sábado, 5 de fevereiro de 2011

Ximenes Belo

Há nomes que desaparecem no tempo, não obstante terem estado presentes, de forma muito pronunciada, no nosso passado.

Ao ler há pouco, no Notas Verbais, que ia ser atribuído um prémio ao bispo Ximenes Belo, lembrei-me de quando Portugal inteiro vibrava com a coragem desse religioso, que soube dar voz e unidade à luta dos timorenses pela sua liberdade. Ximenes Belo foi um exemplo de determinação, causando mesmo algum incómodo à diplomacia da Santa Sé, cuja atitude perante o caso timorense - e esta é a minha opinião, que não escondo - nem sempre esteve à altura da responsabilidade exigível a um poder de influência que, historicamente, se reivindica de uma ética de princípios que não me parece compatível com exasperantes taticismos florentinos. O bispo Ximenes Belo viria a afastar-se de Timor-Leste, por razões de saúde. Vive atualmente em Moçambique, onde exerce atividade religiosa.

Em 1999, fui obrigado a abandonar uma tarefa que estava a fazer em Nova Iorque, no âmbito de uma Assembleia Geral da ONU, para me juntar, em Genebra, ao bispo Ximenes Belo e a José Ramos Horta - as duas figuras distinguidas, em 1996, com o prémio Nobel da Paz. Tratava-se de procurar garantir a condenação da Indonésia na Comissão dos Direitos do Homem das Nações Unidas, depois da violência que se desencadeara no território, na sequência do referendo que consagrou a vontade de independência dos timorenses. A Indonésia continuava numa posição muito relutante, pelo que consagrar o seu isolamento político no plano internacional continuava a ser essencial. 

O governo de Jacarta havia mobilizado todos os seus recursos e influências para derrotar a moção que queríamos ver aprovada. O trabalho de sensibilização de várias delegações em Genebra, muito bem conduzido pelo embaixador Mendonça e Moura, seria por nós os três apoiado, nos dois dias que antecediam a votação, numa ronda intensa de contactos. Na memória ficou-me a recordação quase caricata de ir, com o nosso embaixador, bater à porta da residência do representante diplomático de um país lusófono africano, que necessitava de algum estímulo para estar presente, na manhã seguinte, naquela importante votação.

O dia do voto foi dramático. A Comissão era presidida pela irlandesa Ann Anderson, que, há dois anos, vim a encontrar, aqui em Paris, como embaixadora do seu país. Outra irlandesa, Mary Robinson, era, à época, Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Visitei-a logo após a minha chegada à Suíça e, naquilo que dela dependia, deu total apoio às nossas pretensões. Articulei com o bispo Belo e com Ramos Horta o teor dos nossos discursos. E tivemos sucesso: a Indonésia sofreu uma esmagadora derrota e saiu condenada dessa votação.

Porque o mundo que fala a nossa língua é (e ainda bem!) o que é, lembro-me que grande parte da conversa entre mim e os dois representantes timorenses, no "Falcon" que nos levou depois a Lisboa, acabou por ser sobre... futebol português.

4 comentários:

Mário Machado disse...

Um dos melhores momentos da minha vida de estudante na seca Brasília foi quando a Católica (Universidade Católica de Brasília) deu um prêmio de Doutor Honoris Causa ao Bispo e pude participar da cerimônia, por conta de um cargo de política estudantil que detinha a época.

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa,

O Bispo D. Ximenes Belo foi, de facto, um dos esteios que permitiram a resistência anímica do povo Timorense face à prepotência imperial da Indonésia.

Agradeço o papel que a diplomacia portuguesa teve, designadamente do Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa, em conjunto com esses insignes líderes timorenses, para isolar a Indonésia na Comunidade Internacional.

Subscrevo a dimensão lusófona que D. Ximenes Belo tem pela aproximação que a causa Timorense deu aos países falantes da língua de Camões! O seu sentimento lusófono expressa-se também no facto de ter ido viver para Moçambique sem esquecer nunca os laços que devem ligar os povos de expressão portuguesa!

Saudações cordiais do MIL-ilitante, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.mil-hafre.blogspot.com
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
E assim o futebol ficou em Timor-leste...
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O ano passado o Nuno Gomes do Benfica, durante uma visita ao território foi nomeado embaixador de Boa Vontade, pelo presidente Ramos Horta e concedido, à estrela, um passaporte diplomático.
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O futebol continua arrastar multidões e paixões entre os políticos e o público que governam.
Saudações das terras dos khmer - Tailândia

patricio branco disse...

Não sabia que XB vivia em moçambique, imaginava-o em timor, retirado, ou mesmo na austrália ou portugal.