sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Guerra colonial

Faz hoje 50 anos, iniciou-se em Angola a revolta contra a administração portuguesa, tema que, no ano passado. nesta mesma data, aqui abordei. Iniciava-se a nossa primeira guerra colonial.

Um amigo chamou, há poucos dias, a minha atenção para o facto de eu utilizar, com regularidade, a expressão guerra colonial, entendendo-a, aparentemente, como algo agressiva face a certos setores nacionais. Perguntou-me por que não falava em "guerra do ultramar" ou "guerra de África".

No léxico público português, o conceito de "guerra do ultramar" está ligado à ficção de que os territórios africanos que estiveram sob administração portuguesa, até 1974, eram "províncias ultramarinas", escondendo desta forma a realidade atrás das palavras. O facto de estarem "para além do mar", conceito de natureza geográfica, não retira a dimensão colonial à realidade que se pretende qualificar. Curiosamente, parece esquecer-se que o termo "colónias" (e até o de "império colonial") foi utilizado até muito tarde, pelo Estado Novo. Só quando os ventos descolonizadores se tornaram ameaçadores no plano internacional é que apareceu oficializado o conceito de "províncias ultramarinas" - no nunca convincente mito do "Portugal do Minho a Timor". Mais tarde, e como alguns se lembrarão, Marcelo Caetano viria mesmo a crismar com o equívoco nome de "Estados" os territórios de Angola e Moçambique, a exemplo do que fora usado para o "Estado da Índia".

As "possessões" (outro termo que, significativamente, se usava no salazarismo, paralelamente ao conceito de "ultramar") africanas e asiáticas eram simples colónias e, como tal, foram sempre consideradas pela comunidade internacional - a qual, valha a verdade, nunca foi "inimiga" de Portugal mas sim da ditadura que sobrevivia no nosso país. Contrariamente aos tempos do Estado Novo, em que quem falasse de "colónias" tinha a certeza de vir a sofrer represálias, hoje é perfeitamente legítimo, na democracia que a Revolução do 25 de abril nos trouxe, referir o "ultramar" ou as "províncias ultramarinas".

É óbvio que esta questão se prende com o problema da "guerra". Para alguns, o conceito de "guerra do ultramar" é mais confortável e a ideia de guerra colonial pode ser lida como potencialmente deslegitimadora da luta dos nossos soldados, entre 1961 e 1974.

Nada de mais errado. As Forças Armadas portuguesas conduziram, nesses 13 anos, um esforço de preservação da soberania portuguesa sobre as suas colónias, conforme lhe era ordenado pelo regime então vigente. Fizeram-no com o profissionalismo e o sentido patriótico a que sempre nos habituaram, arcando com sacrifícios em termos humanos que o país deve reconhecer e prestigiar. Os militares portugueses que intervieram nas guerras que Portugal disputou nessa África - todos os combatentes, mas, em especial, os feridos e os mortos - não são de "esquerda" nem de "direita", sendo patético ver a sua dignidade, muitas vezes, refém de aproveitamentos sectários, como se vê em algumas romagens de saudade. Esse militares lutaram por Portugal, na perspetiva do país que o regime impunha, defendendo o que lhes apontavam como sendo a nossa bandeira. E, contrariamente a certas vozes que por vezes emergem, tão patriotas eram os soldados que lutavam contra os movimentos independentistas das colónias (chamados então de "terroristas") como quantos se opunham, no interior ou exilados no estrangeiro, ao regime ditatorial que vigorava no país. Desigualizá-los em patriotismo é assumir a ideologia da ditadura. Hoje isso não é proibido, mas não deixa de ser significativo.

Convém também lembrar que foram essas mesmas Forças Armadas - as quais, com o seu esforço, tinham dado ao regime muito tempo para uma resolução política da questão colonial - que derrubaram o regime ditatorial e instauraram o sistema democrático. Foi a necessidade dessa rutura, que teria sido evitável se tivesse havido uma negociação tempestiva, que conduziu a uma independência atribulada das colónias, com dramas humanos - para os portugueses e para os povos colonizados - que eram perfeitamente escusados.

Por tudo isso, porque as coisas são o que são, continuarei a usar, aqui e como noutros contextos, a expressão guerra colonial. Outros podem optar por uma "terceira via", para fugir ao dilema: falar das "guerras de África" ou das "campanhas de África". Eu continuarei a chamar as coisas pelos seus nomes.

14 comentários:

patricio branco disse...

Sem duvida que eram colónias e a guerra era colonial.
Interessante que hoje o termo colónia não se usa, se aplicado a situações presentes, mas apenas em sentido histórico (parece-me).
As colónias que ainda existem, e são muitas, desde a martinica e guiana à nova caledónia e kergelen, das falkland a sta helena e gibraltar, do hawwai a porto rico, de curaçao e st martin, etc, chamam-se territórios ou departamentos de alem mar ou ultramarinos, estados, oversea territories,etc, tudo menos colónias nas designações oficiais.
Não sei se é decisão dos paises donos dessas colónias ou se uma terminologia adoptada nas nações unidas.
Tiro destas listas canárias, açores, madeira, creta e centenas de ilhas em todo o mundo que sempre foram consideradas ilhas extensões geográficas dos países a que pertencem.
Se ~´a alguma colónia que ainda se chama oficialmente colónia não sei, creio que não.

Anónimo disse...

Há dias comentei com um amigo(?) que apreciava a sua (não a dele, óbvio...) clarividência de opiniões. Nada pior que dizer a alguém, que ainda vive no mito de castas, que um dos reconhecidamente "seus" é alguém muito para além disso. Confesso que me deu muito gozo observar a reacção.

Gosto muito das suas opiniões. Se há pessoas que precisam de acreditar que as pessoas "não degeneram" socialmente por ter opiniões diferentes das do seu grupo social, eu sou uma delas. Não é admissível esse tipo de lógica, totalmente ilógica face a uma visão moderna da nossa vida.

Leonor Pinto

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Leonor Pinto: pode crer que fico muito sensibilizado por aquilo que o seu comentário traduz.

Gil disse...

Colónias, guerra colonial – são esses os termos correctos e não os usar é mais grave do que pode parecer à primeira vista.
Adoçar, no discurso, o que essas guerras – e aquilo que as motivou – foram e representaram, significa ceder, ainda que inconsciente ou subconscientemente, a uma tendência revisionista da História recente que é actualmente hegemónica na sociedade portuguesa. Trata-se de uma revisão que pretende impor uma imagem rósea e patriarcal da ditadura que, afinal, não teria sido tão sinistra como os antifascistas, uma minoria de exaltados e mitómanos idosos e ridículos, apregoam.
O marcelismo é quase louvado e teria sido uma espécie de transição, uma quase proto-democracia que só não resultou num regime de grande liberdade porque foi uma experiência interrompida por um punhado de jovens oficiais impacientes e de cabeça quente que deitou a perder p esforço de gente culta, sábia e honesta. O 25 de Abril (na versão menos radical, porque na outra foi um período de demência e de desmandos, de distúrbios e delitos) uma festa folclórica enfeitada de cravos, rapidamente estragada por tentativas de instauração de ditaduras “de sinal contrário”.
É a ideologia que permitiu louvar e distinguir agentes da PIDE ao mesmo tempo em que se recusou distinguir o Capitão Salgueiro Maia; a do “pensamento único” liberal segundo o qual “não há alternativas” fora do mercado; a que remete para a categoria dos tolinhos ou dos malfeitores quem está fora do molde; a que comporta (também não é tão inocente como pode parecer) a escolha da figura mesquinha, sombria e sinistra de Salazar como modelo do “maior português do Sec XX”; aquela para que ter sido opositor ao regime salazarista ou à guerra colonial voltou a ser um estigma e uma coisa malvista, de que fica mal falar em público.
Perdoe-me a veemência mas é preciso lembrar estas coisas, ainda que as vozes sejam minoritárias e débeis. É que, como dizia um conhecido pensador do Sec XIX, em cada momento e em cada sociedade, as ideias dominantes são as da classe dominante.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Não tenho nada a acrescentar ao texto. Uma vez mais, concordo em absoluto. Quando, infelizmente, andei metido nela em Angola era a guerra ultramarina. Para o regime e... para muita gente que hoje é exemplo de "democrata de longa data".

Era uma guerra colonial, ponto. Nesses tempos da ditadura, tudo mudara para Ultramar e correlativos. Com uma honrosa excepção: o Bairro das Colónias...

António P. disse...

Caro Embaixador,
Isto não tem nada a ver com o seu post mas com uma situação que estou a verificar quando vissito o seu blogue : que é de entrar um virus.
Se for ao meu blogue está lá desccrito o que se passa e uma ajuda.
Melhores cumprimentos e um bom fim de semana

Anónimo disse...

Essa terminologia, entre “Guerra Colonial” e “Guerra do Ultramar” define também as fronteiras, digamos, ideológicas, não diria de “esquerda” ou “direita”, mas entre quem aceita, mal, ainda hoje, o que se seguiu ao 25 de Abril, e que era antes dessa data. É curioso como muitos, ainda hoje, políticos sobretudo, de nossa “praça actual” se recusam, liminarmente, a mencionar essa simples, mas verdadeira palavra: “(guerra) colonial”. Preferem recorrer a outros “eufemismos”. Alguns são relevantes figuras da Oposição.
É curioso!
P.Rufino

Helena Oneto disse...

Excelente lição da nossa Historia colonial!

Excelente também o comentario de Leonor Pinto!

Julia Macias-Valet disse...

http://www.guerracolonial.org/

Helena Oneto disse...

..."é preciso lembrar estas coisas, ainda que as vozes sejam minoritárias e débeis. É que, como dizia um conhecido pensador do Sec XIX, em cada momento e em cada sociedade, as ideias dominantes são as da classe dominante."

Caro Gil, FSC tem imensa razão em lembrar 'estas coisas' e creia que somos muitos mais que uma minoria a lembrar estas coisas!
Gostei da veemência do seu comentario.
Bien à vous!

Anónimo disse...

"Tão patriotas eram os soldados que lutavam contra os movimentos independentistas das colónias (chamados então de "terroristas") como quantos se opunham, no interior ou exilados no estrangeiro, ao regime ditatorial que vigorava no país. Desigualizá-los em patriotismo é assumir a ideologia da ditadura. Hoje isso não é proibido, mas não deixa de ser significativo."

"Rutura, que teria sido evitável se tivesse havido uma negociação tempestiva, que conduziu a uma independência atribulada das colónias, com dramas humanos - para os portugueses e para os povos colonizados - que eram perfeitamente escusados.
In FSC

Citações com admiração...
Se ao menos tivessem repercussões como pensamento humano proativo e visionário para evição de erros similares...

Do ponto de vista humano quem gera deliberadamente uma gravidez indesejada por ...Fundamentalismo egocêntrico e inconsequente deveria no mínimo ser obrigado a casar com o stress pós traumático...

Isabel Seixas
Ah! e família...E...Mesmo assim

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Para além do excelente e oportuno post, venho confirmar o que diz António P. Também eu sou agora notificada de ameaça virótica, que tenho de limpar de imediato, quando aqui venho. Mas só me está acontecer há uma semana!

Anónimo disse...

Senhor Embaixador: trago aqui um pormenor que,embora não sendo mais que isso mesmo, me parece significativo da mentira do regime quanto a terminologia usada a propósito do tema.
Na Faculdade de Direito de Coimbra havia uma cadeira que, após o eclodir da guerra, se passou a denominar Administração e Direito Ultramarino em vez de Direito Colonial.
Eduardo

Alcipe disse...

Mais vale tarde do que nunca : bravo por este excelente comentário!