domingo, 27 de fevereiro de 2011

Hierarquia

Entrava sempre para o tarde. Era uma figura de recorte antiquado, com o cabelo oleado, puxado para trás, risca bem marcada. Dizia-se que não "regulava" bem e, de facto, a sua cara não convidava a grandes familiaridades. O olhar era fixo, mas logo fugidio, não sorria muito e falava ainda menos. Sabia-se que tinha tido uma carreira sofrível, povoada de incidentes de comportamento, marcada por um crescente destrambelhamento, fruto ou razão de crises familares. A sua ascensão à categoria de conselheiro, que à época permitia chefiar missões diplomáticas, era mais do que improvável.

E, dessa forma, por ali estava ele, "velho primeiro secretário" (como então se dizia de outros em idênticas circunstâncias), naquela repartição secundária do MNE, sem grandes tarefas atribuídas, até porque a experiência provara que, para além da irregularidade da sua prestação, dava mais trabalho corrigir o que fazia do que fazer as coisas por ele. 

Desde o início, recebera com indisfarçada incomodidade a nova colega que integrara o serviço, do grupo das primeiras mulheres diplomatas que haviam sido admitidas no ministério. Não se dera sequer ao trabalho de ser simpático com ela, como que reagindo ao convívio de géneros que, pela primeira vez, a profissão lhe impunha. E apenas grunhia um som indecifrável, quando esta, pacientemente, lhe dava os bons-dias, remetendo-se depois a um silêncio que a prudência geral do pessoal da sala não ousava quebrar.

Por tradição, à época, cada repartição tinha direito a um "Diário de Noticias", que o contínuo religiosamente levava ao chefe, no gabinete ao lado. Quando, por uma qualquer razão, este não estava ao serviço, o jornal era trazido para a sala, onde a sua leitura era partilhada.

Um dia, a recém-admitida "adida de embaixada", ao entrar na sala comum dos funcionários, viu o "Notícias" sobre uma mesa e, sentando-se no único sofá existente, decidiu passar uma vista de olhos pelo jornal. Estava ela a meio da leitura quando irrompeu na sala o nosso bizarro diplomata. Ao passar em frente à colega, agarrou o jornal e arrancou-lhe das mãos, exclamando, com ar grave: "Eu sou o primeiro secretário!", como que sublinhando o facto de, formalmente, estar a assumir a  direção, em lugar do ausente chefe da repartição. E sentou-se, refastelado, na cadeira de braços da sua secretária, abrindo o jornal sobre a mesa.

O estupor apossou-se da jovem colega, que não esperava tal indelicadeza e que, num assomo de coragem, se preparava para reagir à grosseria. Quedou-se, porém, pela intenção, ao ver o "velho primeiro secretário" tirar do bolso do casaco nada mais nada menos que uma pistola, que colocou, displicente, ao lado do jornal.

Tempos depois, o homem desapareceu da circulação. Nunca houve notícias concretas sobre o tipo de tratamento a que veio a ser sujeito no Júlio de Matos. Por estas e por poucas outras, o seu nome ficou para sempre na memória da casa.    

24 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns...
Isabel seixas

Anónimo disse...

OH! distrai-me ainda não é 28

Anónimo disse...

Não sei se era este, que conheci, de nome pomposo, mas no anedotário do MNE conta-se que havia um que era conhecido por ser atraido pelas ventoinhas que então povoavam o Ministéro, a tal ponto que as tinham de apagar para ele não por lá os dedos.

Francisco Seixas da Costa disse...

Parabéns, porquê?

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo: o qu escreveu leva-me à conclusão de que sabe bem de quem se trata.

José Martins disse...

Senhor Embaixador,
Entrar tarde e a más horas é um mal que ainda não encontrou cura. Servi um excelente chefe e meu amigo, em comissão de seis meses, que chegava à chancelaria às onze e meia da manhã e pela uma e meia da tarde raspava-se para o ar-condicionado de sua casa.
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Não empastava o cabelo de brilhantina, porque já pouco havia na sua cabeça. Vestia calça cinzenta e um casaco (moda na altura) azul e decorado com quatro botões, estampados com âncora dourados.
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Vestia a rigor como um diplomata se deve apresentar. Porém quando chegava à chancelaria depois de me dar os bons dias (lá nisso era simpático e não como outros sem essa delicadeza) rematava: “mas que calor está hoje!”
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Claro o calor era igual a todos os dias em Banguecoque... Eu respondia-lhe: “ Ò homem tire casaco e fique em mangas de camisa”. Não ia no meu conselho.
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O embaixador dizia-me de quando em quando: “a que horas chegou o Dr.************? Hora do costume senhor em embaixador onze e meia!
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Respondia-me: nada mau, nada mau duas horas por dia no gabinete. Um diplomata (reformado hoje) e bom amigo meu.
Saudações de Banguecoque
José Martins

Anónimo disse...

Pois, chegava tarde...
Era incompetente...
Sempre mal humorado...
Mal criado para os colegas...
Se fosse um funcionário de categoria inferior, talvez tivesse sido despedido. Mas como se tratava de um Secretário de Embaixada, foi tolerado, até ao ponto de andar com pistolas nas algibeiras. Boa!

Anónimo disse...

E há a célebre estória de um presidente muito inteligente mas igualmente preguiçoso, nunca tendo cumprido um horário, que disse, com cara de pau, aos seus funcionários: eu hoje que cheguei um bocadinho mais tarde, vou sair um bocadinho mais cedo!
João Vieira

Anónimo disse...

Tenho dúvidas que ele tenha chegado a primeiro secretário. Haveria que consultar Anuários antigos.

cunha ribeiro disse...

Antes de comentar sobre o comportamento deste homem, talvez fosse necessário comentar a sua evidente "doença".
Um homem assim não devia ser homem e secretário ( primeiro, ou segundo..). Devia apenas estar ser homem...

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,
As minhas desculpas de voltar outra vez.
A minha memória começa a ficar agitada com a revelação de suas histórias dentro dos meandros de sua carreira. Tenho histórias saborosas passadas durante os meus quase 30 anos na embaixada de Banguecoque.
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Um daqueles diplomatas que chegava sempre a más horas e cheio de calor à chancelaria o embaixador encarregou-o de saber preços de carros para substituir o velho Mercedes com 10 anos.
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Contactadas várias empresas uma bela mulher,vendedora, veio à chancelaria oferecer a marca e o preço dos automóveis que representava. O número 2 perante tal beleza convidou-a para jantar e durante o repasto tratariam do negócio da viatura.
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O certo foi que nasceu um idílio com jantares, “golfe ranger” e passeios no fim-de-semana. Porém o diplomata número 2 era casado, pai de filhos e já avô e a esposa de vivência de uns 40 anos ou mais destinou vir passar o último mês dos seis da comissão a Banguecoque.
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Estava assim metido numa enrascadela, porque seguiu a enganar a namorada que era um solteirão. Precisava de sair dela...
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Chegou-se ao pé de mim e diz-me: “Ó Martins você é que me poderia safar ficar com a minha namorada, minha mulher vai chegar a Banguecoque... “
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Resposta minha: senhor dr. não aproveito os restos dos outros! Desenrasque-se!
Saudações de Banguecoque
José Martins

Anónimo disse...

Apenas não me digam que este tipo de situações e este tipo de gente acabou no MNE. Conheço ainda alguns com extravagâncias e bizarrices que não lembram a ninguém.

Muito por culpa da cultura do nosso MNE, diga-se. Confesso que não entendo porque em determinadas cidades vemos o Consul geral da Austrália a residir num apartamento num bairro bom da cidade, o mesmo se passando com representantes de outros países desenvolvidos e ditos "ricos". Por outro lado, vemos o consul geral de Portugal a residir numa mansão com uma equipa de funcionários permanente na casa. Isto quando o edifício do Consulado de Portugal já teria todas as condições para a realização de eventos, recepções, jantares etc

Essa gente vem de Portugal, depara-se com essa situação, e veste-se de um complexo de Rainha de Inglaterra e o seu comportamento começa a revelar as tais esquisitices.

Eu sabia muito nem como acabar com isso, aliás todos sabemos apenas falta a coragem para colocar em prática.

Anónimo disse...

viva sr. Embaixador

Qnto ao jornal q era levado ao chefe...
o meu pai(87A)trabalhou na empresa "Minas de Jalles" e nessa época o jornal (primeiro de janeiro)tb era levado ao chefe (Dom Aurélio Gomez Ufano)religiosamente.Ás vezes o meu pai ou outro abriam-no e davam uma vista d'olhos mto rápidamente,mas ele se notava q já tinha sido folheado dizia logo q n o queria pq já estava todo lido.
Bizarrices,como diz hoje o meu pai!
Boa semana!

patricio branco disse...

Pôr a pistola em cima da mesa,ainda podia passar por cena de filme com al pacino (que tambem usa cabelo com gel)mas arrancar o DN à senhora, isso é feio, não se faz.
Velhas histórias que hoje servem para contar e loucos há-os em todos os sítios, até à frente de governos, bokassas e outros de que agora se noticia

Mônica disse...

Cada conto com suas histórias!
com carinho MOnica

Anónimo disse...

O nosso Consul Geral em Sidney, por acaso, vive num apartamento, pequeno, num edificio antigo, num bom bairro, mas pessoal...nada, nem sequer automóvel, como todos os outros consules da União Europeia...
Lendas...

Anónimo disse...

Continue a contar história do passado, porque as do presente são tristes e não provocam invejas. Essa dos consules com uma mansão e uma equipa de funcionários paga pelo Estado não corresponde minimamente as realidades actuais, em que os diplomatas portugueses, abaixo da categoria de embaixador, recebem um subsidio que na maior parte dos casos não cobre metade da renda de um apartamento que não seja nos suburbios. Quanto ao pessoal, se o quiserem pagam-no do seu bolso. Cada um manda no seu dinheiro (os ordenados são dos mais pequenos dos países da União Europeia) e as situações variam de país para país, mas termos um diplomata a representar condignamente Portugal penso que é o desejo de todos.

Anónimo disse...

Há hoje muito diplomata que vive deslumbrado com a profissão (com facto de possuir um passaporte diplomático), como se fizesse parte de uma elite especial, que, uma vez em Posto, corre a comprar um “BMW”, ou outro “topo de gama”, que se relaciona com outras colegas (mais antigos) por interesse, com vista a trepar rápido na carreira, que só pensa e se relaciona no seio da sua “network” (e em juntar-se á dos tais colegas mais velhos), que não gosta de Postos C, que treme perante a hierarquia, mas que, encostado aqui e acoli (à tal hierarquia da Casa, ou pelos gabinetes políticos), lá vai subindo, muitas vezes meteoricamente.
Como me dizia, em tempos idos, um velho Embaixador, hoje já reformado: “a carreira faz-se com trabalho, sacrifício, sentido do dever, lealdade, mas igualmente com coluna vertebral e aprendendo, cultivando-nos, porque também há tempo, em abundância, para isso. E sem nunca esquecer que é mais efémera do que parece! Na recta final, o que importa é o respeito que os outros nutrem por nós, quando se referem a nós. Se assim suceder, missão cumprida. Tudo o resto, pouco importa!”
Rilvas

Anónimo disse...

Não há dúvida que o mundo é dos malucos... principalmente, no mundo do trabalho.

Todos temos conhecimento de casos desprovidos de bom senso como este, mas, infelizmente, ninguém tem a ousadia de pôr ponto final e os ditos "malucos" ficam impunes a vida inteira sem verem sequer um processo disciplinar.

Isabel BP

patricio branco disse...

o consul em sydney de que país? de portugal? E que significa "num edificio antigo, num bom bairro, mas pessoal".
O tema da entrada do blogue é a loucura tolerada e em funções, não a residencia em funções.
Cada um vive onde pode e nem sempre onde gostaria ou deveria.

Anónimo disse...

Visitem São Paulo, caros companheiros.Verão que essa coisa de apartamentos modestos para o consul passa bem ao lado.Mas bem ao lado mesmo.

Anónimo disse...

Gostei de ler o comentário do "Rilvas" e concordo plenamente porque isso é válido para a carreira diplomática e todas as outras.

Há uma ânsia desmesurada de chegar ao topo, mas sem qualquer sacrífio e o mínimo respeito pelos outros... Vale tudo!

Isabel BP

Francisco Seixas da Costa disse...

Para quantos falaram aqui da residência do Consulado-Geral em S. Paulo, quero esclarecer que ela já lá estava quando o atual Cônsul-Geral chegou. E foi mantida, com a qualidade que tem (e com o apoio de empresas portuguesas, que contribuiram para o seu equipamento), por parecer do então embaixador de Portugal no Brasil (que assina este blogue), que a considerou essencial para a afirmação do prestígio da nossa representação na capital económica do Brasil. O miserabilismo e a má-língua juntas são uma receita letal, só equiparada à dor-de-cotovelo.

Anónimo disse...

Pois Sr. embaixador permita-me que comungue da sua opinião.

De facto é necessário gerar condições dignas de conforto para os trabalhadores sejam ele quais forem, não só de salubridade fisica, patrimonial, espiritual, emocional, e afins, isso designa-se criar condições de trabalho e aplicar regras básicas de higiene saúde e ergonomia e não só.

sempre considerei também como profissional de saúde que quem está bem nas condições referidas promove o bem estar de todos...

Refiro também já agora a eficiência de quem de forma inteligente na gestão também inteligente promove a acessibilidade dos trabalhadores que necessitam de se deslocar em carros mais seguros melhores a preços compatíveis com a relação custo beneficio...

Ah! e sem medo da toxicidade dos escarnecedores maledicentes que já se sabe vão enveredar pela apologia do tal miserabilismo...

Até parece que por exemplo alguns grandes do futebol, não vamos mais longe, não ostentam sinais exteriores e escandalosos de riqueza... Mais quando dão algumas sobras por exemplo num jogo de futebol gratuito e bem bom estou-lhes eternamente grata, publicitam-no Ad Nausea...

olhe pelo menos alguns tiveram que estudar e sabe Deus e os Pais em que condições...

Como diria a minha avozinha, Maria não que esteja repesa...

Desculpe alongar-me , mas não tenho a sua capacidade de síntese...

Isabel seixas