Costa esqueceu-se das regras e apertou a mão a um ministro. Não devem tardar os pedidos para que se demita ou, no mínimo, o apelo a que se crie uma comissão parlamentar de inquérito. Ou isto já não é o que era!
quinta-feira, abril 09, 2020
A verdade a que eles têm direito
Dado o modo displicente como a Bielorrússia está a tratar a questão do vírus, pode dizer-se que prevalece por ali uma espécie de “laxismo-leninismo”.
Casa
Gosto imenso de estar em casa, tenho mesmo muito prazer em passar dias inteiros sem sair. Mas, nestas últimas semanas, dei-me conta de que só gosto disso quando sei que posso ir à rua quando me apetecer.
Cuidados
Boris Johnson saiu dos cuidados intensivos. A União Europeia, a acreditar no que nos chega do Eurogrupo, ainda não.
Salsa, coentros & muita simpatia
Não, não vou enveredar por qualquer receita culinária! Sou um perfeito incapaz em matéria de confeção gastronómica, pelo que me limito, modestamente e no fim da linha, a degustar aquilo que quem sabe me proporciona.
Nestes dias de confinamento, de quando em vez, recorremos ao “take away”, mas apenas e exclusivamente, aos que nos trazem as coisas a casa. E com antecipada (quase) garantia de qualidade.
Já aqui falei de excelentes refeições que nos foram proporcionadas pela Marta Bártolo (965 080 839) e pela Tasca da Esquina (919 837 255).
Hoje, falo do Duarte, um bom amigo que conheci na Charcutaria, primeiro na Coelho da Rocha, depois no Alecrim, e que, desde há bem mais de uma década, criou esse pouso de boa comida que é o “Salsa & Coentros”, num improvável lugar de Alvalade, não muito longe dos bombeiros e do LNEC.
Para ontem e hoje, encomendei-lhe uma perdiz de escabeche, um magnífico arroz de pato, uma encharcada (espero que ao meu médico escape este post) e uma tarte de requeijão. Ah! e, claro, tudo antecedido de umas empadas que fazem parte da imagem de marca da casa.
Para evitar que tudo se perdesse numa sinfonia sem direção, fiz acompanhar as vitualhas de um Chryseia de 2015, que tinha há muito “arquivado” e que esteve bem à altura do repasto, ou vice-versa.
O vírus, se formos descuidados e inconscientes, pode tirar-nos a vida. Mas, antes disso, ao menos, que nos não tire o apetite.
Querem comemorar bem esta Páscoa? Telefonem ao Duarte (218 410 900 ou 960 000 381) e peçam uma refeição ao “Salsa & Coentros”. Vem tudo impecavelmente embalado e pagam com o cartão, à chegada. E verão que o preço é bem “em conta”!
Saudades do Pacto de Estabilidade
Dizer que tenho saudades do Pacto de Estabilidade é sacrilégio? Há dias, quando a presidente da Comissão anunciou a suspensão do Pacto, tive um sentimento ambivalente. De facto, com as despesas estatais a dispararem em todos os Estados, que outra decisão poderia ela tomar? É como se passássemos a andar a 180 km/h nas auto-estradas e a GNR dissesse que não nos ia multar a todos! Nessa “generosidade”, vi um presente envenenado.
O Pacto de Estabilidade é o “código da estrada” do euro. As suas regras, que viriam a revelar-se insuficientes, foi aquilo que o ministro das Finanças alemão, Theo Waigel, nesse tempo em que era ainda Bona e não Berlim, aceitou prescindir do Marco, considerou o mínimo indispensável para os países poderem fazer parte do euro.
Tinha regras fixas, outras tendenciais, e, pouco tempo depois da sua entrada em vigor, logo se constatou uma realidade não escrita: o Pacto era para ser cumprido com rigor pelas economias mais fracas mas tinha uma “elasticidade” maior quando os prevaricadores fossem dos “powers that be” europeus. Ou, como um dia disse Jean-Claude Juncker, quando perguntado por que não era sancionada a França: “parce que c’est la France!”. Depois do Pacto, o Tratado Orçamental e algumas outras regras viriam a somar-se aos requisitos para os membros do euro.
Por que tenho saudades do Pacto de Estabilidade? Porque foi graças ao cumprimento escrupuloso da sua regra do défice máximo que Portugal, apesar de ter uma dívida monstra, pôde começar a ir aos mercados para a “reciclar” a taxas cada vez mais baixas. Por isso Centeno preside ao Eurogrupo. A geringonça é, no fundo, um filho “bastardo” do Pacto de Estabilidade. Os “compagnons de route” do PS mantiveram a sua retórica irresponsável contra o Pacto, mas foram “comprados” com a recuperação de rendimentos e uma limitada reversão nas privatizações, que financia a máquina sindical comunista.
O nosso futuro, na sua extrema complexidade, vai agora ser muito simples. Portugal, bem como os outros países com dívida alta que os mercados olham com desconfiança, está num dilema. Ou consegue assegurar que tudo quanto vier a gastar acima das taxas máximas de défice previstas no Pacto será coberto por um qualquer modelo de raiz europeia que, a curto ou médio prazo, não impacte no seu serviço de dívida ou, na ausência desse suporte, se a dívida soberana portuguesa vier a ter de acumular mais esses astronómicos montantes, as taxas de juro que pagamos nos mercados vão disparar, a nossa dívida dá um salto gigantesco e a permanência no euro fica em sério risco.
Os mercados não são nem europeístas nem solidários. De momento, estão relativamente quietos, porque todos os Estados estão ainda no mesmo barco. Quando uns passarem para iates e outros para cascas de noz, os efeitos da tempestade serão muito diferentes para cada um. Por isso, seria essencial que o nosso défice regular regressasse ao conforto do Pacto de Estabilidade e que o défice excedentário passasse a ser coberto por mecanismos europeus – chamem-se coronabonds, moratórias ou seja lá o que for.
quarta-feira, abril 08, 2020
Fundos para gatunos, já!
Um amigo, que reside em Lisboa, teve a sua casa assaltada, num destes dias de confinamento. Os ladrões forçaram a porta de entrada e fizeram uma “limpeza”, embora apenas no hall, provavelmente por sentirem que o resto do apartamento estava ocupado.
Sabendo do facto, telefonei-lhe. Estava sereno e construtivo: “Deve tratar-se de rapaziada que ficou sem ocupação, pelo fim da atividade no 28, onde “aliviava” turistas”. Referia-se ao pessoal que, esforçado, desde manhã cedo, se dedicava a operar no elétrico 28, que parte dos Prazeres para outros locais mais animados.
Pensando bem, a culpa não é dos larápios, é do governo. Porquê? Porque as nossas autoridades, que tenha sido anunciado, ainda não criaram uma linha de financiamento compensatório da suspensão da atividade dos carteiristas, pequenos gatunos e ofícios correlativos. Dir-se-á que não é admissível apoiar atividades ilícitas. É verdade. Mas nada impede - pelo contrário, tudo o recomenda! - que o governo financie os potenciais delinquentes. Financiar delinquentes? Leu mal. Eu não proponho que se financiem pessoas que cometam ilícitos, sugiro que se subsidiem essas pessoas a montante da execução do delito. Um carteirista, impossibilitado de subtrair uma bolsa a uma americana de passagem, nunca poderia beneficiar de uma compensação financeira se o tivesse feito. Seria imoral! Mas se receber uma ajuda financeira antes de cometer o delito, não apenas isso ajudaria a economia como, muito provavelmente, evitaria a consumação do delito (a verdade é que a americana já “desandou” de cá). Era “dois em um”! De uma coisa tenho (sempre) a certeza: a culpa de tudo isto é do governo!
Pense nisto, leitor, enquanto eu me delicio com uns gambozinos preparados de escabeche pelo Alain Ducasse, que encontrei, de máscara à Zorro, na fila para o pão no Gleba, ali em Alcântara.
O desabafo do Eugénio
Eugénio Lisboa é, de há muito, um amigo. Escritor, crítico e homem desassombrado, tem sobre a vida, e sobre as coisas que ela nos traz, opiniões sempre claras. Não se esconde por detrás das palavras, usa-as como armas da crítica, na fórmula de um clássico. Diz o que pensa, o que é muito evidente nas memórias com que, desde há alguns anos, nos tem recordado tempos e pessoas do seu passado rico e diverso.
Nestes dias de chumbo, em que a poesia e a graça fazem parte do quotidiano de todos nós, mandou-me este curto exercício de estilo.
Ele aqui fica, com um abraço para ele e votos de muita saúde, para que o sol, que não tardará, o possa fazer voltar a sentar, com conforto, nos únicos bancos em que sempre podemos manter confiança.
VERSINHOS DE UM POETA COM ALGUMAS DIFICULDADE DE CONJUGAÇÃO
O Trump, fodido, irá-se
embora se a peste vá-se.
Que chatice se ele ficasse
no governo e nos lixasse!
Que bom se ele se fixasse
na sua Torre e se calasse!
Se o Almada ainda falasse,
diria que o Trump, sem classe,
cheira mal da boca – hélas!
Eugénio Lisboa,
Com um muito humilde pedido de desculpas
por isto não ser tão bom como, digamos, os Lusíadas!
Os dias da imprensa
Há uns tempos, em Vila Real, observei um jovem, na casa dos 20 anos, a comprar dois jornais. Porque ver alguém daquela idade sobraçar imprensa em papel é, por estes dias, uma imagem quase de ficção, ousei perguntar-lhe se ia ler aquilo que acabava de comprar. Olhou-me com alguma estranheza e explicou que os jornais eram para o avô. Nem sequer eram para o pai, dei comigo a imaginar.
Esse avô, tal como eu, era, com certeza, alguém que gostava de folhear a imprensa, de perceber, pelo lugar onde a notícia “sai”, a sua importância relativa. Olharia primeiro, como toda a gente, a página de rosto, depois talvez a terceira ou a última e, tal como a psicologia tradicional aponta, daria, provavelmente, mais importância àquilo que vem nas páginas ímpares do que nas páginas pares - numa das quais, no entanto, o leitor está a fazer o favor de me ler, neste momento, porque quem gosta da opinião sabe onde procurá-la.
No bairro onde vivo, em Lisboa, conseguir comprar um jornal é uma tarefa que exige já uma certa “expertise” – e falo dos tempos de vida normal, não deste confinamento, que nos faz perceber melhor o que deve ser estar com “residência fixa” ou de pulseira eletrónica. As escassas tabacarias, quase já só nos bairros adjacentes, fecham cedo, em algumas certos jornais ou revistas esgotam-se rapidamente, em outras há títulos (como este JN) que nunca surgem à venda. Repito: começa a dar já algum trabalho comprar imprensa em papel.
Não quero parecer catastrofista, mas, ainda antes desta crise, era óbvio que a imprensa escrita estava a perder popularidade - imagino que com exceção da que alimenta o sectarismo desportivo ou a especializada no “voyeurisme” do crime, na vida social dos “famosos”, nos desastres e em tudo o que “corre mal”. E, mesmo essa, ao que consta, estará também a declinar, substituída pelo comodismo da imagem televisiva repetida à exaustão. Irá esta crise ser-lhe fatal?
Sinto-me um utente viciado em plataformas de informação em declínio. Comecei já a migrar para o “on-line”, embora não deva ser exemplo maioritário nas pessoas da minha faixa etária. Uso iPad e iPhone e percebo o truque dos títulos preparados para os “clickbaits”, que dão aos jornais números para encantar os anunciantes. Não tenho hoje falta de notícias, tenho mesmo notícias a mais, o que é diferente de ter melhor informação. A informação são as notícias trabalhadas por alguém que nos dá plena garantia de isenção. Nos dias que correm, estou a perder esses mediadores de confiança.
terça-feira, abril 07, 2020
Hume
Havia lá por casa, em Vila Real, um livro com o título “Tratado da Natureza Humana”. Era uma tradução francesa de uma obra de David Hume, um importante filósofo do século XVIII. Nunca li o livro, confesso, embora, muitos anos mais tarde, tivesse vindo a conhecer a essência do pensamento do autor. O meu pai tinha-o herdado do meu avô, mas também nunca me pareceu muito interessado nele.
Um dia, tinha eu aí uns oito ou nove anos, perguntei-lhe: “Este livro é sobre quê? Quem o escreveu?” O meu pai, sem que eu lhe tivesse detetado a ironia, disse: “É de um filósofo. Foi o homem que inventou a pedra Hume...” E passou adiante. Eu registei.
A pedra Hume era uma massa translúcida que via numa prateleira da casa de banho e que o meu pai usava para estancar o sangue, em caso de pequenas feridas na feitura da barba.
Muitos anos mais tarde, numa ida a Vila Real, ao ver o livro numa estante, quando já sabia bem quem era David Hume, confrontei o meu pai com a resposta que me tinha dado. Já não se lembrava. Os miúdos fixam estas coisas, os adultos não. Rimo-nos.
Hoje de manhã, alguém me ouviu dizer, irritado com um inesperado corte na pele, ao fazer a barba: “Onde é que anda a pedra Hume?”. “A pedra quê?”, foi a resposta. Cá em casa não há nem nunca houve pedra Hume. Há uns sticks envolvidos num papel vermelho, com um nome comercial qualquer. E, como é típico destas coisas de utilização rara, para emergências, nunca estão num sítio visível quando delas necessitamos.
Enfim, coisas do quotidiano, em dias de confinamento. Prometo solenemente duas coisas: não escrever um diário deste tempo do vírus e, em absoluto, não comprar nenhum livro inspirado no tema. Já basta o que basta, e não é pouco!
A outra quarentena
Bem pode Rui Rio tentar que o seu PSD mantenha atitudes de Estado! Alguns dos seus parceiros de partido, em especial no Twitter e Facebook, esforçam-se em encontrar nichos de polémica com o governo, para não “perderem a mão”, aguardando ansiosos o fim da quarentena da unidade.
segunda-feira, abril 06, 2020
A vida de um amigo
Manuel Domingos Augusto é, desde há muitos anos, um amigo muito próximo. Conhecemo-nos em Luanda, em 1982. Era, à época, o meu contraparte angolano no Ministério da Cooperação. Com ele, num tempo muito difícil das relações bilaterais, estabeleci um entendimento que, sem pôr em causa a defesa que cada um de nós fazia do interesse de cada um dos nossos países, tinha uma componente pessoal, que começou marcada pela cordialidade e acabou numa sólida amizade. Desde então, celebrámo-la pelo mundo, onde, a espaços e nos mais variados locais, nos íamos encontrando. Ele fez uma carreira brilhante, primeiro na diplomacia, depois na política, onde desempenhou vários cargos, o último dos quais o de Ministro das Relações Exteriores, posto que ocupou até hoje. Há umas semanas, aqui em Lisboa, tivemos mais um longo e agradável almoço a dois, num lugar com a vista que a imagem mostra. Outros haverá no futuro, como já combinámos! Já escolhi o vinho, Manel!
Apoio à imprensa
Eu também gosto da ideia de se apoiar o jornalismo, isto é, ajudar quem relata os factos com rigor, quem ouve sempre de forma equilibrada ambos os lados de uma polémica, quem não confunde notícias com opinião.
Não me importo de ajudar, com os meus impostos, aqueles jornais, televisões ou rádios onde a regra é o pluralismo equilibrado das vozes (e não o facto de ter por lá um ou dois do “outro lado”, para fingir diversidade), que são algo mais do que veículos disfarçados para a propagação de projetos ideológicos ou partidários.
Mas só esses!
domingo, abril 05, 2020
Saúde
Gostei muito da entrevista dada pela ministra da Saúde, Marta Temido, à RTP. Confirmou-me a excelente impressão que, desde o primeiro momento, tenho desta ministra.
Há uma realidade muito simples, que nunca vi dita ou escrita: nenhuma pessoa morreu em Portugal, por virtude deste vírus, por ausência de assistência adequada no SNS, nomeadamente por falta de ventiladores.
O discurso da rainha
Vi, há minutos, o discurso da rainha Isabel II ao país. Estava lá o essencial. Quem escreveu o texto fê-lo com uma grande atenção aos pormenores, sem gongorismos e numa linguagem escorreita e muito adequada. A mensagem tinha um tom muito profissional, bem à altura da grande profissional da representação simbólica do poder que aquela senhora é. Pela primeira vez num seu discurso real - e lembro-me de todos os anteriores, desde aquele que ela mencionou, nos anos 40 - houve um “editing” de imagem, intercalando neste caso cenas do combate ao vírus. O Reino (“so far”) Unido do futuro deve ter gostado: modernidade qb e tradição com conta peso e medida. Como gostou, com certeza, daquela imensa serenidade, a roçar, como sempre, uma aparente frieza - menos “blood, sweat and tears” e mais “we shall overcome”. Até nisso, o discurso foi britânico. Enfim, foi uma boa peça, de alguém que falou com a autoridade da muita História que já passou por ela, onde não faltou a inevitável referência à Commonwealth, embora, neste caso, a diversidade da dita impeça qualquer juízo valorativo de eficácia sobre o modo como aí terá sido sentida a mensagem. Há ainda algo que me marcou: a pompa com que todas as televisões marcaram a entrada em cena da soberana. Persiste por ali um respeito, que faz parte da coreografia que sustenta a monarquia, e que uma vez mais ficou bem visível. Mas quando esta senhora morrer, e ela “já não vai para nova”, ou há uma imensa inteligência e bom senso da parte de quem lhe suceder, ou esta “magia” dificilmente sobreviverá por muito tempo.
Mais um livro?
Há dias em que sinto a tentação de comprar mais um livro. Mas há por aí tantos! E a bom preço, caramba! Mas eu só compro quando confio no autor. E, neste caso, não sei...
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