu aspecto físico, o que me dá o ensejo de perguntar se "neste pais , não se fala o Português"!

O inglês? Útil e pragmático , e é por isso que é internacional.Graças ao Império e aos EUA .
O francês? Como dizia Napoleão, a língua mais bela, e certamente a primeira para falar às mulheres!

Mais moi, c'est dans les frontons des mairies de France, que je trouve qu'elle est la plus belle, dans les trois mots sublimes gravés à jamais.

Anónimo disse...

Anónimo das 13:30:
Melhor seria que aprendesse português... antes de comentar.

Portugalredecouvertes disse...

Sobre este assunto de grande importância, eu diria que em primeiro lugar foi minha ideia pedir aos franceses que promovessem também a língua portuguesa e que eu iria utilizar o francês no meu blogue! mas não encontrei a quem me dirigir,então lá fui eu pelo francês sem moeda de troca!
mas o Sr. Embaixador que conhece muita gente talvez saiba quem poderia ficar com um recado desses e talvez os franceses passassem a ensinar o português que também é gente! tendo em conta o projeto de apoio à língua deles.

Anónimo disse...

Cher Monsieur De La Jungle, c'est de trés mauvais goût se moquer de la langue française.
Pierre de Saint Martin de la Croix.

Anónimo disse...

Com efeito! Também esta foi a minha experiência, como relatado pelo anterior Anónimo: francófilo(fono) e anglófilo(fono) em iguais medidas, tentei por duas vezes matricular minha filha em liceus franceses nos postos onde fora designado atuar. O primeiro me respondeu com um "não há vagas" quase seis meses antes de nosso traslado; do segundo, estou até hoje, três anos depois, a esperar resposta...

Anónimo disse...

caro anonimo das 15h23

aprecio-lhe o lado democrata..

cumprimentos

Anónimo disse...

Tem quase tudo a ver com a música: se Serge Gainsbourg e Jane Birkin ainda andassem por aí veriam que o interesse pelo francês (do Cocas do liceu e das explicações do tenente) seria outro... estou a rir mas na época, como sabem, havia grandes cantores na língua francesa que "obrigavam" o pessoal a ouvir o francês.
antonio pa

Portugalredecouvertes disse...

permita-me que pense que o Sr. António pa das 23.29 tem alguma razão no que escreve. Relembro um Sr. inglês que conheço que por tradição só conhece a língua dele, mas que toda a gente acha muito engraçado quando ele se põe a cantar em francês: "voulez-vous c... avec moi, ce soir..!"

mas continuo a pensar que deveria haver mais solidariedade entre os países da Europa no que diz respeito ao ensino das línguas europeias.

Anónimo disse...

Mas não é Portugal que gasta já mais dinheiro com o francês que a França gasta com o Português quando a presença de portugueses em França é lncomparavelmente superior à presença de franceses em Portugal ?
Ou uma coisa não tem nada a ver com a outra ?
Eu também gosto muito da lingua Francesa; mas o português em França merecia, pelo menos, o mesmo respeito que o francês em Portugal.
José Barros