domingo, 13 de fevereiro de 2011

Gerard Castello-Lopes (1925-2011)

Há quase dois anos, tive o gosto de estar presente na inauguração de uma exposição de Gérard Castello-Lopes, num festival próximo de Angoulême. O fotógrafo estava, de há muito, incapacitado por doença. Faleceu ontem, aqui em Paris, aos 85 anos.

Conheci Gérard Castello-Lopes há uma boa década, num daqueles divertidos almoços de Agosto, em Sintra, em casa do Bartolomeu Cid dos Santos, em que o também já desaparecido anfitrião tinha o condão de juntar um grupo magnífico, de alguns dentre os seus inúmeros amigos. Recordo-lhe a voz forte e as gargalhadas francas, com que desfiava e acompanhava histórias da vida. Conhecia as suas anteriores andanças pelo quadro do meu ministério, quando fora tentado por José Cutileiro a fazer parte da delegação junto do Conselho da Europa, em Estrasburgo. E, naturalmente, sabia do seu trabalho na área da cultura, em especial ligado ao cinema, uma paixão e negócio de família.

Curiosamente, iria ser na fotografia que Gérard Castello-Lopes mereceria um maior reconhecimento público. Os seus trabalhos, onde se podem ver as influências de Cartier-Bresson, desenharam um inultrapassado retrato antropológico de um certo Portugal e colocaram-no na escassa galeria dos nossos grandes fotógrafos. Por isso, creio que a melhor maneira de lembrá-lo hoje é publicar uma das suas belas fotografias.

À Danièle, deixo aqui o nosso abraço solidário.

12 comentários:

Cunha Ribeiro disse...

Solidarizo-me com esta homenagem. Os nossos mortos vivem pelas nossas memórias

patricio branco disse...

magníficas fotografias de lisboa e não só as do mestre GCL. Algumas ficam gravadas na memória, são imagens que têm a alma duma cidade.
Outro grande fotógrafo da mesma geração é fernando lemos, este com trabalhos mais compostos e construidos, fotografias sobre fotografias, arranjos fotograficos. Vale a pena ver.
2 fotógrafos portanto de grande qualidade e nível internacional, ao lado dos melhores.
Na actualidade destaco a actividade fotográfica de antonio barreto (ex ministro) que tem um blogue que inclui trabalhos seus ("jacarandá") e recentemente editou um livro, desculpe-se me a publicidade.
Maravilhosa mas dificil arte, a da fotografia.
Quando era pequeno, até aos 13 ou 14 anos, um dia por ano a familia, pai, mãe, filhos,ia ao fotógrafo profissional tirar o retrato de familia, que depois era emoldurado. Esplendido e belo costume que muito se perdeu.
Há anos fiz quase o mesmo,um bom fotógrafo belga que conhecia e tem magníficas fotografias de paisagens rochosas e montanhosas de uma zona de portugal, mas que tambem fotografa pessoas, acedeu a fotografar-me a mim e familia, embora não com a formalidade das antigas.
As fotografaias dele, paisagens, rochas, pessoas,por aí andam em sítios na internet dedicados à fotografia.
Ver as fotografias de GCL (algumas foram utilizadas para postais de lisboa) é ficar emocionado e fascinado.

patricio branco disse...

Deve ser fotografia do arco do carvalhão, de baixo para cima. Virado para baixo, GCL tem uma (talvez ainda mais bonita pró meu gosto) fotografia da casa de esquina da rua d. maria pia, com algumas pessoas a caminhar no passeio.
António barreto fotografou o fotógrafo GCL, anda por aí esse retrato de um fotógrafo por outro.

Francisco Seixas da Costa disse...

Não posso garantir, mas parece-me mais o arco do Cais do Sodré

Anónimo disse...

Subscrevo...
De facto a imagem é linda...
Deixa-me Muda de espanto.

Há sensibilidades que só podem ter algo de genial ao captar a sensibilidade estética de um mundo de imagens onde cabem a solidão, o amor , a paz, o sonho, a luz do entardecer... enfim turbilhão...
Prazer de ver...

E daí Convenhamos que não feneceu viveu com demasiada intensidade, até construiu diferenciação individual.

confesso que adorei conhecer...
Para Mim Nasceu.
Isabel Seixas

Julia Macias-Valet disse...

A proposito de Gérad Castello-Lopes li agora no "Avenida da Saluquia 34 ":

"Contaram-me uma vez esta história de Gérard Castello-Lopes. Quando lhe perguntaram o que o separava do coronel Luís Silva, então à frente da Lusomundo, respondeu, simplesmente: eu gosto de cinema."

Julia Macias-Valet disse...

Para recordar...ou descobrir :

http://www.youtube.com/watch?v=YgcAPBJ5GLc

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Conheci ambos os manos Castello Lopes. Para além de gostar da pessoa gostava muito do fotógrafo.
Às vezes as pessoas descobrem em si várias vocações. Foi o que me aconteceu quando visitei a recente exposição de fotografias do sociólogo António Barreto, realizada há um mês em Lisboa.

PS Congratulo-me com a manutenção dos dois LL no nome de Gerard!

Maria disse...

Tambem eu fiquei triste com a noticia que recebi hoje de manha enquanto trabalhava. Recordei com imensa saudade os almocos de Agosto em nossa casa em Sintra e outros. So para citar mais dois: na casa da Malveira do Gerard e Danielle no aniversario do Gerard, em casa da Alice e Helmut Wohl em Colares, no aniversario da Alice.

Agosto e um mes de aniversarios de tantos amigos.. Danille, um grande beijo. Vou escrever-te.

Fernanda Paixao dos Santos

Manuela disse...

Relembro o Gérard com muita saudade. Não parece real que com ele morra a réstea de realidade de uma fase, que se tornou de repente longínqua, da minha vida. Fomos colegas no Quelhas e ele era um irmão mais velho, um vanguardista das idéias, às vezes quase aterrador no meio acanhado em que se vivia. Eramos quatro nas noitadas em que escrevemos, rindo de exaustão, o texto da récita de fim de curso. Ele passava da análise dessa pequenez de mundo à descoberta de cada um de nós e sabia ser contundente, com elegância e eficácia. Dessas noitadas ficava sempre um rasto de conhecimento novo. Fotografava-nos a alma. As episódicas vezes em que nos encontrámos depois eram já mundanas e já ríamos contidos. Adeus Gérard. Este mundo era pequeno para a tua inteligência e a crise mata o espírito. Manuela Morgado

Gil disse...

Julia Macias-Valet,
Eis outra história do Gerard a que eu próprio assisti.
Alguém que o GCL conhecia mal, sabendo que este não morria de amores por uma terceira pessoa e, talvez tentando conseguir-lhe as boas graças, começou uma conversa algo maliciosa sobre a tal terceira pessoa.
O Gerard atalhou, com o seu vozeirão e do alto dos seus quase dois metros: "Desculpe mas eu não lhe admito que diga mal de um meu inimigo íntimo".
Era assim, o GCL, generoso, de uma simplicidade amigável, que o levou, por exemplo, a pedir (e a orgulhar-se de o ter conseguido) para ser assistente de realização, ele, industrial e profundo conhecedor da arte, num dos primeiros filmes de João César Monteiro, então um obscuro e desconhecido candidato a cineasta mas que o GCL conhecia e admirava.

manelserra disse...

Quase de certeza o arco onde se situa a porta de entrada do Texas Bar no Cais do Sodré